A coleção
de gravações do líder nazista revela
que, na música, ele podia aceitar russos e judeus
Hulton
Archive/Getty Images
Na semana passada, uma revelação assanhou a
legião de estudiosos profissionais e amadores da trajetória
de Adolf Hitler: anunciou-se que a coleção particular
de discos do tirano nazista, com cerca de 100 títulos,
foi retirada de seu bunker em Berlim, em 1945, por Lev Besymenski,
um capitão da inteligência militar soviética,
e levada para Moscou onde passou quase cinco décadas
escondida no sótão de sua casa. Ainda que a
coleção contivesse apenas obras de Wagner e
Beethoven, reputadamente os compositores prediletos do führer
(e, a seu ver, exemplos incontestes da superioridade alemã),
a notícia já bastaria para causar sensação.
Seu efeito, porém, foi multiplicado pelas surpresas
encontradas entre os álbuns. Há um número
significativo de obras de compositores russos como Mussorgsky,
Rachmaninov ou Tchaikovsky e Hitler classificou os
russos como "subumanos". Há também gravações
realizadas por músicos judeus, como o violinista polonês
Bronislav Huberman, um opositor veemente do regime nazista
e fundador, em 1936, da Orquestra Palestina, embrião
da atual Filarmônica de Israel. Ou o pianista austríaco
Artur Schnabel, que fugiu da Alemanha em 1933, quando da ascensão
de Hitler, e perdeu a mãe num campo de concentração.
O russo Besymenski
certamente teve acesso privilegiado ao bunker, já que
foi encarregado de inventariá-lo. A explicação
sobre seu silêncio acerca dos discos é, de acordo
com sua filha, Alexandra, prosaica: mera vergonha de ter pilhado
as posses do ditador às escondidas. Daí ele
ter ocultado a coleção no sótão,
onde Alexandra a encontrou em 1991, enquanto procurava velhas
raquetes de badminton. Dois meses atrás, Besymenski
morreu e sua filha decidiu vir a público com
a descoberta. A prestigiosa revista alemã Der Spiegel,
que deu o furo internacional, assume como autêntica
a coleção. Mas, dada a altíssima cotação
no mercado de qualquer novidade que se refira a Hitler, é
uma cautela essencial tomar essa nova revelação
com um grão de sal. Em 1983, num episódio antológico,
a então muito respeitada revista alemã Stern
viu sua reputação naufragar com a publicação
da notícia de que haviam sido encontrados os "diários
de Hitler". Comprovou-se depois que eles não passavam
de uma bem-cuidada fraude. Besymenski não é
o que se pode chamar de fonte isenta: anos atrás, ele
foi um dos propagadores do boato de que Hitler tinha apenas
um testículo.
Se a coleção
encontrada no sótão de Besymenski for legítima,
podem-se depreender dela fatos relevantes. Quando se tratava
de seu próprio bem-estar, o führer podia pôr
entre parênteses o ódio racial que constituía
o núcleo de seu regime. Assim, usufruía a arte
que ele mesmo proscrevera oficialmente, feita por "subumanos"
ou "degenerados". Além disso, a música parece
ter desempenhado um papel essencial em tornar mais suportável
o dia-a-dia no bunker, à medida que seu poder se esfacelava.
Hitler era um monstro. Mas a música o acalmava.