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Meu
caro diário
Bridget Jones, a mais simpática das
heroínas de best-sellers, ganha uma
adaptação à sua altura
Isabela Boscov
Alex Bailey
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| Renée,
como a atrapalhada Bridget: 10 quilos a mais, sotaque inglês e talento
cômico |
Foi um deus-nos-acuda quando se anunciou que o papel principal de O
Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary,
Inglaterra/Estados Unidos, 2001) seria dado a ninguém menos que
uma texana Renée Zellweger, que contracenou com Tom Cruise
em Jerry Maguire. A confusa, ansiosa e graciosamente neurótica
Bridget é um patrimônio britânico por excelência,
dos hábitos prejudiciais à saúde (como o de comer
torta de rim ou asfixiar as mágoas com doses cavalares de tabaco)
ao senso de humor debochado cuja vítima mais freqüente
é ela mesma. Os ingleses esperavam, portanto, que coubesse a uma
atriz nativa a incumbência de viver na tela a heroína de
um dos grandes best-sellers da década passada, com 4 milhões
de cópias vendidas em todo o mundo (50.000 delas no Brasil). Mas,
como se pode conferir a partir desta sexta-feira, quando o filme estréia
em circuito nacional, Renée foi mesmo uma escolha melhor do que
Kate Winslet ou Helena Bonham Carter, como chegaram a cogitar os produtores.
Tem ótimo timing para a comédia e uma enorme capacidade
de despertar a empatia da platéia. Guardando-se as devidas proporções,
lembra Lucille Ball no estilo e na disposição para se mostrar
em ângulos pouco glamourosos. Renée revelou, de fato, uma
admirável ausência de afetação durante as filmagens:
distribuiu 10 quilos extras por seu 1,65 metro de altura e mudou-se para
Londres para treinar o novo sotaque. Os ingleses foram os primeiros a
admitir que, desta vez, a apropriação de um de seus orgulhos
nacionais não foi indébita embora nenhum deles resista
a criticar a pronúncia da atriz, claro.
Para quem não conhece o livro da inglesa Helen Fielding, vale explicar
que o que torna a personagem tão especial é, ironicamente,
sua absoluta normalidade. Bridget já passou dos 30 anos, mas se
tortura por ainda não ter encontrado o homem certo (e nem o errado).
Não é gorda, mas adoraria ser mais magra. Da sua lista de
resoluções consta parar de fumar, de beber, de esquecer
de lavar a roupa suja e de perder tempo vendo novelas ou tentando adivinhar
onde largou as chaves de casa. No momento, está empacada num emprego
medíocre numa editora, mas não sai de lá porque anda
meio apaixonada por seu chefe (Hugh Grant, numa atuação
deliciosa), que vive jogando charme para a funcionária, mas obviamente
não é um namorado confiável. Bridget tem ainda o
dom da gafe: sabe escolher como ninguém a hora errada de dizer
a coisa errada, o que freqüentemente ofusca sua inteligência
e o seu outro grande talento, o de ridicularizar suas próprias
aflições com tiradas espirituosas. Bridget é, em
suma, um modelo de desorganização e o alvo perfeito para
guias de auto-ajuda na linha de Homens São de Marte, Mulheres
São de Vênus. Isso por ser, no cotidiano, a antítese
de tudo o que esses manuais pregam exatamente como a maioria da
humanidade.
2000 Universal Pictures/Uip
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| Firth
(à esq.) e Grant: rivais ao estilo de Orgulho e Preconceito |
Quando a história começa, numa véspera de Ano-Novo,
Bridget está no auge da insatisfação. Daí
a idéia de escrever um diário como ferramenta de auto-aprimoramento.
Bridget registra não só os acontecimentos cotidianos, mas
também seu peso, as calorias consumidas, a quantidade de cigarros
fumados e o número de drinques entornados. Por serem sinceros
e algo patéticos , seus esforços são tão
cativantes. É esse o espírito que o filme da diretora Sharon
Maguire (amiga da autora e uma das fontes de inspiração
para o livro) capta tão bem e transforma em trampolim para ótimas
piadas. Sharon é uma estreante, mas teve apoio de peso: os produtores
dos sucessos britânicos Quatro Casamentos e Um Funeral e
Um Lugar Chamado Notting Hill. O roteirista, Richard Curtis, também
é o mesmo. Mas não trabalhou sozinho, e sim em colaboração
com Andrew Davies, que há seis anos adaptou Orgulho e Preconceito,
de Jane Austen, para uma minissérie que virou mania na Inglaterra.
Há uma pegadinha aí: O Diário de Bridget Jones
é, na verdade, uma versão modernizada desse romance clássico.
Tem até o mesmo protagonista o reprimido e esnobe Darcy,
que logo na primeira cena se converte na nêmese da heroína
e está sempre por perto quando ela dá seus piores foras.
Para garantir que a platéia entendesse a brincadeira, convocou-se
o mesmo ator da série: Colin Firth, que repete aqui sua interpretação
ao mesmo tempo irritante e irresistível. Bridget, claro, demora
a entender que Darcy gosta dela apesar de suas trapalhadas e também
por causa delas mais ou menos como costuma acontecer no mundo real.
É isso que faz o filme funcionar tão bem. Nele, nem as mulheres
são venusianas nem os homens vêm de Marte. São todos
deste planeta mesmo.

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