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A
Morte e a Morte de
Quincas Berro Dágua*
TEXTO COMPLETO DA OBRA
Jorge
Amado
Ilustrações:
Floriano Teixeira
*
Publicado sob licença da Distribuidora Record
I
ATÉ
HOJE PERMANECE CERTA CONFUSÃO em torno da morte de Quincas Berro
Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições
no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há
clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada
por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão
da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase,
acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada
morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram
mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por
testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos,
a frase final repetida de boca em boca representou, na opinião
daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho
profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria
um jovem autor de nosso tempo).
Tantas testemunhas
idôneas, entre as quais Mestre Manuel e Quitéria do Olho
Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há
quem negue toda e qualquer autenticidade não só à
admirada frase mas a todos os acontecimentos daquela noite memorável,
quando, em hora duvidosa e em condições discutíveis,
Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre,
para nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado de céticos
e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à
lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado. Exibem eles, vitoriosamente,
o atestado de óbito assinado pelo médico quase ao meio-dia
e com esse simples papel só porque contém letras
impressas e estampilhas tentam apagar as horas intensamente vividas
por Quincas Berro Dágua até sua partida, por livre e espontânea
vontade, como declarou, em alto e bom som, aos amigos e outras pessoas
presentes.
A família
do morto sua respeitável filha e seu formalizado genro,
funcionário público de promissora carreira; tia Marocas
e seu irmão mais moço, comerciante com modesto crédito
num banco afirma não passar toda a história de grossa
intrujice, invenção de bêbedos inveterados, patifes
à margem da lei e da sociedade, velhacos cuja paisagem devera ser
as grades da cadeia e não a liberdade das ruas, o porto da Bahia,
as praias de areia branca, a noite imensa. Cometendo uma injustiça,
atribuem a esses amigos de Quincas toda a responsabilidade da malfadada
existência por ele vivida nos últimos anos, quando se tornara
desgosto e vergonha para a família. A ponto de seu nome não
ser pronunciado e seus feitos não serem comentados na presença
inocente das crianças, para as quais o avô Joaquim, de saudosa
memória, morrera há muito, decentemente, cercado da estima
e do respeito de todos. O que nos leva a constatar ter havido uma primeira
morte, senão física pelo menos moral, datada de anos antes,
somando um total de três, fazendo de Quincas um recordista da morte,
um campeão do falecimento, dando-nos o direito de pensar terem
sido os acontecimentos posteriores a partir do atestado de óbito
até seu mergulho no mar uma farsa montada por ele com o
intuito de mais uma vez atazanar a vida dos parentes, desgostar-lhes a
existência, mergulhando-os na vergonha e nas murmurações
da rua. Não era ele homem de respeito e de conveniência,
apesar do respeito dedicado por seus parceiros de jogo a jogador de tão
invejada sorte e a bebedor de cachaça tão longa e conversada.
Não
sei se esse mistério da morte (ou das sucessivas mortes) de Quincas
Berro Dágua pode ser completamente decifrado. Mas eu o tentarei,
como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar,
mesmo o impossível.
Leia
os outros capítulos do livro:
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