"Aécio
Neves nunca perdeu uma votação relevante na
Assembléia Legislativa de Minas. Nem no primeiro nem
no segundo mandato. Dos 77 deputados, ele tem o apoio de,
no mínimo, sessenta. Ganha de lavada, sempre. Agora,
esperto como uma raposa, perdeu"
Os bons mineiros
sabem que a esperteza, quando é excessiva, acaba comendo
o próprio dono. É o que parece estar acontecendo
com o governador Aécio Neves, de Minas Gerais. Ele
acaba de vetar uma excrescência aprovada pela Assembléia
Legislativa, que mutila a ação dos promotores
estaduais e dá foro privilegiado a quase 2.000 autoridades
do estado. E a Assembléia Legislativa, com maioria
estrondosa, acaba de derrubar o veto. E o governador, esperto
como uma raposa, acaba de dizer que lamenta a decisão
dos deputados, mas, sendo um "democrata", vai respeitá-la.
Parece bonito,
mas é pura esperteza.
Aécio Neves
é um governador muito bem avaliado, tanto que foi reeleito
com votação estonteante e seu nome é
presença constante em qualquer lista de candidatos
ao Palácio do Planalto em 2010. Com todo esse capital,
poderia ter feito o que dele se esperava: vetar a vilania
do foro privilegiado e orientar sua bancada para manter seu
veto de pé. Aécio Neves, esperto como uma raposa,
querendo fazer bonito para os dois lados, a opinião
pública e os deputados, entregou um doce para cada
um. Seu veto agrada ao eleitor mineiro. Sua inércia
à derrubada do veto é mimo para deputados.
Parece esperteza
que dá certo, mas ela é carnívora.
Aécio Neves
nunca repetindo: nunca perdeu uma votação
relevante na Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Nem no primeiro nem no segundo mandato. Dos 77 deputados,
ele tem o apoio de, no mínimo, sessenta. Ganha de lavada,
sempre. Tanto que o deputado Sávio Souza Cruz, que,
embora seja do PMDB, não reza pela cartilha do governador,
já sugeriu trocar o nome da Casa para "Assembléia
Homologativa de Minas". Agora, esperto como uma raposa, Aécio
Neves perdeu: 60 contra, 9 a favor e 1 abstenção.
Basta conferir quem, antes, votara pela ampliação
do foro privilegiado. Na lista estão o líder
do governo de Aécio (Mauri Torres), o líder
do partido de Aécio (Luiz Humberto Carneiro) e o líder
da maioria de Aécio (Domingos Sávio).
Com seu veto derrubado,
Aécio Neves recusou-se a promulgar a lei. Caberá
à própria Assembléia Legislativa fazê-lo.
Aécio Neves terá direito a dizer no palanque
que vetou o projeto insano duas vezes e se recusou a promulgá-lo.
A esperteza é olímpica, mas a condição
do sucesso é que os mineiros sejam tolos. Se estavam
certos quando reelegeram Aécio Neves, tolos é
que não são.
Criado no Brasil
imperial, o foro privilegiado não presta para nada,
a não ser para jogar lenha na fogueira da impunidade
e dividir os brasileiros entre a minoria da casa-grande e
a maioria da senzala. Eles e nós, em resumo. No caso
mineiro, o foro antes privilegiava apenas três autoridades.
Agora, na massa de quase 2.000, entra uma boiada, inclusive,
é claro, os deputados estaduais.
Aécio Neves
ainda tem chance de recuperar-se. Pode ir ao Supremo Tribunal
Federal alegar que a lei dos deputados é inconstitucional.
O procurador-geral de Justiça, Jarbas Soares Júnior,
um genuíno interessado em barrar a patacoada, já
anunciou que fará isso.