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Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
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CINEMA

Pandora Filmes
Harry: será que ele existe mesmo?


Harry Chegou para Ajudar
(Harry, Un Ami qui Vous Veut du Bien, França, 2000. A partir de sexta-feira em São Paulo) – Esse suspense francês pode ser descrito como o melhor filme que Hitchcock nunca dirigiu, ou o mais intrigante romance que Patricia Highsmith, de O Talentoso Ripley, nunca escreveu. O Harry do título (Sergi López, de Uma Relação Pornográfica) é um sujeito pouco memorável. Quando reencontra casualmente Michel, um velho colega de colégio, este nem sequer o reconhece. Harry, porém, nunca esqueceu Michel. Sabe de cor o poema horroroso que ele compôs para o jornalzinho da escola e até namorou as mesmas garotas que o ex-amigo – depois dele, bem entendido. Qualquer pessoa sensata fugiria de alguém assim, mas Michel, que é do tipo que não consegue dizer não, deixa o amigo grudar nele. Sua vida, aliás, é um reflexo dessa característica. A mulher o humilha, as filhas pequenas o atormentam, seus pais não param de se intrometer e suas finanças são um desastre. Harry acha que deve ajudar Michel – mas à sua maneira, que não raro é apavorante. Se o filme fosse só isso, já estaria muito bom. O diretor Dominik Moll, porém, acena ainda com uma hipótese fascinante: será que existe mesmo um Harry? Apesar do pouco alarde, é um dos melhores lançamentos do ano.

 

LIVROS

A Intuicionista, de Colson Whitehead (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 306 páginas; 29,50 reais) – À primeira vista, a história narrada nesse romance parece de uma bizarrice despropositada. Trata-se de uma fantasia ambientada num mundo em que os elevadores de prédios adquirem uma importância desmedida. Não é preciso ir longe, porém, para perceber que o livro de estréia do americano Colson Whitehead, elogiadíssimo pela imprensa de seu país, é literatura de primeira. Nas entrelinhas, o autor, que é negro, faz uma contundente alegoria sobre o racismo. Com sua narrativa densa, ele traz ao mundo uma heroína digna de filme noir: Lila Mae Watson, fiscal do funcionamento dos elevadores numa cidade fictícia que lembra Nova York. A personagem é vítima de uma conspiração política dentro da poderosa corporação a que pertence, e o fato de ela ser negra não é mero detalhe.

 
Laura e Marilena: boas lições

Professoras na Cozinha, de Laura de Souza Chaui e Marilena de Souza Chaui (Senac; 384 páginas; 45 reais) – Em parceria com sua mãe, Laura, a filósofa Marilena Chaui exibe dotes insuspeitados nesse livro. O público-alvo da obra é duplo. Primeiro, os inexperientes, para quem fritar um ovo é tão complicado quanto ler um parágrafo de Spinoza. Eles encontrarão no manual o bê-á-bá da culinária – e até lições avançadas sobre como organizar refeições formais. Outros que tirarão proveito dos ensinamentos das autoras – que contaram com a ajuda de quatro amigas para compilar as dicas – são aqueles que, possuindo alguma desenvoltura ao fogão, não dispõem de tempo para pilotá-lo. Esses descobrirão bons macetes nesse volume simpático e fácil de consultar.

 

DISCOS

Samba Esquema Novo e África Brasil, Jorge Ben (Universal) – Idealizada por Charles Gavin, baterista dos Titãs, a coleção Samba & Soul traz doze discos dos anos 60 e 70, com suas capas originais e preço acessível – cada CD custa por volta de 18 reais. Há artistas como Cassiano e Gerson King Combo, mas o melhor do pacote fica por conta do cantor e compositor Jorge Ben (hoje Ben Jor). Lançado em 1963, Samba Esquema Novo marcou a estréia de Jorge. Ele trazia uma nova batida de violão – depois copiada à farta no rock e no samba – e clássicos instantâneos como Mas que Nada e Chove Chuva. Em África Brasil, de 1976, Jorge trocou o violão pela guitarra. Do cruzamento de MPB com música africana e funk resultaram sucessos como Taj Mahal.

 

DVD

Dancin' in the Street, vários artistas (Top Tape) – Fundada pelo ex-boxeador Berry Gordy Jr. em 1960, a Motown foi uma gravadora que trabalhou num esquema único. Ela tinha um belo time de compositores, músicos, professores de dança e até de etiqueta, que colaboraram para criar artistas de sucesso aos borbotões. Tal estratégia ajudou a cunhar boa parte da história recente da música negra americana. Esse DVD é um bom exemplo da força da Motown. Gravado em 1987, traz diversos hits do selo na voz de seus artistas originais. É soul music de boa qualidade do começo ao fim. Os principais momentos ficam por conta de David Ruffin e Eddie Kendricks – ex-cantores do grupo vocal The Temptations – e suas interpretações dos hinos My Girl, Just My Imagination e Ain't Too Proud to Beg.


LITERATURA BRASILEIRA

A Utopia Burocrática de Máximo Modesto;
Dionisio Jacob;
Companhia das Letras;
175 páginas;
22,50 reais

Funcionário público de carreira, Máximo Modesto ganhou uma promoção. Ele agora é gerente de Assuntos Relacionados na obscura repartição dos Serviços Interinos. Máximo aguarda instruções superiores. Há algo estranho, porém. Dia após dia, ele envia memorandos que jamais são respondidos. A porta da chefia está sempre trancada. Pior ainda: ninguém no departamento jamais viu o diretor. Esse é o ponto de partida para A Utopia Burocrática de Máximo Modesto, primeiro romance do paulista Dionisio Jacob. À primeira vista, estamos diante de uma versão cabocla do universo kafkiano. Desde que o checo Franz Kafka descreveu, em obras como O Castelo, um mundo de hierarquias e regulamentos insondáveis, os temas da burocracia e do absurdo estão ligados ao seu nome na literatura. Mas é bom não se apressar.

Falta ao livro de Jacob a dimensão metafísica que o grande autor modernista pôs em seus textos e que a crítica procura desvendar há décadas, falando de coisas como o "sem-sentido da existência", a "morte de Deus", a "tirania do Estado" e por aí afora. Sem nenhuma ambição alegórica, o romance de Jacob é apenas o que parece ser: uma sátira leve ao mundo dos servidores públicos brasileiros. A boa notícia é que o autor realiza seu propósito com eficiência. Apesar de alguns tropeços que um romancista experiente não cometeria, como enfiar dois personagens novos na história a poucas páginas do seu final, ele apresenta com graça as trapalhadas da Serviços Interinos, maneja habilmente o suspense (o que há por trás da porta do chefe?) e tira bom proveito da divisão da narrativa em memorandos, em vez de capítulos. Acima de tudo, Máximo Modesto é um bom narrador-personagem. Ao explorar os dilemas morais desse homem passivo e meio amalucado, Jacob consegue ir além da simples ficção de entretenimento. Mas, frise-se, está longe de ser uma versão brasileira de Kafka.

Carlos Graieb

 
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Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura.
   
 
   
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