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15 de agosto de 2007
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Música
A discoteca de Hitler

A coleção de gravações do líder nazista revela
que, na música, ele podia aceitar russos e judeus


Hulton Archive/Getty Images


Na semana passada, uma revelação assanhou a legião de estudiosos profissionais e amadores da trajetória de Adolf Hitler: anunciou-se que a coleção particular de discos do tirano nazista, com cerca de 100 títulos, foi retirada de seu bunker em Berlim, em 1945, por Lev Besymenski, um capitão da inteligência militar soviética, e levada para Moscou – onde passou quase cinco décadas escondida no sótão de sua casa. Ainda que a coleção contivesse apenas obras de Wagner e Beethoven, reputadamente os compositores prediletos do führer (e, a seu ver, exemplos incontestes da superioridade alemã), a notícia já bastaria para causar sensação. Seu efeito, porém, foi multiplicado pelas surpresas encontradas entre os álbuns. Há um número significativo de obras de compositores russos como Mussorgsky, Rachmaninov ou Tchaikovsky – e Hitler classificou os russos como "subumanos". Há também gravações realizadas por músicos judeus, como o violinista polonês Bronislav Huberman, um opositor veemente do regime nazista e fundador, em 1936, da Orquestra Palestina, embrião da atual Filarmônica de Israel. Ou o pianista austríaco Artur Schnabel, que fugiu da Alemanha em 1933, quando da ascensão de Hitler, e perdeu a mãe num campo de concentração.

O russo Besymenski certamente teve acesso privilegiado ao bunker, já que foi encarregado de inventariá-lo. A explicação sobre seu silêncio acerca dos discos é, de acordo com sua filha, Alexandra, prosaica: mera vergonha de ter pilhado as posses do ditador às escondidas. Daí ele ter ocultado a coleção no sótão, onde Alexandra a encontrou em 1991, enquanto procurava velhas raquetes de badminton. Dois meses atrás, Besymenski morreu – e sua filha decidiu vir a público com a descoberta. A prestigiosa revista alemã Der Spiegel, que deu o furo internacional, assume como autêntica a coleção. Mas, dada a altíssima cotação no mercado de qualquer novidade que se refira a Hitler, é uma cautela essencial tomar essa nova revelação com um grão de sal. Em 1983, num episódio antológico, a então muito respeitada revista alemã Stern viu sua reputação naufragar com a publicação da notícia de que haviam sido encontrados os "diários de Hitler". Comprovou-se depois que eles não passavam de uma bem-cuidada fraude. Besymenski não é o que se pode chamar de fonte isenta: anos atrás, ele foi um dos propagadores do boato de que Hitler tinha apenas um testículo.

Se a coleção encontrada no sótão de Besymenski for legítima, podem-se depreender dela fatos relevantes. Quando se tratava de seu próprio bem-estar, o führer podia pôr entre parênteses o ódio racial que constituía o núcleo de seu regime. Assim, usufruía a arte que ele mesmo proscrevera oficialmente, feita por "subumanos" ou "degenerados". Além disso, a música parece ter desempenhado um papel essencial em tornar mais suportável o dia-a-dia no bunker, à medida que seu poder se esfacelava. Hitler era um monstro. Mas a música o acalmava.

 

OS "SUBUMANOS" QUE
O FÜHRER OUVIA

Compositores

Tchaikovsky (russo)
Borodin (russo)
Rachmaninov (russo)
Mussorgsky (russo)

Instrumentistas

Bronislav Huberman (violinista judeu)
Artur Schnabel (pianista judeu)

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