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O
IRA na mira
Roddy Doyle adentra os
bastidores do terrorismo irlandês
em um romance empolgante
Moacyr Scliar*
O
irlandês Roddy Doyle é uma estrela na Europa. Ganhou o Booker
Prize, o mais importante das letras britânicas, e é cortejado
por cineastas como Alan Parker e Stephen Frears. A fama é merecida.
Doyle não faz feio na extraordinária tradição
literária de seu país, que conta com nomes imponentes como
Jonathan Swift, Oscar Wilde e James Joyce, e tem por características
fundamentais a imaginação vibrante e um humor muito peculiar.
Quem leu um de seus dois romances já lançados no Brasil,
O Furgão e Paddy Clarke Ha Ha Ha, sabe de seu talento
no manejo desse humor e também de sua predileção
por personagens saídos das camadas populares da Irlanda atual.
Com seu novo romance, Uma Estrela Chamada Henry (tradução
de Lidia Luther; Estação Liberdade; 384 páginas;
34 reais), Doyle dá um passo além na carreira, acrescentando
amplitude histórica às suas preocupações.
Primeiro volume do que deverá ser uma trilogia, o livro acompanha
o protagonista Henry em suas duas primeiras décadas de vida, que
coincidem com o início do século XX e com momentos ferocíssimos
da luta dos irlandeses pela independência.
Doyle opta por uma narrativa rica em detalhes históricos, em boas
tiradas e também em violência. Na primeira parte, acompanhamos
a infância de Henry Smart, cujo sobrenome, "Esperto", é significativo:
esperteza, num país pobre e dilacerado por conflitos, é
condição de sobrevivência. Filho de um matador de
aluguel perneta (pernas, diz-nos o autor, eram regularmente perdidas em
batalhas do Império Britânico ou em fábricas), Henry
cresce em meio a uma miséria de Terceiro Mundo e aprende rapidamente
os truques da vida. Também de maneira precoce é engolfado
pelo drama irlandês: aos 14 anos já está atrás
de uma barricada, junto com integrantes do Exército Irlandês
de Cidadãos, precursor do IRA. Três anos depois, de novo
recrutado, ele mata um policial usando como arma uma relíquia familiar:
a perna de pau do pai desaparecido. Agora é um militante do IRA,
recebendo ordens do lendário Michael Collins e, decididamente,
fazendo História. "Não podemos vencê-los", diz um
companheiro, referindo-se aos ingleses. "Tudo o que podemos fazer é
não deixá-los em paz. Precisamos de represálias,
vítimas inocentes, atrocidades." Eis aí uma excelente definição
do terrorismo atual, cada vez mais dependente da mídia para sobreviver.
Smart tem seu ânimo revolucionário arrefecido quando descobre
que o conflito no país envolve interesses pouco patrióticos.
O segundo romance da trilogia deverá reencontrá-lo na cidade
inglesa de Liverpool. Escrito numa linguagem apropriadamente crua, Uma
Estrela Chamada Henry fascina o leitor. Como é fácil
deduzir, o livro não se constitui exatamente num hino à
revolução ou qualquer coisa que o valha. Roddy Doyle não
tem ilusões a respeito. Nem está interessado em fazer propaganda,
como era o caso da literatura engajada da época stalinista, na
qual os "progressistas" eram sempre bonzinhos e os "reacionários",
sempre malvados. Recusando qualquer visão maniqueísta do
conflito na Irlanda, Doyle mostra-nos um personagem complexo e contraditório,
movendo-se em uma realidade abjeta da qual só poderia resultar
uma luta sangrenta e inglória. Esse é o maior mérito
do livro.
*
Moacyr Scliar é escritor, autor de
A Mulher que Escreveu a Bíblia, entre outros livros.
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