Diogo
Mainardi
Drauzio é de morte
"A
julgar pelos casos relatados em Por um Fio,
Drauzio teria aprendido as mesmas lições se
tivesse passado os últimos trinta anos numa
filial do correio ou numa fábrica de componentes
automobilísticos"
Drauzio
Varella tratou de doentes terminais por mais de trinta anos. Em
Por um Fio, tentou "construir um caleidoscópio com
as histórias dos doentes que conheceu na prática da
cancerologia". Para Drauzio Varella, a proximidade da morte permitiu
que muitos de seus pacientes e familiares encontrassem novos significados
para a existência, "a ponto de adquirirem mais sabedoria e
viverem mais felizes que antes". A julgar pelos casos relatados
em Por um Fio, ele teria aprendido as mesmas lições
se tivesse passado os últimos trinta anos numa filial do
correio ou numa fábrica de componentes automobilísticos.
Caso: um
paciente muito rico, moribundo e com uma sonda urinária,
declara-se pronto a sacrificar dois Mercedes-Benz e um tapete persa
por um pouco de saúde. Lição: "Nada transforma
tanto o homem quanto a constatação de que seu fim
pode estar perto".
Caso: um
bicheiro piauiense, com tumor cerebral, recusa-se a buscar a redenção
numa igreja evangélica. Lição: "O caráter
de um homem não depende do local onde ganha a vida". Outra
lição: o músculo cardíaco é mais
resistente do que ensinam os livros de medicina.
Caso: seu
João, ao saber que é portador de uma doença
incurável, arrepende-se de ter perdoado, anos antes, a infidelidade
da mulher. Lição: "Há coisas que encantam o
olhar do homem: montanha ao longe, fogo crepitante, água
corrente, tela de televisão".
Caso: seu
Manoel, bígamo, com um tumor pulmonar em estado avançado,
só aceita ser internado na UTI porque ainda falta assinar
um documento estabelecendo uma justa partilha de bens entre suas
duas famílias. Lição: não devemos ser
surpreendidos por acontecimentos previsíveis.
Em Por
um Fio, Drauzio Varella apela para o mesmo sentimentalismo benevolente
de Carandiru. Confrontados com a doença, todos os
pobres do livro se comportam de maneira iluminada. Os ricos, não.
Veja o caso do doente de câncer milionário cujos filhos,
para acelerar o processo hereditário, sugerem interromper
o tratamento quimioterápico. Ou o do engenheiro com tumor
no reto que, por sua origem humilde, é desprezado pela aristocrática
família da mulher. Ele só encontra a felicidade depois
de desfazer o casamento e ir morar com uma advogada que, como ele,
defeca num saco plástico através de um orifício
aberto na parede abdominal.
Drauzio
Varella é agnóstico. A idéia de que o sofrimento
e a morte propiciam uma forma superior de sabedoria é o consolo
barato dos agnósticos. Assim como a reencarnação
é o consolo barato dos esotéricos. Drauzio Varella
é o Brian L. Weiss dos bem-pensantes. Ele diz que seus doentes
terminais compreenderam o sentido da vida. Que se resume, aparentemente,
a valorizar eventos insignificantes, como cuidar de plantas, ouvir
o canto de passarinhos, tomar café-da-manhã com parentes,
apagar as más recordações e deixar de brigar
no trânsito. Só isso? Só.
O principal
ensinamento de Por um Fio, porém, é outro.
Tome nota: em caso de tumor maligno, o melhor lugar para se tratar
é Cleveland.
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