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Entrevista:
Antonio
Palocci
É cedo
para festejar
O ministro
da Fazenda
diz que o crescimento
não pode servir como pretexto para a
interrupção das reformas econômicas

Marcio Aith
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Cristiano Mariz

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"Não
podemos achar que, só porque as coisas estão
dando certo, podemos gastar dinheiro à
vontade e ignorar a inflação"
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O ministro
da Fazenda, Antonio Palocci Filho, recebeu VEJA na semana passada
em seu gabinete, em Brasília, para falar sobre o momento
econômico positivo pelo qual o país passa. Palocci
demonstrou no momento de vacas gordas a mesma tranqüilidade
com que encarou as imensas dificuldades iniciais do governo de Luiz
Inácio Lula da Silva na economia. Quando a economia encolheu
0,2%, Palocci disse que fora um mal menor, pois países em
situação semelhante afundaram em espessas recessões.
O bom momento atual, com previsões de crescimento em torno
de até 5%, mereceram de Palocci o mesmo comedimento de análise.
Disse ele: "O ritmo de crescimento do Brasil em 2004 tem bases sólidas,
mas o desenvolvimento sustentado ainda está em fase de construção".
Palocci diz que, por enquanto, o que se conseguiu foi "fazer o Brasil
voltar a ser um país normal". Convenhamos que não
é pouca coisa para um país cuja história recente
foi marcada por planos econômicos invasivos e perturbadores,
mudanças de moeda e indefinições paralisantes
das regras do jogo econômico. Aos 43 anos, Antonio Palocci,
médico sanitarista com enorme interesse pela psiquiatria
e pela psicologia, diz que, por ora, não tem planos de poder
pessoal, pois eles são incompatíveis com as atribulações
do cargo de ministro da Fazenda.
Veja
A economia entrou nos eixos. Já é suficiente
para comemorar?
Palocci
Entramos num período consistente de crescimento e de estabilidade,
mas não sei se é o caso de comemorar. O Brasil apenas
ingressou em uma fase em que pode ser considerado um país
normal, com instituições fortes, democráticas,
com o Congresso e a economia funcionando. É verdade que essa
retomada é a mais consistente das últimas quatro vividas
pelo país, mas é vital que esse crescimento nos leve
à perseverança. Não podemos achar que, só
porque as coisas estão dando certo, podemos gastar dinheiro
à vontade e ignorar a inflação. Isso aconteceu
muito no Brasil no passado. Aconteceu dezenas de vezes. Quando começava
a dar certo, já apareciam os primeiros sinais do fracasso.
Isso ocorre porque as pessoas, de modo geral, acham que esforço
e sacrifício só se justificam quando tudo vai mal.
Isso é um erro básico. O esforço que mais recompensa
é justamente aquele feito quando as coisas vão bem.
Há muito ainda a ser feito. E vamos fazer.
Veja
O que diferencia a atual fase de crescimento da economia
brasileira das "bolhas" que estouram ao primeiro solavanco?
Palocci
Se compararmos nossa produção industrial com a de
outras retomadas cíclicas do Brasil, veremos que a consistência
da atual recuperação é substancial. Além
disso, conseguimos reunir, ao mesmo tempo, um forte equilíbrio
fiscal, inflação sob controle, contas externas favoráveis
e crescimento. Havia tempos essa combinação não
ocorria. No passado, sempre que crescíamos, as exportações
caíam, a inflação aumentava e havia descontrole
fiscal. Muita gente até admitia que haveria uma recuperação
econômica agora no Brasil, mas dizia que ela viria sem a recuperação
do nível de emprego. A recuperação veio e está
havendo criação de empregos, inclusive nas grandes
metrópoles, onde se dizia que isso seria mais difícil
ainda. Apesar dessa combinação de fatores positivos,
ainda é preciso agir para que esse crescimento seja sustentável.
Veja
Quais são os próximos passos?
Palocci
Em
primeiro lugar, devemos ser perseverantes nas reformas estruturais
da economia. Precisamos fugir do dualismo freqüente entre os
economistas. Há os que pedem reformas microeconômicas
sucessivas e intermináveis. Outros dizem que isso é
bobagem, que precisamos apenas de uma política industrial.
Acho que os dois grupos têm parte de razão no que afirmam,
mas estão totalmente errados naquilo que negam. O Brasil
precisa de reformas microeconômicas sucessivas, mas também
de uma política industrial. Só que tem de ser uma
política industrial moderna, de valorização
da pauta exportadora. Não pode ser de jeito nenhum aquela
política industrial que apenas protege alguns setores escolhidos.
Devemos rejeitar a substituição não competitiva
das exportações. Há uma lista infindável
de coisas a ser feitas. Precisamos melhorar a qualidade do gasto
público. Fazer investimentos coerentes em infra-estrutura,
sejam eles públicos, sejam privados, e dar horizonte de longo
prazo aos investidores. Já começamos a fazer isso,
mas as empresas precisam saber usar melhor a estabilidade, duramente
conquistada.
Veja
Os resultados positivos podem ser creditados apenas a
este governo?
Palocci
Conquistamos
várias coisas e não tenho medo de dizer que consolidamos
avanços de governos anteriores. O crescimento das exportações,
por exemplo, começou em 1999, com a sábia decisão
da administração anterior de deixar o câmbio
flutuar. Somos o segundo governo a manter o câmbio flutuante.
Portanto, já havia para os empresários, desde 1999,
a perspectiva de que as exportações deveriam tomar
parte significativa de seus planejamentos. Estamos vendo o resultado
agora. Nossas vendas externas crescem mesmo com a expansão
da demanda interna. As empresas brasileiras mudaram estruturalmente.
Elas se reprogramaram. Hoje, a exportação não
é mais uma saída oportunista. Tornou-se parte da rotina
das empresas. O setor empresarial tem hoje uma estratégia
de exportação. Com isso, todos ganham. A produtividade
aumenta e salários melhores são pagos. Sei que não
haverá crescimento ininterrupto das exportações,
mas algo certamente mudou nesse campo, e para melhor. E isso não
é só trabalho nosso.
Veja
O PT tem um projeto de poder, como se dizia que os tucanos
tinham no governo Fernando Henrique? O partido planeja ficar vinte
anos no governo?
Palocci
O PT não deve ter um projeto de poder, mas um projeto e uma
visão de contribuição forte para o país.
Como oposição, o partido contribuiu para o Brasil.
Às vezes num tom elevado demais, mas levantou temas importantes.
Agora, tem de dar uma contribuição como governo, durante
um período. Pensar num projeto de poder embute a idéia
de que não queremos sair do governo. Vejo isso de forma simples.
Se nossa contribuição ao país for progressiva,
deverá ser perpetuada num tempo maior, por um governo, dois
governos. Se essa contribuição se esgotar, então
ela deverá necessariamente ter uma duração
menor. O PT não deve ter fixação pelo poder.
Deve procurar demonstrar que pode contribuir. O presidente Lula
é uma liderança que faz bem ao país. Temos
uma disparidade de renda muito grande e Lula tem um olhar voltado
para a pobreza, para a necessidade de inclusão social. Isso
é garantia de que ele vai deixar uma marca histórica
no Brasil. O presidente vai fazer um ou dois governos, o PT vai
fazer um, dois ou três governos, mas não podemos ter
isso como meta prefixada. No dia em que o povo achar que devemos
voltar para a oposição, teremos a serenidade de sair
do governo e a vontade de tentar conquistá-lo de novo. É
assim que funciona a democracia.
Veja
O senhor elogia a eficiência do setor privado, mas
o BNDES, vital para o investimento, parece ter orgulho de sua lentidão
na concessão de empréstimos. O governo diz que as
exportações são prioridade máxima, mas
define uma política externa que privilegia as relações
com países miseráveis. O senhor fala em instituições
fortes, mas o governo apresenta um projeto para cercear a liberdade
de imprensa. O dualismo do governo não é meio excessivo?
Palocci
É um erro ver dualismo excessivo no governo. Somos uma administração
plural. E temos um defeito, que também vejo como uma qualidade.
Somos transparentes. Nossas discussões são abertas
a todos. Isso seria grave se tivéssemos um governo sem liderança.
Mas não é o caso. O presidente Lula governa, debate,
chama ministros para conversas, se interessa por questões
complexas e dá uma orientação a todos os seus
auxiliares. Nesse cenário, a aparente dualidade não
é grave. Além disso, às vezes se dá
importância exagerada a determinadas questões pouco
relevantes. A idéia de instituir um Conselho Federal de Jornalismo
é um exemplo. Sinceramente, não vejo no governo Lula
vontade alguma de cercear a liberdade de imprensa. A idéia
do conselho foi levada a ele de uma determinada maneira e ele a
considerou adequada. As pessoas que lhe encaminharam esse assunto
disseram que se tratava de uma questão pertinente. Depois,
ficou claro que a proposta não era tão adequada assim.
O que precisa ficar claro é o reconhecimento do direito de
as instituições criticarem o governo. Cabe a nós
no governo ir nos ajustando. Isso é o que se chama de normalidade.
Fazer denúncias contra autoridades é parte dessa normalidade.
Veja
O senhor é favorável à idéia
que andou circulando de fazer um pacto social entre governo, empresários
e trabalhadores para evitar uma disparada da inflação?
Palocci
Não
faz o menor sentido. Um pacto no momento atual da economia, quando
tudo está indo bem, é um instrumento despropositado.
Não vejo sentido em trocar os mecanismos que estão
funcionando tão bem por uma idéia que fracassou sempre
que foi lançada. Pactos sociais só funcionam em países
arrasados por guerras ou como saída para regimes ditatoriais
moribundos. Caso clássico do Pacto de Moncloa (o acordo
de partidos de esquerda e direita que em 1977 viabilizou a transição
democrática na Espanha depois da ditadura de Francisco Franco).
Veja
O presidente Lula apoiou publicamente a proposta de pacto
formulada pela Central Única dos Trabalhadores e aceita,
num primeiro momento, pela Federação das Indústrias
de São Paulo.
Palocci
Conversei com o Luiz Marinho (presidente da CUT) duas vezes
nesta semana. Na verdade, ele não propôs um pacto desses
tradicionais, com controle de planilha de custos e acordos entre
elos da cadeia produtiva. O que a CUT quer é ter um certo
protagonismo neste momento da economia. É diferente. Acho
essa preocupação saudável.
Veja
Alguns empresários acham que o governo ainda não
passou por seu verdadeiro teste, como choques econômicos externos.
O país está mais preparado para esses cenários?
Palocci
Qualquer choque externo é ruim. Sempre é bom trabalhar
e rezar, confiar em Deus e remar em direção contrária
às pedras. Mas acho que não se avizinha uma crise.
A tendência da demanda mundial é crescente para os
próximos dez anos. Além disso, o país está
mais estruturado hoje. Nosso superávit comercial nos permite
suportar momentos adversos, como o que ocorreu com as tensões
dos mercados internacionais em abril.
Veja
Há um ano, setores do PT criticavam a política
econômica do Ministério da Fazenda. Agora, o convidam
para subir em palanques. O que isso significa?
Palocci
É reflexo dos resultados que obtivemos. Prevíamos
que seria necessário fazer um esforço grande no início
do governo, por mais que isso fosse difícil para um partido
como o PT, construído na oposição. Não
era um início dos sonhos, mas o necessário para que
pudéssemos começar um processo de crescimento sustentável.
Veja
Qual seu critério para aceitar ou negar um convite
para subir em palanques eleitorais?
Palocci
O
critério é simplesmente não participar. O presidente
acha que eu não devo me envolver na eleição,
pois a política econômica não pode estar sujeita
ao julgamento dos palanques. Não é meu direito debater
com os candidatos, entrar em campanhas. Por isso, procuro participar
o mínimo possível.
Veja
O senhor acha que a oposição está
obstruindo os projetos do governo no Congresso?
Palocci
A
oposição faz bem ao país. Triste do país
que não tem oposição. Quando um governo não
tem oposição, geralmente não existe um governo.
Às vezes há abusos, mas, de modo geral, posso afirmar
que o PT acabou se beneficiando das intervenções da
oposição. O projeto de Lei de Falências foi
melhorado no Congresso. O das PPPs (parcerias público-privadas)
também está sendo aperfeiçoado.
Veja
Qual será o efeito das PPPs na retomada dos investimentos
em infra-estrutura?
Palocci
As PPPs não são uma panacéia. São apenas
um instrumento, entre muitos. A lei de concessões continua
válida, assim como a de licitações. As PPPs
apenas são úteis para situações específicas,
nas quais o retorno social de uma determinada obra supera o retorno
financeiro.
Veja
Como anda sua relação com o ministro José
Dirceu?
Palocci
Em
primeiro lugar, nunca tive uma relação tão
boa com ele quanto tenho agora. Convivo com ele pessoal e profissionalmente.
Em segundo lugar, tratamos de áreas muito diferentes. É
razoável que as preocupações da Casa Civil
não sejam as mesmas do Ministério da Fazenda. As demandas
políticas não são as mesmas da economia. No
entanto, não há uma atuação de Dirceu
contrária à política econômica. No ano
passado, o ministro Dirceu foi fundamental para que as reformas
fossem aprovadas no Congresso Nacional. Há entre nós
divergências, mas elas são normais. Sabemos nos respeitar.
Nossa relação nunca trincou.
Veja
Como o senhor enxerga sua carreira política daqui
para a frente?
Palocci
Não
tenho um plano de poder pessoal. Um ministro da Fazenda não
pode estar focado em candidaturas. Se pensar nisso não conseguirei
fazer meu trabalho direito. Quero voltar a ser médico. Quero
me dedicar à psicologia ou psiquiatria. São as áreas
de que eu mais gosto em medicina. A condução da política
econômica lida com psicologia, com esforço e mensagem.
Mas não vou dizer que renego a política. Posso um
dia ser candidato a alguma coisa. Amanhã é outro dia,
vamos ver. Mas tenho toda a convicção de que não
posso trabalhar agora focado em algum projeto eleitoral.
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