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Eleições
Brasileiro sabe
votar, sim, senhor
Os eleitores brasileiros estão
mais objetivos e menos emotivos
na hora de escolher um candidato

Cynara Menezes e Monica Weinberg
A melhor novidade das próximas eleições
municipais não diz respeito aos candidatos e sim aos
eleitores. O brasileiro que ia às urnas embalado pela emoção
ou motivado por pura ideologia está dando lugar a um tipo
mais racional, atento ao desempenho dos políticos e com boa
memória para fugir dos que não corresponderam às
suas expectativas. Os números jogam luz no fenômeno.
Pesquisa realizada pelo instituto Vox Populi na cidade de São
Paulo, a pedido de VEJA, concluiu que, de uma lista fechada de treze
qualidades, 46% do eleitorado prioriza atributos associados à
honestidade, como "ter palavra" e "ser sincero" (veja
quadro). Trata-se de um resultado pouco provável
no Brasil de pouco mais de uma década atrás, quando
se privilegiavam políticos que vendiam apenas a imagem de
empreendedores e bons de comunicação. Esse tipo não
cativa atualmente mais que 2% do eleitorado, como revela a pesquisa
Vox Populi. A idéia da eficiência administrativa está
agora diretamente conectada à confiabilidade e não
ao volume de canteiros de obra que os políticos dizem ser
capazes de erguer. Enquetes feitas em capitais como Belo Horizonte,
Porto Alegre e Recife chegaram à mesma conclusão.
"Houve um salto de qualidade no eleitorado brasileiro", diz o cientista
político Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
Há outros sinais de que o voto passou
a ser guiado por aspectos mais objetivos. Uma comparação
feita pelo instituto Datafolha entre os brasileiros que foram às
urnas em 2000 e o atual eleitorado mostra que encolheu de 40% para
33% o número de pessoas que dizem votar baseadas principalmente
na "pessoa do candidato". Por outro lado, aumentou de 44% para 54%
a fatia de eleitores que só fazem a opção depois
de avaliar a proposta de governo. No atual pleito, o eleitor tem
se revelado um observador atento da administração
em seu município. Quando acha que o governo vai bem, manifesta
intenção de voto no candidato da situação.
Se o avalia mal, procura uma alternativa. No Rio de Janeiro, por
exemplo, a administração do atual prefeito Cesar Maia
(PFL) é considerada boa ou ótima por 61% do eleitorado
e isso tem um reflexo direto nas pesquisas de intenção
de voto. Maia alcançou 44% das preferências e está
com chances reais de vencer no primeiro turno. A mesma lógica
coloca na dianteira os candidatos do PT em Belo Horizonte e Porto
Alegre, onde as atuais gestões, petistas, também são
bem avaliadas pela população. "O voto baseado na análise
da administração revela uma objetividade que nunca
teve tanto peso sobre o voto no Brasil", observa o cientista político
Rubens Figueiredo. "Antes as pessoas nem prestavam atenção
nisso."
Em São Paulo, o eleitor tem dado demonstrações
de que está mais cuidadoso. A pesquisa Vox Populi chegou
a conclusões interessantes sobre o assunto. Uma delas: 66%
das pessoas que dizem não votar sob nenhuma hipótese
na atual prefeita Marta Suplicy alegam razões absolutamente
objetivas para fazer tal afirmação. Por exemplo, "não
estar fazendo uma boa administração", "ter implantado
taxas" ou "ter deixado as obras para o último ano de mandato".
Questões pessoais, como antipatia ou o fim do casamento com
o senador Eduardo Suplicy, ficam em segundo plano. Especialistas
dizem também que a tradicional estratégia de despejar
sobre a cabeça do eleitor promessas mirabolantes não
tem mais surtido efeito. Um exemplo disso é o CEU Saúde,
projeto de policlínicas que é uma das bandeiras de
campanha de Marta. Ao que tudo indica, a promessa não funcionou.
Para reverter a situação, na semana passada a prefeita
petista disse que, na hipótese de ser derrotada pelo tucano
José Serra, "a crise política irá se alastrar
pelo país". A idéia de partir para o ataque foi do
marido de Marta, Luis Favre. O publicitário Duda Mendonça,
que comanda a campanha, é contra. A frase de Marta lembrou
um discurso feito pela atriz Regina Duarte durante a campanha presidencial
do próprio Serra. Regina disse na ocasião que tinha
medo do que poderia acontecer com a eleição de Lula.
Não funcionou daquela vez. Não deve colar agora.
Pesquisas recentes vêm dando conta de
uma outra tendência positiva sobre o eleitorado: o aumento
da identificação dos brasileiros com partidos políticos
mais estruturados. De 1989 para cá, saltou de 48% para 58%
o número de pessoas que declaram identificar-se com uma agremiação,
resultado que faz o Brasil aproximar-se de países como Estados
Unidos, França e Inglaterra, onde essa taxa fica em torno
dos 70%. Trata-se de um fenômeno mais forte nas capitais que
nos grotões, onde ainda é comum o voto personalista,
mas autoriza uma leitura bastante otimista sobre o avanço
da democracia brasileira. Uma análise das pesquisas eleitorais
nas 26 capitais brasileiras mostra que há dois partidos que
surgem com mais força: PSDB e PT, com chance de emplacar
respectivamente onze e doze prefeituras. Os especialistas chegaram
a apostar que o tucanato iria minguar depois que perdeu o governo
federal. Isso não aconteceu. Nos últimos três
anos, praticamente dobrou o número de pessoas que declaram
ter identificação com o partido. No caso do PT, a
identificação por parte do eleitorado cresceu de 19%
para 23% no mesmo período. "A cada nova eleição,
o sistema partidário brasileiro dá novos sinais de
estar se consolidando", diz o cientista político Christopher
Garman, da consultoria Tendências.
São Paulo é a cidade onde o
processo de partidarização está mais avançado,
conforme mostra um trabalho do Centro de Estudos da Metrópole,
do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
O estudo aponta uma coerência partidária surpreendente
em dez eleições consecutivas. Exceção
a essa lógica paulistana é o ex-prefeito Paulo Maluf,
que tradicionalmente inspira um voto mais personalista do que partidário.
Mas sua candidatura está definhando. Segundo a pesquisa Vox
Populi, 59% das pessoas se recusam a escolher Maluf porque o consideram
desonesto e 11% citam os escândalos de corrupção
envolvendo o governo Celso Pitta. A maioria dos que lembram o caso
Pitta, moradores da Zona Norte da cidade, votava em Maluf no passado.
Prova de que o eleitor brasileiro não só está
deixando de ter memória curta como está preparado
para começar a produzir uma potente blindagem nas urnas.
Isso pode trazer uma bem-vinda melhora da cena política no
Brasil.
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