Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Drauzio é de morte

"A julgar pelos casos relatados em Por um Fio,
Drauzio teria aprendido as mesmas lições se
tivesse passado os últimos trinta anos numa
filial do correio ou numa fábrica de componentes
automobilísticos"



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Drauzio Varella tratou de doentes terminais por mais de trinta anos. Em Por um Fio, tentou "construir um caleidoscópio com as histórias dos doentes que conheceu na prática da cancerologia". Para Drauzio Varella, a proximidade da morte permitiu que muitos de seus pacientes e familiares encontrassem novos significados para a existência, "a ponto de adquirirem mais sabedoria e viverem mais felizes que antes". A julgar pelos casos relatados em Por um Fio, ele teria aprendido as mesmas lições se tivesse passado os últimos trinta anos numa filial do correio ou numa fábrica de componentes automobilísticos.

Caso: um paciente muito rico, moribundo e com uma sonda urinária, declara-se pronto a sacrificar dois Mercedes-Benz e um tapete persa por um pouco de saúde. Lição: "Nada transforma tanto o homem quanto a constatação de que seu fim pode estar perto".

Caso: um bicheiro piauiense, com tumor cerebral, recusa-se a buscar a redenção numa igreja evangélica. Lição: "O caráter de um homem não depende do local onde ganha a vida". Outra lição: o músculo cardíaco é mais resistente do que ensinam os livros de medicina.

Caso: seu João, ao saber que é portador de uma doença incurável, arrepende-se de ter perdoado, anos antes, a infidelidade da mulher. Lição: "Há coisas que encantam o olhar do homem: montanha ao longe, fogo crepitante, água corrente, tela de televisão".

Caso: seu Manoel, bígamo, com um tumor pulmonar em estado avançado, só aceita ser internado na UTI porque ainda falta assinar um documento estabelecendo uma justa partilha de bens entre suas duas famílias. Lição: não devemos ser surpreendidos por acontecimentos previsíveis.

Em Por um Fio, Drauzio Varella apela para o mesmo sentimentalismo benevolente de Carandiru. Confrontados com a doença, todos os pobres do livro se comportam de maneira iluminada. Os ricos, não. Veja o caso do doente de câncer milionário cujos filhos, para acelerar o processo hereditário, sugerem interromper o tratamento quimioterápico. Ou o do engenheiro com tumor no reto que, por sua origem humilde, é desprezado pela aristocrática família da mulher. Ele só encontra a felicidade depois de desfazer o casamento e ir morar com uma advogada que, como ele, defeca num saco plástico através de um orifício aberto na parede abdominal.

Drauzio Varella é agnóstico. A idéia de que o sofrimento e a morte propiciam uma forma superior de sabedoria é o consolo barato dos agnósticos. Assim como a reencarnação é o consolo barato dos esotéricos. Drauzio Varella é o Brian L. Weiss dos bem-pensantes. Ele diz que seus doentes terminais compreenderam o sentido da vida. Que se resume, aparentemente, a valorizar eventos insignificantes, como cuidar de plantas, ouvir o canto de passarinhos, tomar café-da-manhã com parentes, apagar as más recordações e deixar de brigar no trânsito. Só isso? Só.

O principal ensinamento de Por um Fio, porém, é outro. Tome nota: em caso de tumor maligno, o melhor lugar para se tratar é Cleveland.

 
 
 
 
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