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André
Petry
Corredor da morte
"É
espantoso que em pleno século XXI
ainda haja países que adotam a pena de
morte, sem que se tenha produzido uma
evidência de que a punição capital seja
eficiente meio de combater a criminalidade"
Há
duas famílias brasileiras vivendo um drama de crueldade medieval.
São os familiares de Marco Archer, um instrutor de asa-delta
de 42 anos que foi pilhado na Indonésia com 13 quilos de
cocaína e condenado à morte. Os outros são
os parentes de Rodrigo Gularte, um surfista de 32 anos que também
foi preso na Indonésia traficando 6 quilos de cocaína.
Gularte ainda não foi julgado, mas, considerando as sentenças
anteriores da Justiça da Indonésia pelo crime de narcotráfico,
é possível que também seja condenado à
morte. Na Indonésia, toda pena de morte é executada
por meio de fuzilamento.
Na semana
passada, a mãe e a prima de Rodrigo Gularte deram uma entrevista
em Curitiba sobre a viagem de três semanas a Jacarta, capital
da Indonésia. Foram visitá-lo na prisão. Rodrigo
Gularte aproveitou para mandar por elas uma carta em que pede perdão
à família e aos amigos pelo que fez. Sua mãe,
Clarissa, retornou "mais tranqüila e confiante" em que, "mesmo
demorando", Rodrigo Gularte vai "voltar a viver junto da sua família".
É
espantoso que em pleno século XXI ainda haja países
que adotam a pena de morte, sem que jamais se tenha produzido uma
evidência sólida de que a punição capital
seja capaz de combater a criminalidade. A Indonésia não
é exceção. Ali também não se
prepara o pelotão de fuzilamento a toque de caixa. O condenado
tem direito a recorrer da sentença percorrendo um caminho
jurídico que, normalmente, leva anos para chegar ao seu desfecho.
Não é como na China, onde a impressão que se
tem é que o governo fuzila por hobby.
O Itamaraty
informa que há 2 791 brasileiros presos no exterior. Só
Archer foi condenado à morte. Gularte está em via
de trilhar o mesmo caminho. Imagina-se que a maioria dos outros
2 789 brasileiros condenados lá fora tenha cometido o crime
de tráfico de drogas. Mas nenhum deles foi sentenciado à
pena capital. Talvez isso mostre que a pena de morte, embora não
constitua uma raridade e seja aplicada em países pobres e
ricos, ocidentais e orientais, não está em franca
moda no mundo. Será que serve de consolo?
A pena
de morte é uma crueldade das trevas porque vem a ser a negação
da própria civilização, que só pôde
se organizar em comunidades ao eleger a vida humana como valor supremo.
É chocante perceber que essa mensagem, no entanto, não
está suficientemente difundida, seja na Indonésia,
seja nos Estados Unidos. Se estivesse, toda a sociedade deveria
levantar-se contra a pena capital, contra a entrega ao Estado do
monopólio sobre a vida e a morte.
No Brasil
mesmo, as pesquisas sobre o assunto costumam apresentar resultados
muito variados, que mudam ao sabor do crime mais recente. Em geral,
no entanto, cerca de metade dos brasileiros é a favor da
pena de morte. E a outra metade é contra. Por que a tortura
é condenada, mas a pena capital tem simpatizantes? Por acaso
a execução de um criminoso não é uma
tortura fatal?
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