|
|

Retomada
Vim de longe.
E me parece tão perto. Só nestas páginas, tantos
anos. Que me parecem tão poucos.
Daqui fui
à vida. Outra. Outras revistas, outros jornais, outros palcos,
outras telas. Troca de mecanismos. Da elegante Olivetti, que ainda
está ali no canto, ao primeiro computador, muito mais feio
e muito mais eficiente, e que a maior parte dos profissionais ainda
nem sabia o que era "Vinte megas? Isso é superdimensionado!".
Troca de nominações; já não datilografo
mais, digito, e mesmo digitando já não escrevo site,
palavra nova, escrevo saite, palavra que ainda nem existe, como
pouco escrevi whisky. Ao primeiro gole descobri que era uísque.
Os que
me acompanham há anos maneira de dizer, não
acredito que ninguém me acompanhe senão há
uns poucos meses e já estou exagerando. Ninguém me
acompanha, acho. A não ser, no passado, alguns tiras, sempre
incompetentes. Mas nunca me senti sem carinho. Sempre me trataram
e me tratam extremamente bem. Na vida particular nunca ninguém
me perdoou, pelo simples fato de nunca, que eu saiba, terem me condenado.
Não sei se sou amado, mas sou infinitamente suportado. Na
vida profissional nunca me cercearam, por um lado, acho, porque
nunca se sentiram à vontade para isso. Por outro porque nunca
deixei que o fizessem. No dia em que quiseram me dar liberdade eu
respondi com singela petulância que ninguém
podia me dar liberdade. Podia tirar. O escravo quase sempre colabora
com sua escravidão.
Mas,
é bom dizer, quando cheguei aqui nestas páginas, já
tinha estado numa publicação chamada O Cruzeiro
(a tevê GLOBO de sua época) e sido amigo de Gago Coutinho,
o aviador português que primeiro atravessou o Atlântico
Sul, já tinha passado horas conversando, o quê?, nas
rampas de um edifício na Rua do Livramento, com o único
regicida brasileiro, Manso de Paiva, assassino do quase ditador
Pinheiro Machado. Lá está ele, em minha memória,
um pobre-diabo chupando gomos de tangerina, ali, na calçada
da Rua do Livramento, onde ainda se ouviam os passos de Machado
de Assis. Lembro ao acaso o show que fiz com o Zimbo Trio e Elizeth
Cardoso (eu no palco, cantando, dizem até que melhor do que
ela). Depois foi o fechamento do Pif-Paf, quinzenário
juvenil que eu fazia aos quarenta. Depois foi o que foi e o que
não foi.
Como já
perceberam, tenho mais de dez anos de imprensa. Misturei tudo de
propósito para escapar ao ridículo do cronológico
e dos detalhes. E se alguém esperava que eu ia falar de agressões,
violências, injustiças, sofrimentos e heroísmos,
só posso dizer, numa autocrítica apenas honesta, que
fui menos agredido do que merecia, menos violentado do que poderia
ter sido, e meus sofrimentos maiores foram os dos dias em que não
dava praia. E ergo as mãos a Deus por ter sido tantas vezes
injustiçado. Meu maior temor em certo momento de nossa história
era ser justiçado. Em suma, tenho me divertido muito. E,
voltando, é impossível não me sentir um filho
pródigo. Se fosse na internet vocês ouviriam minha
voz ecoando Nelson Gonçalves: "Boemia, aqui me tens de regresso".
|