O psiquiatra inglês
diz o que alivia e o que agrava o
sofrimento causado pela perda de alguém muito próximo
Juliana Linhares
Eduardo Martino
"As pessoas enlutadas,
em geral, têm um alto grau de sensibilidade a tudo
o que não seja sincero: elas percebem facilmente
se alguém está fingindo tristeza"
Na qualidade de
um dos mais respeitados estudiosos do luto do mundo, o psiquiatra
inglês Colin Murray Parkes, 79 anos, viu de perto grandes
tragédias e o sofrimento que elas podem causar a populações
inteiras. Em 2005, ele foi chamado pelo governo britânico
para dar assistência psicológica a vítimas
do tsunami que atingiu vários países banhados
pelo Oceano Índico, matando um total de 225 000 pessoas.
Três anos antes, havia trabalhado na assistência
a parentes de vítimas dos atentados de 11 de setembro
em Nova York, que resultaram na morte de quase 3 000 pessoas.
Mas o trabalho de Parkes não se resume a apoiar as
vítimas de grandes desastres: consultor até
o ano passado do St. Christopher's Hospice, hospital inglês
que é a maior referência mundial em tratamento
de pacientes terminais, ele lidou por mais de quarenta anos
com dramas cotidianos: aqueles vividos pelas famílias
que perderam alguém no leito do hospital. Em entrevista
concedida a VEJA, o psiquiatra falou sobre a dor de quem vai
e de quem fica e como lidar com ela.
Veja O
que se pode fazer para ajudar uma pessoa que perdeu alguém? Parkes Ficar próximo
dela, abraçá-la, fazê-la sentir-se compreendida
e segura. Para as pessoas que perderam alguém, especialmente
se a morte estiver ligada a uma situação criminal,
o mundo pode parecer um lugar bastante perigoso. Parentes
de vítimas ficam assustados e chegam a ter medo de
estranhos. Para ajudar essas pessoas, é preciso despertar
sua confiança e transmitir-lhes segurança para
começar a falar e a pensar naquilo que as faz sentir-se
em perigo. Deixá-las expressar sua tristeza também
é importante. Ouço muitas reclamações
de enlutados. Eles dizem que a família não os
deixa chorar quer vê-los alegres o tempo todo.
Não há nada pior do que alguém lhe dizendo:
"Não quero ver você triste assim, por favor!".
Outra coisa que devasta essas pessoas é quando elas
percebem que os vizinhos e os amigos se afastam delas. Escuto
muitas histórias de enlutados que afirmam que seus
vizinhos mudam de calçada quando os vêem chegando.
É evidente que eles não fazem isso de propósito.
O fato é que ninguém sabe lidar direito com
a morte.
Veja E
no caso de familiares de vítimas de grandes tragédias,
como a do acidente da TAM, no Brasil? Como amenizar seu sofrimento? Parkes No período
imediatamente posterior ao acidente, o que as famílias
mais precisam é de informação e instrução.
Psicologicamente, é mais fácil lidar com más
notícias do que com a falta delas. Não se deve
tentar proteger as famílias escondendo dados que possam
machucá-las. As informações servem para
que as pessoas tenham tempo para digerir o terror e organizar
suas esperanças, assim como suas hipóteses sobre
a tragédia. Já as instruções são
fundamentais porque, nesse momento de aflição
máxima, os familiares não têm condições
de resolver nada e precisam de alguém que assuma o
controle da situação. E isso tem de ser feito
de forma bastante objetiva não há espaço
para debates democráticos, do tipo: "Familiares das
vítimas, vocês preferem ficar aguardando informações
em um hotel ou aqui no aeroporto?". É necessário
que alguém passe ordens. O cuidado psicológico
propriamente dito vem numa fase posterior.
Veja Em
que ele consiste? Parkes Em casos
de desastres que podem ter sido causados por leniência,
descaso ou falha humana, é comum haver um sentimento
generalizado de raiva entre os familiares. Os parentes querem,
a todo custo, encontrar e, por vezes, agredir o culpado
ou os culpados pelo desastre. Psicólogos e médicos
destacados para cuidar dessas pessoas devem escutar suas queixas,
mas, principalmente, tentar conter a instalação
de um ciclo de raiva. O sentimento de ira não ajuda
o enlutado a se organizar emocionalmente, nem mesmo alivia
sua dor. É fundamental também trabalhar para
que cada família tenha certeza de que seu caso será
analisado seja por psicólogos, seja por autoridades
de maneira individualizada. Em grandes desastres, as
famílias tendem a achar, e não se pode tirar
a razão delas, que a morte de seu parente está
sendo banalizada. Isso acontece, entre outros motivos, porque
as notícias veiculadas na imprensa, na maioria das
vezes, falam do número total de mortes, e não
especificamente do parente dela. Para um marido que perdeu
a mulher, o que importa é a morte daquela mulher, não
a de 200 pessoas.
Veja
É mais difícil aceitar a morte quando não
se tem o corpo do morto? Parkes Sem dúvida.
É difícil acreditar que aquela pessoa morreu
quando não vemos o corpo dela e não realizamos
os ritos fúnebres. No episódio do 11 de Setembro,
muitas famílias britânicas, que nós assistimos,
não conseguiram ter de volta os corpos de seus parentes.
Um de nossos trabalhos foi ajudá-las a acreditar que
eles tinham mesmo morrido. Estudei uma tribo de pescadores,
nas Filipinas, que chega a fazer um ritual substitutivo para
lidar com uma situação dessas. Quando um dos
integrantes da tribo morre no mar e seu corpo não é
resgatado, a família faz uma estátua e a veste
com as roupas do morto. Eles acreditam que, assim, a alma
do falecido encarnará na estátua. E é
essa estátua que enterram.
Veja Na
escala da dor, qual é o pior tipo de morte para quem
fica? Parkes O que implica
sentimentos de culpa pode ser considerado o pior. É
o caso, por exemplo, do pai que vê o filho morrer em
um acidente de carro e acha que poderia tê-lo socorrido,
ou de uma pessoa que se sente responsável pelo suicídio
de outra. Em segundo lugar, bem próximo do primeiro,
eu diria que estão as mortes por assassinato.
Veja
Qual é o povo que lida melhor com a morte? Parkes Penso
que os orientais se preparam melhor para a morte do que nós.
No Japão, eles fazem oratórios com sinos, que,
segundo crêem, invocam a pessoa morta a cada vez que
são tocados. Desse modo, acreditam manter-se em contato
com o espírito de seus mortos. De certa maneira, é
isso que a terapia tenta fazer com os enlutados: ajudá-los
não a esquecer seus mortos, mas a achar um lugar para
eles em sua vida.
Veja
Quem lida melhor com a morte, os homens ou as mulheres? Parkes As
mulheres, sem dúvida. Elas conseguem expressar seu
sofrimento mais facilmente. E, uma vez vivenciado esse sentimento,
elas podem fazer aquilo que se costuma chamar de "tocar a
vida para a frente". Já os homens têm uma enorme
dificuldade de mostrar sua fragilidade diante da morte. Por
isso, têm também mais dificuldade de se organizar
para continuar vivendo.
Veja O
que se deve dizer a um conhecido que acaba de perder alguém? Parkes As pessoas
enlutadas, em geral, têm um alto grau de sensibilidade
a tudo o que não seja sincero: elas percebem facilmente
se alguém está fingindo tristeza ou dizendo
uma palavra de conforto apenas porque foi instruído
a fazê-lo. Por isso, o que quer que você diga
nessa situação deve vir do coração.
Veja Até
o ano passado, o senhor trabalhava como consultor psiquiátrico
de um hospital especializado no cuidado de pacientes terminais.
Do ponto de vista psicológico, o que se pode fazer
para amenizar o sofrimento desses doentes e de suas famílias? Parkes Além
de tentar transmitir os mesmos sentimentos de amor e solidariedade,
acho que dizer a verdade sempre ajuda. Quando alguém
está morrendo, as pessoas, querendo ajudar, cometem
erros clássicos. Um deles é fingir que a pessoa
não está doente: "Você está com
uma cara ótima hoje!", diz um parente. É evidente
que é mentira, e o paciente sabe disso, mas compactua
com o fingimento porque também quer proteger o familiar.
Isso cria uma situação horrível! Certa
vez, falei com uma senhora no dia em que o marido dela deu
entrada no hospital em que eu trabalhava. Ela me disse: "O
senhor não vai dizer ao meu marido que ele tem câncer,
vai?". Eu havia acabado de conversar com o marido dela, que
já me contara que tinha a doença! Eu perguntei:
"O que faz a senhora achar que ele não sabe?". Ao que
ela respondeu: "Ele sempre morreu de medo de câncer.
Se o senhor lhe contar, ele vai morrer!". Eu falei: "Conversei
com seu marido. Ele sabe". Ela: "Sabe? Por que ele não
me contou?". Respondi: "Talvez esteja querendo protegê-la".
Ela entendeu: "Como nós fomos bobos!". Voltamos à
cabeceira da cama e eu deixei o casal conversando. Voltei
meia hora depois. Eles estavam sentados com os braços
entrelaçados. Ela chorava copiosamente e dizia: "Fomos
tão bobos, não?". Mas, ao mesmo tempo, ela sorria.
É que, finalmente, havia conseguido se comunicar com
o marido.
Veja O
senhor foi chamado pelo governo britânico para cuidar
de vítimas do tsunami. Como foi esse trabalho? Parkes Estive
na Índia um mês depois da tragédia. Peguei
a fase da reconstrução do lugar. Como morreram
mais mulheres e crianças, encontrei muitos homens devastados
e entregues à bebida. Eles haviam perdido a mulher,
os filhos e os barcos com que ganhavam a vida, mas tinham
uma resistência muito grande em aceitar ajuda psicológica.
Lá, homem não chora. Fiquei estudando qual o
melhor modo de ajudar aqueles sobreviventes. Depois de alguns
dias, concluí que a melhor forma seria estimulá-los
a participar da reconstrução de suas vilas e
casas. Coordenei, então, mutirões de obras.
Organizava os grupos que fariam as casas e os barcos. E, evidentemente,
dava apoio psicológico e individual quando era solicitado.
Veja E
como foi o trabalho com as vítimas do 11 de Setembro? Parkes O
governo do meu país me escalou para cuidar das famílias
de vítimas britânicas que haviam morrido no atentado.
Os melhores policiais da Grã-Bretanha foram enviados
a Nova York para nos ajudar. Meu primeiro trabalho foi formar
duplas constituídas por um policial e um terapeuta.
Essas duplas receberam cada avião que chegou do Reino
Unido. No total, foram 120 familiares de vítimas. Nesse
caso, meu trabalho não foi propriamente o de um terapeuta,
mas sim o de um grande produtor: tinha, por exemplo, de garantir
que houvesse celulares suficientes, salas de entrevista, esse
tipo de coisa. Mas logo fiquei conhecendo as famílias,
já que estavam no mesmo hotel que nós. E o que
eu e os outros psiquiatras da minha equipe percebemos foi
que elas tinham uma grande necessidade de procurar seus mortos
ainda que a morte deles parecesse um fato inexorável.
Os americanos haviam disponibilizado computadores que, operados
por policiais, informavam o nome de todos os sobreviventes
internados em hospitais de Nova York. Nós já
tínhamos vasculhado esses registros e sabíamos
que os parentes dessas famílias não estavam
lá, mas elas insistiam em procurar por conta própria.
Então, em vez de as obrigarmos a aceitar a informação
de que as pessoas que elas amavam estavam mortas, ficamos
ao lado delas, observando-as enquanto faziam a busca. Também
as ajudamos a colar cartazes em postes com as fotos e os nomes
dos parentes desaparecidos. Quanto mais fotos elas colavam,
mais se davam conta de que não daria resultado. A compreensão
foi vindo de forma gradual. Uma coisa que também ajudou
nesse processo foi o fato de que muitas pessoas enlutadas
passaram a se encontrar diariamente na Union Square, a área
verde mais próxima do desastre. As famílias
se sentiam bem lá, conversavam e choravam juntas. Isso
colaborou para fazer com que, aos poucos, elas fossem entendendo
que as pessoas que elas procuravam não voltariam mais.
Foi uma boa terapia.
Veja Por
que o senhor decidiu trabalhar nessa área? Parkes Eu ainda
era um jovem médico em Londres quando fui chamado para
fazer meu primeiro parto. O médico-chefe me disse que
o procedimento seria simples porque o bebê era anencéfalo
e, por ter uma cabeça pequena, sairia facilmente da
mãe. Ele me disse ainda para não mostrar o bebê
à mãe. Fiquei chocado com isso. Também
me incomodava o modo como os médicos tratavam os pacientes.
Achavam que era perigoso se aproximar e se envolver emocionalmente
com eles. Nunca chegavam muito perto do leito. Quando resolvi
me especializar em psiquiatria, direcionei meus estudos para
os piores tipos de sofrimento humano. Justamente nessa época,
na clínica onde eu trabalhava, dois pacientes se suicidaram
depois de passar por um forte stress causado por luto. A partir
daí, foquei meu trabalho na recuperação
de pessoas que haviam perdido alguém. Mas às
vezes é muito difícil para mim fazer esse trabalho.
Os grandes desastres, por exemplo, me deixam bastante abalado.
Veja O
que mais o abala nessas situações? Parkes Ver
o sofrimento em massa. É avassalador. Depois do 11
de Setembro, assim que voltei de Nova York, tirei férias
e viajei com meus netos. Eles disseram que eu não era
mais o avô de sempre. Disseram que eu estava longe
e estava mesmo. Minha cabeça não saía
de lá. É difícil ser a mesma pessoa depois
de ver uma tragédia dessas.