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Em
foco: Gustavo Franco
Onde estão
os juros?
"Quando
havia desconto para pagamento
à
vista, os juros eram visíveis, embora difíceis
de calcular. E agora,
que não vemos os juros
e as pessoas vão se
endividando com a
sensação de
economizar?"
IlustraçãoAle Setti
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Estamos vivendo uma espécie de febre do parcelamento. Em
toda parte o consumidor é confrontado com a opção
de parcelar a compra, e, na maior parte dos casos, ao contrário
do que ocorreu no passado, o parcelamento é sem juros. São
vários cheques "pré", ou tantas vezes no cartão,
e existem cartões de todo tipo. O fato é que o consumidor
compra parcelado achando que está fazendo economia.
Quando
havia desconto para pagamento à vista, os juros eram visíveis,
embora difíceis de calcular. Só os letrados em matemática
financeira eram capazes de atestar que os juros eram realmente exorbitantes
e que o melhor a fazer era juntar o dinheiro para pagar à
vista. Conselho que ninguém seguia.
E agora,
que não vemos os juros e que as pessoas vão se endividando
com a sensação de economizar?
O fato
é que o varejo e os bancos aprenderam a trabalhar juntos,
e dessa forma trazem um "pacote" o "parcelamento sem juros"
que apela fortemente ao consumidor. É claro que os
juros não desapareceram, a pergunta relevante é quem
está pagando e de que forma.
Uma descrição
simples é a seguinte: quando a loja vende parcelado está,
na verdade, criando ativos de crédito para um banco, financeira
ou factoring. Recebe à vista (com um desconto) desses intermediários,
repassa-lhes o consumidor e sua dívida e repõe o produto
na prateleira. A loja recebe comissão, quem sabe um pedaço
dos juros, que são cobrados de quem comprou financiado, mas,
como tudo isso está no preço, é o conjunto
dos consumidores quem paga um bom pedaço da conta, e paga
feliz porque não sente.
Nesse esquema,
as lojas são muito mais "originadores de crédito"
que propriamente comerciantes. Alguns gigantes do varejo já
descobriram faz tempo que não se ganha dinheiro de verdade
no comércio, mas no financiamento. Aliás, aí
se perde também muito dinheiro quando as coisas vão
mal. O que se passa agora é que essa parte do negócio,
o financiamento, foi vendida aos profissionais desse assunto, os
bancos, ou compartilhada com eles.
A experiência
de 1995 é muito reveladora e vale recordar. O impulso consumista
que se seguiu ao Plano Real foi ainda mais forte que o de hoje,
mas com algumas fraquezas fundamentais: o varejo se meteu a financiar
suas vendas com recursos próprios e com uma capacidade de
análise de risco meio amadora. Bancos não especializados
resolveram entrar no negócio do crediário diretamente,
captando dinheiro de terceiros em prazos curtos, ou indiretamente,
estendendo linhas de crédito ao varejo. Os bancos, como se
sabe, viviam um momento delicado, e o consumidor "empilhava" as
prestações, tantas quantas coubessem no salário,
ainda deslumbrado com a estabilidade.
Quando
a economia desaqueceu, em virtude da freada imposta pelo Banco Central,
a inadimplência subiu significativamente e pegou todos de
calças na mão. Faltou capital para carregar ou renegociar
os créditos em atraso e para suprir o giro das lojas. Muitos
varejistas e bancos quebraram e grande número de consumidores
passou aperto.
Todos aprenderam
lições, de sorte que a chance de essa história
se repetir não é grande, embora não desprezível.
Os bancos estão muito mais capitalizados e a seletividade
na concessão do crédito é maior, em média.
É verdade que consumidores continuam "empilhando" as prestações
como em 1995, fenômeno que de modo algum se restringe às
classes C e D. Isso significa que pequenos tropeços na massa
salarial podem ocasionar grandes flutuações na inadimplência.
É
verdade também que ainda existem lojas que expõem
seu capital em financiamentos às suas vendas nem sempre dentro
da melhor técnica bancária. Além disso, diferentemente
de 1995, o impulso consumista não veio de aumento de renda
real, mas de redução de juros e maior oferta de crédito.
Não
há dúvida, por fim, de que os produtores de bens duráveis,
e também as exportações, vivem uma exuberância,
enquanto muitos outros setores ainda estão rastejando.
Por tudo
isso, a freada do BC, se vier, terá de ser pequena e delicada,
sendo esta sempre mais difícil de calibrar que uma grande.
Gustavo Franco é economista da
PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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