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CINEMA
Pandora Filmes
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| Harry:
será que ele existe mesmo? |
Harry Chegou para Ajudar (Harry, Un Ami qui Vous Veut du Bien,
França, 2000. A partir de sexta-feira em São Paulo)
Esse suspense francês pode ser descrito como o melhor filme que
Hitchcock nunca dirigiu, ou o mais intrigante romance que Patricia Highsmith,
de O Talentoso Ripley, nunca escreveu. O Harry do título
(Sergi López, de Uma Relação Pornográfica)
é um sujeito pouco memorável. Quando reencontra casualmente
Michel, um velho colega de colégio, este nem sequer o reconhece.
Harry, porém, nunca esqueceu Michel. Sabe de cor o poema horroroso
que ele compôs para o jornalzinho da escola e até namorou
as mesmas garotas que o ex-amigo depois dele, bem entendido. Qualquer
pessoa sensata fugiria de alguém assim, mas Michel, que é
do tipo que não consegue dizer não, deixa o amigo grudar
nele. Sua vida, aliás, é um reflexo dessa característica.
A mulher o humilha, as filhas pequenas o atormentam, seus pais não
param de se intrometer e suas finanças são um desastre.
Harry acha que deve ajudar Michel mas à sua maneira, que
não raro é apavorante. Se o filme fosse só isso,
já estaria muito bom. O diretor Dominik Moll, porém, acena
ainda com uma hipótese fascinante: será que existe mesmo
um Harry? Apesar do pouco alarde, é um dos melhores lançamentos
do ano.
LIVROS
A
Intuicionista, de Colson Whitehead (tradução de
Beth Vieira; Companhia das Letras; 306 páginas; 29,50 reais)
À primeira vista, a história narrada nesse romance parece
de uma bizarrice despropositada. Trata-se de uma fantasia ambientada num
mundo em que os elevadores de prédios adquirem uma importância
desmedida. Não é preciso ir longe, porém, para perceber
que o livro de estréia do americano Colson Whitehead, elogiadíssimo
pela imprensa de seu país, é literatura de primeira. Nas
entrelinhas, o autor, que é negro, faz uma contundente alegoria
sobre o racismo. Com sua narrativa densa, ele traz ao mundo uma heroína
digna de filme noir: Lila Mae Watson, fiscal do funcionamento dos elevadores
numa cidade fictícia que lembra Nova York. A personagem é
vítima de uma conspiração política dentro
da poderosa corporação a que pertence, e o fato de ela ser
negra não é mero detalhe.
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| Laura
e Marilena: boas lições |
Professoras
na Cozinha, de Laura de Souza Chaui e Marilena de Souza Chaui
(Senac; 384 páginas; 45 reais) Em parceria com sua mãe,
Laura, a filósofa Marilena Chaui exibe dotes insuspeitados nesse
livro. O público-alvo da obra é duplo. Primeiro, os inexperientes,
para quem fritar um ovo é tão complicado quanto ler um parágrafo
de Spinoza. Eles encontrarão no manual o bê-á-bá
da culinária e até lições avançadas
sobre como organizar refeições formais. Outros que tirarão
proveito dos ensinamentos das autoras que contaram com a ajuda
de quatro amigas para compilar as dicas são aqueles que,
possuindo alguma desenvoltura ao fogão, não dispõem
de tempo para pilotá-lo. Esses descobrirão bons macetes
nesse volume simpático e fácil de consultar.
DISCOS
Samba
Esquema Novo e África Brasil, Jorge Ben (Universal)
Idealizada por Charles Gavin, baterista dos Titãs, a coleção
Samba & Soul traz doze discos dos anos 60 e 70, com suas capas
originais e preço acessível cada CD custa por volta
de 18 reais. Há artistas como Cassiano e Gerson King Combo, mas
o melhor do pacote fica por conta do cantor e compositor Jorge Ben (hoje
Ben Jor). Lançado em 1963, Samba Esquema Novo marcou a estréia
de Jorge. Ele trazia uma nova batida de violão depois copiada
à farta no rock e no samba e clássicos instantâneos
como Mas que Nada e Chove Chuva. Em África Brasil,
de 1976, Jorge trocou o violão pela guitarra. Do cruzamento de
MPB com música africana e funk resultaram sucessos como Taj
Mahal.
DVD
Dancin'
in the Street, vários artistas (Top Tape) Fundada
pelo ex-boxeador Berry Gordy Jr. em 1960, a Motown foi uma gravadora que
trabalhou num esquema único. Ela tinha um belo time de compositores,
músicos, professores de dança e até de etiqueta,
que colaboraram para criar artistas de sucesso aos borbotões. Tal
estratégia ajudou a cunhar boa parte da história recente
da música negra americana. Esse DVD é um bom exemplo da
força da Motown. Gravado em 1987, traz diversos hits do selo na
voz de seus artistas originais. É soul music de boa qualidade do
começo ao fim. Os principais momentos ficam por conta de David
Ruffin e Eddie Kendricks ex-cantores do grupo vocal The Temptations
e suas interpretações dos hinos My Girl, Just
My Imagination e Ain't Too Proud to Beg.
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LITERATURA
BRASILEIRA
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A
Utopia Burocrática de Máximo Modesto;
Dionisio
Jacob;
Companhia
das Letras;
175
páginas;
22,50 reais
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Funcionário
público de carreira, Máximo Modesto ganhou uma promoção.
Ele agora é gerente de Assuntos Relacionados na obscura repartição
dos Serviços Interinos. Máximo aguarda instruções
superiores. Há algo estranho, porém. Dia após
dia, ele envia memorandos que jamais são respondidos. A porta
da chefia está sempre trancada. Pior ainda: ninguém
no departamento jamais viu o diretor. Esse é o ponto de partida
para A Utopia Burocrática de Máximo Modesto,
primeiro romance do paulista Dionisio Jacob. À primeira vista,
estamos diante de uma versão cabocla do universo kafkiano.
Desde que o checo Franz Kafka descreveu, em obras como O Castelo,
um mundo de hierarquias e regulamentos insondáveis, os temas
da burocracia e do absurdo estão ligados ao seu nome na literatura.
Mas é bom não se apressar.
Falta
ao livro de Jacob a dimensão metafísica que o grande
autor modernista pôs em seus textos e que a crítica
procura desvendar há décadas, falando de coisas como
o "sem-sentido da existência", a "morte de Deus", a "tirania
do Estado" e por aí afora. Sem nenhuma ambição
alegórica, o romance de Jacob é apenas o que parece
ser: uma sátira leve ao mundo dos servidores públicos
brasileiros. A boa notícia é que o autor realiza seu
propósito com eficiência. Apesar de alguns tropeços
que um romancista experiente não cometeria, como enfiar dois
personagens novos na história a poucas páginas do
seu final, ele apresenta com graça as trapalhadas da Serviços
Interinos, maneja habilmente o suspense (o que há por trás
da porta do chefe?) e tira bom proveito da divisão da narrativa
em memorandos, em vez de capítulos. Acima de tudo, Máximo
Modesto é um bom narrador-personagem. Ao explorar os dilemas
morais desse homem passivo e meio amalucado, Jacob consegue ir além
da simples ficção de entretenimento. Mas, frise-se,
está longe de ser uma versão brasileira de Kafka.
Carlos
Graieb
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