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Luiz
Felipe de Alencastro
A
provincianização
do Brasil
"Ensinar
a história do Brasil olhando
para nosso próprio umbigo complica
nossa percepção sobre o mundo atual"
Ilustração Ale Setti
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A
extensão da rede universitária brasileira torna cada vez
mais difícil o acompanhamento das atividades científicas
no país. Faculdades e centros de investigação governamentais
e privados multiplicam os programas de estudos, elaborando um número
cada vez maior de relatórios e de teses. A propósito, parece
inacreditável que órgãos governamentais importantes,
como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq) ou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp), não tenham ainda organizado um fichário
nacional das teses de mestrado e doutorado. Financiados por esses órgãos,
mas registrados apenas em fichários fragmentados e pouco confiáveis,
muitos trabalhos de qualidade dormem em arquivos desconhecidos.
Nessas circunstâncias, os simpósios promovidos pelas associações
das diferentes disciplinas constituem um evento de primeira grandeza.
Reunindo pesquisadores dos quatro cantos do país, tais encontros
oferecem uma oportunidade única de intercâmbio científico
e de contato direto entre estudiosos espalhados pelo Brasil. Um desses
eventos, o congresso bienal da Associação Nacional dos Professores
Universitários de História (Anpuh), realizou-se no mês
passado, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.
Em presença de estudantes, professores e pesquisadores, cerca de
200 palestras e mesas-redondas abordaram os temas mais diversos da investigação
histórica. Palestrantes estrangeiros expressaram sua admiração
ao encontrar nos debates um público jovem, atento e numeroso. O
congresso foi também a ocasião de observar os rumos da pesquisa
no Brasil.
Ao lado de muitas novidades interessantes, confirmam-se algumas limitações.
A mais flagrante foi a quase ausência de abordagens sobre o império
português. Houve umas poucas palestras a respeito da África
portuguesa e somente uma mesa-redonda sobre a Ásia colonial, sobre
Goa, mais exatamente. Dessa forma, transparecia o fato de que as universidades
brasileiras carecem de demanda nesses setores. Ora, uma das insuficiências
mais patentes do ensino de história no Brasil tem a ver com a tendência
endogenista, que leva a pensar os fatos históricos apenas no contexto
brasileiro. Como se o Brasil tivesse sido o horizonte exclusivo dos portugueses,
dos jesuítas e do comércio da época moderna. Por
que deslanchar uma enésima pesquisa sobre a Inconfidência
Mineira sem compará-la com as insurreições de colonos
que sacudiam, nesse mesmo fim do século XVIII, regiões do
continente americano ou outras possessões portuguesas da África
e da Ásia?
As multinacionais brasileiras (Petrobras, Odebrecht, TV Globo) remexem
o solo e o céu angolano, mas nossos pesquisadores reservam pouca
atenção aos laços intensos que, desde o século
XVI, nos uniram a Angola. A mesma coisa, o mesmo desinteresse intelectual,
toca os países platinos, aos quais estivemos próximos durante
a União Ibérica (1580-1640); depois, de maneira intermitente,
nos séculos XIX e XX; e agora, talvez para valer, no âmbito
do Mercosul.
Na semana passada, o novo correspondente do jornal Folha de S. Paulo
em Paris, o excelente Alcino Leite Neto, fez uma constatação
que não hesito em endossar. Segundo ele, quem lê de longe
a imprensa brasileira tem a impressão de que nosso país
vive num universo "auto-explicativo, auto-referente, sem laços
com o restante da Terra". Efetivamente, essa "provincianização"
do Brasil, a despeito do movimento globalizante atualmente em curso, afigura-se
como algo extravagante. A realidade externa só parece equacionar-se
entre nós quando envolve a taxa de câmbio, as exportações
de suco de laranja, as viagens das top models ou o passe dos jogadores
de futebol. Governo e oposição comungam no mesmo viés
internalista. Tenho para mim que as duas coisas estão ligadas:
ensinar a história do Brasil olhando para o nosso próprio
umbigo complica nossa percepção sobre o mundo atual. Mudar
nosso olhar sobre o passado nos ajudará a entender melhor o presente.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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