Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Retomada

Vim de longe. E me parece tão perto. Só nestas páginas, tantos anos. Que me parecem tão poucos.

Daqui fui à vida. Outra. Outras revistas, outros jornais, outros palcos, outras telas. Troca de mecanismos. Da elegante Olivetti, que ainda está ali no canto, ao primeiro computador, muito mais feio e muito mais eficiente, e que a maior parte dos profissionais ainda nem sabia o que era – "Vinte megas? Isso é superdimensionado!". Troca de nominações; já não datilografo mais, digito, e mesmo digitando já não escrevo site, palavra nova, escrevo saite, palavra que ainda nem existe, como pouco escrevi whisky. Ao primeiro gole descobri que era uísque.

Os que me acompanham há anos – maneira de dizer, não acredito que ninguém me acompanhe senão há uns poucos meses e já estou exagerando. Ninguém me acompanha, acho. A não ser, no passado, alguns tiras, sempre incompetentes. Mas nunca me senti sem carinho. Sempre me trataram e me tratam extremamente bem. Na vida particular nunca ninguém me perdoou, pelo simples fato de nunca, que eu saiba, terem me condenado. Não sei se sou amado, mas sou infinitamente suportado. Na vida profissional nunca me cercearam, por um lado, acho, porque nunca se sentiram à vontade para isso. Por outro porque nunca deixei que o fizessem. No dia em que quiseram me dar liberdade eu respondi – com singela petulância – que ninguém podia me dar liberdade. Podia tirar. O escravo quase sempre colabora com sua escravidão.

Mas, é bom dizer, quando cheguei aqui nestas páginas, já tinha estado numa publicação chamada O Cruzeiro (a tevê GLOBO de sua época) e sido amigo de Gago Coutinho, o aviador português que primeiro atravessou o Atlântico Sul, já tinha passado horas conversando, o quê?, nas rampas de um edifício na Rua do Livramento, com o único regicida brasileiro, Manso de Paiva, assassino do quase ditador Pinheiro Machado. Lá está ele, em minha memória, um pobre-diabo chupando gomos de tangerina, ali, na calçada da Rua do Livramento, onde ainda se ouviam os passos de Machado de Assis. Lembro ao acaso o show que fiz com o Zimbo Trio e Elizeth Cardoso (eu no palco, cantando, dizem até que melhor do que ela). Depois foi o fechamento do Pif-Paf, quinzenário juvenil que eu fazia aos quarenta. Depois foi o que foi e o que não foi.

Como já perceberam, tenho mais de dez anos de imprensa. Misturei tudo de propósito para escapar ao ridículo do cronológico e dos detalhes. E se alguém esperava que eu ia falar de agressões, violências, injustiças, sofrimentos e heroísmos, só posso dizer, numa autocrítica apenas honesta, que fui menos agredido do que merecia, menos violentado do que poderia ter sido, e meus sofrimentos maiores foram os dos dias em que não dava praia. E ergo as mãos a Deus por ter sido tantas vezes injustiçado. Meu maior temor em certo momento de nossa história era ser justiçado. Em suma, tenho me divertido muito. E, voltando, é impossível não me sentir um filho pródigo. Se fosse na internet vocês ouviriam minha voz ecoando Nelson Gonçalves: "Boemia, aqui me tens de regresso".

 
 
 
 
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