Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Entrevista: Antonio Palocci
É cedo para festejar

O ministro da Fazenda diz que o crescimento
não pode servir como pretexto para a
interrupção das reformas econômicas


Marcio Aith

 

Cristiano Mariz

"Não podemos achar que, só porque as coisas estão dando certo, podemos gastar dinheiro à vontade e ignorar a inflação"

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, recebeu VEJA na semana passada em seu gabinete, em Brasília, para falar sobre o momento econômico positivo pelo qual o país passa. Palocci demonstrou no momento de vacas gordas a mesma tranqüilidade com que encarou as imensas dificuldades iniciais do governo de Luiz Inácio Lula da Silva na economia. Quando a economia encolheu 0,2%, Palocci disse que fora um mal menor, pois países em situação semelhante afundaram em espessas recessões. O bom momento atual, com previsões de crescimento em torno de até 5%, mereceram de Palocci o mesmo comedimento de análise. Disse ele: "O ritmo de crescimento do Brasil em 2004 tem bases sólidas, mas o desenvolvimento sustentado ainda está em fase de construção". Palocci diz que, por enquanto, o que se conseguiu foi "fazer o Brasil voltar a ser um país normal". Convenhamos que não é pouca coisa para um país cuja história recente foi marcada por planos econômicos invasivos e perturbadores, mudanças de moeda e indefinições paralisantes das regras do jogo econômico. Aos 43 anos, Antonio Palocci, médico sanitarista com enorme interesse pela psiquiatria e pela psicologia, diz que, por ora, não tem planos de poder pessoal, pois eles são incompatíveis com as atribulações do cargo de ministro da Fazenda.

Veja – A economia entrou nos eixos. Já é suficiente para comemorar?
Palocci – Entramos num período consistente de crescimento e de estabilidade, mas não sei se é o caso de comemorar. O Brasil apenas ingressou em uma fase em que pode ser considerado um país normal, com instituições fortes, democráticas, com o Congresso e a economia funcionando. É verdade que essa retomada é a mais consistente das últimas quatro vividas pelo país, mas é vital que esse crescimento nos leve à perseverança. Não podemos achar que, só porque as coisas estão dando certo, podemos gastar dinheiro à vontade e ignorar a inflação. Isso aconteceu muito no Brasil no passado. Aconteceu dezenas de vezes. Quando começava a dar certo, já apareciam os primeiros sinais do fracasso. Isso ocorre porque as pessoas, de modo geral, acham que esforço e sacrifício só se justificam quando tudo vai mal. Isso é um erro básico. O esforço que mais recompensa é justamente aquele feito quando as coisas vão bem. Há muito ainda a ser feito. E vamos fazer.

Veja – O que diferencia a atual fase de crescimento da economia brasileira das "bolhas" que estouram ao primeiro solavanco?
Palocci – Se compararmos nossa produção industrial com a de outras retomadas cíclicas do Brasil, veremos que a consistência da atual recuperação é substancial. Além disso, conseguimos reunir, ao mesmo tempo, um forte equilíbrio fiscal, inflação sob controle, contas externas favoráveis e crescimento. Havia tempos essa combinação não ocorria. No passado, sempre que crescíamos, as exportações caíam, a inflação aumentava e havia descontrole fiscal. Muita gente até admitia que haveria uma recuperação econômica agora no Brasil, mas dizia que ela viria sem a recuperação do nível de emprego. A recuperação veio e está havendo criação de empregos, inclusive nas grandes metrópoles, onde se dizia que isso seria mais difícil ainda. Apesar dessa combinação de fatores positivos, ainda é preciso agir para que esse crescimento seja sustentável.

Veja – Quais são os próximos passos?
Palocci – Em primeiro lugar, devemos ser perseverantes nas reformas estruturais da economia. Precisamos fugir do dualismo freqüente entre os economistas. Há os que pedem reformas microeconômicas sucessivas e intermináveis. Outros dizem que isso é bobagem, que precisamos apenas de uma política industrial. Acho que os dois grupos têm parte de razão no que afirmam, mas estão totalmente errados naquilo que negam. O Brasil precisa de reformas microeconômicas sucessivas, mas também de uma política industrial. Só que tem de ser uma política industrial moderna, de valorização da pauta exportadora. Não pode ser de jeito nenhum aquela política industrial que apenas protege alguns setores escolhidos. Devemos rejeitar a substituição não competitiva das exportações. Há uma lista infindável de coisas a ser feitas. Precisamos melhorar a qualidade do gasto público. Fazer investimentos coerentes em infra-estrutura, sejam eles públicos, sejam privados, e dar horizonte de longo prazo aos investidores. Já começamos a fazer isso, mas as empresas precisam saber usar melhor a estabilidade, duramente conquistada.

Veja – Os resultados positivos podem ser creditados apenas a este governo?
Palocci – Conquistamos várias coisas e não tenho medo de dizer que consolidamos avanços de governos anteriores. O crescimento das exportações, por exemplo, começou em 1999, com a sábia decisão da administração anterior de deixar o câmbio flutuar. Somos o segundo governo a manter o câmbio flutuante. Portanto, já havia para os empresários, desde 1999, a perspectiva de que as exportações deveriam tomar parte significativa de seus planejamentos. Estamos vendo o resultado agora. Nossas vendas externas crescem mesmo com a expansão da demanda interna. As empresas brasileiras mudaram estruturalmente. Elas se reprogramaram. Hoje, a exportação não é mais uma saída oportunista. Tornou-se parte da rotina das empresas. O setor empresarial tem hoje uma estratégia de exportação. Com isso, todos ganham. A produtividade aumenta e salários melhores são pagos. Sei que não haverá crescimento ininterrupto das exportações, mas algo certamente mudou nesse campo, e para melhor. E isso não é só trabalho nosso.

Veja – O PT tem um projeto de poder, como se dizia que os tucanos tinham no governo Fernando Henrique? O partido planeja ficar vinte anos no governo?
Palocci – O PT não deve ter um projeto de poder, mas um projeto e uma visão de contribuição forte para o país. Como oposição, o partido contribuiu para o Brasil. Às vezes num tom elevado demais, mas levantou temas importantes. Agora, tem de dar uma contribuição como governo, durante um período. Pensar num projeto de poder embute a idéia de que não queremos sair do governo. Vejo isso de forma simples. Se nossa contribuição ao país for progressiva, deverá ser perpetuada num tempo maior, por um governo, dois governos. Se essa contribuição se esgotar, então ela deverá necessariamente ter uma duração menor. O PT não deve ter fixação pelo poder. Deve procurar demonstrar que pode contribuir. O presidente Lula é uma liderança que faz bem ao país. Temos uma disparidade de renda muito grande e Lula tem um olhar voltado para a pobreza, para a necessidade de inclusão social. Isso é garantia de que ele vai deixar uma marca histórica no Brasil. O presidente vai fazer um ou dois governos, o PT vai fazer um, dois ou três governos, mas não podemos ter isso como meta prefixada. No dia em que o povo achar que devemos voltar para a oposição, teremos a serenidade de sair do governo e a vontade de tentar conquistá-lo de novo. É assim que funciona a democracia.

Veja – O senhor elogia a eficiência do setor privado, mas o BNDES, vital para o investimento, parece ter orgulho de sua lentidão na concessão de empréstimos. O governo diz que as exportações são prioridade máxima, mas define uma política externa que privilegia as relações com países miseráveis. O senhor fala em instituições fortes, mas o governo apresenta um projeto para cercear a liberdade de imprensa. O dualismo do governo não é meio excessivo?
Palocci – É um erro ver dualismo excessivo no governo. Somos uma administração plural. E temos um defeito, que também vejo como uma qualidade. Somos transparentes. Nossas discussões são abertas a todos. Isso seria grave se tivéssemos um governo sem liderança. Mas não é o caso. O presidente Lula governa, debate, chama ministros para conversas, se interessa por questões complexas e dá uma orientação a todos os seus auxiliares. Nesse cenário, a aparente dualidade não é grave. Além disso, às vezes se dá importância exagerada a determinadas questões pouco relevantes. A idéia de instituir um Conselho Federal de Jornalismo é um exemplo. Sinceramente, não vejo no governo Lula vontade alguma de cercear a liberdade de imprensa. A idéia do conselho foi levada a ele de uma determinada maneira e ele a considerou adequada. As pessoas que lhe encaminharam esse assunto disseram que se tratava de uma questão pertinente. Depois, ficou claro que a proposta não era tão adequada assim. O que precisa ficar claro é o reconhecimento do direito de as instituições criticarem o governo. Cabe a nós no governo ir nos ajustando. Isso é o que se chama de normalidade. Fazer denúncias contra autoridades é parte dessa normalidade.  

Veja – O senhor é favorável à idéia que andou circulando de fazer um pacto social entre governo, empresários e trabalhadores para evitar uma disparada da inflação?
Palocci – Não faz o menor sentido. Um pacto no momento atual da economia, quando tudo está indo bem, é um instrumento despropositado. Não vejo sentido em trocar os mecanismos que estão funcionando tão bem por uma idéia que fracassou sempre que foi lançada. Pactos sociais só funcionam em países arrasados por guerras ou como saída para regimes ditatoriais moribundos. Caso clássico do Pacto de Moncloa (o acordo de partidos de esquerda e direita que em 1977 viabilizou a transição democrática na Espanha depois da ditadura de Francisco Franco).

Veja – O presidente Lula apoiou publicamente a proposta de pacto formulada pela Central Única dos Trabalhadores e aceita, num primeiro momento, pela Federação das Indústrias de São Paulo.
Palocci – Conversei com o Luiz Marinho (presidente da CUT) duas vezes nesta semana. Na verdade, ele não propôs um pacto desses tradicionais, com controle de planilha de custos e acordos entre elos da cadeia produtiva. O que a CUT quer é ter um certo protagonismo neste momento da economia. É diferente. Acho essa preocupação saudável.

Veja – Alguns empresários acham que o governo ainda não passou por seu verdadeiro teste, como choques econômicos externos. O país está mais preparado para esses cenários?
Palocci – Qualquer choque externo é ruim. Sempre é bom trabalhar e rezar, confiar em Deus e remar em direção contrária às pedras. Mas acho que não se avizinha uma crise. A tendência da demanda mundial é crescente para os próximos dez anos. Além disso, o país está mais estruturado hoje. Nosso superávit comercial nos permite suportar momentos adversos, como o que ocorreu com as tensões dos mercados internacionais em abril.

Veja – Há um ano, setores do PT criticavam a política econômica do Ministério da Fazenda. Agora, o convidam para subir em palanques. O que isso significa?
Palocci – É reflexo dos resultados que obtivemos. Prevíamos que seria necessário fazer um esforço grande no início do governo, por mais que isso fosse difícil para um partido como o PT, construído na oposição. Não era um início dos sonhos, mas o necessário para que pudéssemos começar um processo de crescimento sustentável.  

Veja – Qual seu critério para aceitar ou negar um convite para subir em palanques eleitorais?
Palocci – O critério é simplesmente não participar. O presidente acha que eu não devo me envolver na eleição, pois a política econômica não pode estar sujeita ao julgamento dos palanques. Não é meu direito debater com os candidatos, entrar em campanhas. Por isso, procuro participar o mínimo possível.

Veja – O senhor acha que a oposição está obstruindo os projetos do governo no Congresso?
Palocci – A oposição faz bem ao país. Triste do país que não tem oposição. Quando um governo não tem oposição, geralmente não existe um governo. Às vezes há abusos, mas, de modo geral, posso afirmar que o PT acabou se beneficiando das intervenções da oposição. O projeto de Lei de Falências foi melhorado no Congresso. O das PPPs (parcerias público-privadas) também está sendo aperfeiçoado.  

Veja – Qual será o efeito das PPPs na retomada dos investimentos em infra-estrutura?
Palocci – As PPPs não são uma panacéia. São apenas um instrumento, entre muitos. A lei de concessões continua válida, assim como a de licitações. As PPPs apenas são úteis para situações específicas, nas quais o retorno social de uma determinada obra supera o retorno financeiro.

Veja – Como anda sua relação com o ministro José Dirceu?
Palocci – Em primeiro lugar, nunca tive uma relação tão boa com ele quanto tenho agora. Convivo com ele pessoal e profissionalmente. Em segundo lugar, tratamos de áreas muito diferentes. É razoável que as preocupações da Casa Civil não sejam as mesmas do Ministério da Fazenda. As demandas políticas não são as mesmas da economia. No entanto, não há uma atuação de Dirceu contrária à política econômica. No ano passado, o ministro Dirceu foi fundamental para que as reformas fossem aprovadas no Congresso Nacional. Há entre nós divergências, mas elas são normais. Sabemos nos respeitar. Nossa relação nunca trincou.

Veja – Como o senhor enxerga sua carreira política daqui para a frente?
Palocci – Não tenho um plano de poder pessoal. Um ministro da Fazenda não pode estar focado em candidaturas. Se pensar nisso não conseguirei fazer meu trabalho direito. Quero voltar a ser médico. Quero me dedicar à psicologia ou psiquiatria. São as áreas de que eu mais gosto em medicina. A condução da política econômica lida com psicologia, com esforço e mensagem. Mas não vou dizer que renego a política. Posso um dia ser candidato a alguma coisa. Amanhã é outro dia, vamos ver. Mas tenho toda a convicção de que não posso trabalhar agora focado em algum projeto eleitoral.

 
 
 
 
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