Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Internacional
"...É DOLOROSO QUE QUASE TODOS OS TERRORISTAS
SEJAM MUÇULMANOS"

Abdel Rahman al-Rashed, diretor da rede
de televisão Al Arabiya

Repúdio ao massacre das crianças russas
revela a existência de vozes moderadas
no mundo islâmico,
que não aceitam que
Alá seja
usado para justificar atrocidades

 
AP

REPULSA MUNDIAL
Italianos protestam em
Roma contra o massacre dos inocentes na Rússia



EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Islamismo

O massacre das crianças no sul da Rússia teve um desdobramento inesperado e, de certa forma, auspicioso: pôs em marcha entre os muçulmanos uma onda de autocrítica e condenações ao terror. "É fato que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas é igualmente certo, e doloroso, que quase todos os terroristas são muçulmanos", escreveu Abdel Rahman al-Rashed, diretor da rede de televisão Al Arabiya, a de maior audiência no mundo árabe. Rashed manifestou claramente, em sua coluna num jornal que circula por todo o mundo árabe, uma repulsa ao terror que raros muçulmanos ousam expressar em público. Seus leitores não estão acostumados a ler que não há causa que justifique o terrorismo. Na última década, sobretudo desde o ataque ao World Trade Center, há três anos, a imprensa e as pessoas com alguma autoridade nos países islâmicos sempre encontravam um desvio retórico para ignorar ou justificar ações terroristas. Quando alguém expressava reservas – por discordar de matanças indiscriminadas ou talvez por duvidar da eficácia do método – quase sempre ressalvava que se compreendiam as razões dos assassinatos em massa. Desta vez, ouviu-se coisa diferente. Rashed qualificou de "degradantes" não apenas a chacina cometida na cidadezinha russa de Beslan, mas também atentados sobre os quais os muçulmanos mantiveram silêncio. Um deles, o recente assassinato de doze trabalhadores nepaleses no Iraque. O jornal Okaz, editado na Arábia Saudita, terra natal de Osama bin Laden e de quinze dos terroristas do 11 de Setembro, resumiu sua indignação em uma manchete arrasadora: "Açougueiros em nome de Alá".

Os comentários da imprensa árabe são excepcionais por ter sido escritos por muçulmanos para ser lidos por muçulmanos. Ajudam também a jogar luz sobre um conflito existente no interior do mundo islâmico, mas pouco percebido fora dele: a disputa por corações e mentes entre duas formas de ser muçulmano nos tempos modernos. De um lado estão os fanáticos, como Osama bin Laden, cujo objetivo é destruir a civilização ocidental ou, na impossibilidade prática de um empreendimento de tal magnitude, causar aos infiéis o maior sofrimento possível. São eles que deixam um rastro de sangue inocente por onde passam. Do outro lado estão os chamados moderados. São pessoas fiéis à religião de Alá, mas que acreditam que o Islã pode coexistir pacificamente com gente de outras confissões religiosas, ou mesmo com aquelas sem fé alguma. É razoável supor que a vasta maioria do 1 bilhão de muçulmanos que vivem em quatro dezenas de países seja formada por pessoas cuja prioridade é tocar a vida pacificamente, e não sair pelo mundo trucidando crianças. No momento, infelizmente, é o culto à morte que prospera no mundo islâmico.

Os moderados sentem-se isolados, sobretudo depois da invasão do Iraque. "A reação de repulsa ao massacre na Rússia é importante, mas é difícil imaginar que a opinião pública no mundo islâmico deixe de apoiar atentados suicidas na Palestina ou no Iraque", disse a VEJA a libanesa Azizah al-Hibri, professora de direito islâmico na Universidade de Richmond, nos Estados Unidos. "Enquanto essas regiões estiverem convulsionadas pela violência, o fundamentalismo continuará avançando", acrescenta. Sempre que questionados sobre o mal-estar dominante no mundo islâmico, muçulmanos de todos os países listam alguns agravos: a invasão americana do Iraque, o conflito na Palestina, a guerra na Chechênia. Essas alegações de injustiça devem ser vistas com reservas. "É preciso ir à raiz do problema: o Islã está sendo usado para justificar a violência em vários lugares, como Chechênia, Marrocos, Palestina e Indonésia", disse a VEJA o jornalista Rashed.

 
AFP

A VOZ DAS TREVAS
Ayman al-Zawahiri, braço direito de Laden, aparece em novo vídeo: ameaças

Osama bin Laden declarou guerra aos Estados Unidos bem antes da guerra no Iraque. Essa, na verdade, é uma conseqüência do 11 de Setembro, e não o contrário. Israel tem certa responsabilidade pela atmosfera pesada no Oriente Médio. Nenhum Estado pode dominar, humilhar e maltratar outro povo sem provocar uma resposta violenta. Diga-se a favor dos israelenses, contudo, que, seja lá o que eles façam, o problema real é que a geografia os colocou como o primeiro alvo da fúria árabe contra o Ocidente. "É preciso escapar desse círculo vicioso e analisar o que é certo do ponto de vista moral, mesmo que americanos ou israelenses ataquem os muçulmanos", disse a VEJA o egípcio Khaled Abou El Fadl, professor de direito islâmico na Universidade da Califórnia.

Ajudar os moderados do mundo islâmico deveria ser o projeto das potências ocidentais. Só os moderados podem mudar a dinâmica política da vida nos países orientais de modo a desencorajar os jovens a optar pela luta terrorista. Pelo jeito, infelizmente, não é. O projeto americano de espalhar democracia pelo Oriente Médio, do qual a deposição do ditador Saddam Hussein seria o primeiro passo, acabou causando mais terrorismo, e não menos. O que move o fanatismo islâmico é a aversão, bastante presente mesmo entre os muçulmanos menos radicais, àquilo que considera os pecados da civilização liberal – a democracia, a autonomia das mulheres, a economia de mercado e as liberdades individual, artística e sexual. Não se trata de um objetivo tangível, mas da fantasia mórbida de restaurar o califado com a pureza hipotética do século VII. Que tipo de negociação pode haver com quem só deseja o paraíso e a destruição dos hereges?

Logo depois do massacre de Beslan, o presidente russo Vladimir Putin reagiu com firmeza às sugestões vindas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos de que deveria dialogar com os chechenos moderados e com esses iniciar negociações. E por boa razão. O movimento checheno pela independência começou político e racional, mas acabou tomado pelos clérigos e instrutores islâmicos que se instalaram no Cáucaso para participar da guerra santa contra os infiéis. O americano David Brooks, colunista do New York Times, escreveu que muita gente fora da Rússia prefere desviar os olhos do horror fundamental e discutir academicamente a questão chechena. "Sejam quais forem os horrores que os russos perpetraram contra os chechenos, a natureza essencial desse ato foi o ato em si", escreveu Brooks. "Foi o fato de que um grupo de seres humanos pôde entrar numa escola, conviver com centenas de crianças, olhar em seus olhos, ouvir seu choro e depois fazê-las explodir pelos ares."

O moderno fenômeno do terrorismo islâmico obteve sua licença para matar com a justificativa de que defendia uma boa causa. A opinião pública em diversos países comprou essa idéia. Esse sentimento foi totalmente raspado do quadro do terrorismo mundial. Como escreveu Brooks, a essência do terrorismo esgota-se no ato em si. É pelo ato em si que os terroristas têm de ser julgados, e não pela cultura que os gerou ou pela causa que dizem defender. Matar friamente crianças indefesas na frente de outras crianças em ginásio de escola, como fizeram os terroristas em Beslan, é um crime hediondo e indefensável. Buscar agora as razões que levaram à desumanização dos terroristas não faz sentido na ordem de prioridade que suas ações suscitam. Em primeiro lugar, como sustenta Vladimir Putin, eles precisam ser caçados onde quer que estejam fincados seus acampamentos.

 

O CORÃO E A MATANÇA

 
Reuters

ASSASSINOS EM AÇÃO
Refém sul-coreano é exibido antes de ser decapitado no Iraque

Os terroristas islâmicos costumam citar passagens do Corão, o livro santo do Islã, para justificar atrocidades. Desde abril, oito estrangeiros seqüestrados foram decapitados no Iraque. O ritual incluiu a gravação em vídeo da execução, acompanhada da leitura de um trecho do Corão no qual Maomé ordena a decapitação de prisioneiros. Cortar cabeças é realmente um ato sacramentado pelo Islã? Bem, certo verso corânico recomenda a decapitação, mas só no campo de batalha. Outra passagem, na qual Maomé faz referência à decapitação de prisioneiros, foi revista no século X – e, na versão aceita como definitiva, o profeta liberta os prisioneiros. A citação usada pelos terroristas como justificativa de atrocidades é exatamente aquela expurgada pelos teólogos do passado. "Distorcer os textos sagrados para atender a um interesse específico é freqüente entre os fundamentalistas de todas as religiões", disse a VEJA o teólogo americano Gabriel Said Reynolds, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. "No caso do Islã, em que não há uma hierarquia clerical rígida, é comum a interpretação do Corão ser feita por um imã sem uma educação religiosa adequada", acrescenta. Muitos estudiosos do Islã entendem que a decapitação é um pecado, pois Maomé proibiu expressamente mutilar o corpo dos inimigos e também maltratar os prisioneiros.

 

 
 
 
 
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