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Na semana
passada, dava-se como certo que o presidente americano George W. Bush
se manteria fiel às promessas de campanha e vetaria verbas federais
para as pesquisas com embriões humanos. Quando Bush anunciou sua
decisão, surpreendente, de favorecer certos tipos de pesquisa com
células de embriões, os analistas atribuíram a mudança
de opinião do presidente à pressão dos cientistas
americanos. "É imaturidade acreditar que os Estados Unidos vão
deixar outros países liderarem a pesquisa genética com embriões
humanos", disse Harry Griffin, diretor do Instituto Roslin, onde em 1996
foi clonada pioneiramente a ovelha Dolly, que nasceu sem pai e é
uma cópia perfeita de um animal adulto. Numa primeira abordagem
do tema, há duas semanas, o Congresso americano votou contra a
clonagem humana em território americano. A decisão de Bush,
porém, abre caminho para que a técnica seja estudada e aprimorada
sem que se produza efetivamente um bebê. Bush anunciou que vai financiar
pesquisas em que cientistas utilizem embriões que foram feitos
pelos métodos atuais de fertilização artificial e
não puderam ou não precisaram ser implantados nas mães.
As células desses embriões serão usadas em pesquisas
que tentam desenvolver métodos de tratamento mais eficazes para
doenças genéticas como mal de Parkinson e Alzheimer, ou
metabólicas, como o diabetes juvenil. Uma outra linha de pesquisa
experimenta usar essas células embrionárias para tratar
lesões vertebrais provocadas por acidentes.
Na tentativa
de clonar o primeiro ser humano, os médicos Antinori e Zavos usarão
um método praticamente idêntico ao que criou a ovelha Dolly.
Os pesquisadores vão começar a trabalhar com os óvulos
cedidos por doadoras. A primeira etapa consiste em arrancar seu núcleo
genético natural produzindo-se assim o equivalente a um
ovo sem gema, apenas com a clara e a casca. Em seguida, os cientistas
vão coletar células de adultos que querem se clonar. O núcleo
genético das células humanas carrega todas as instruções
necessárias para produzir a cópia fiel de um ser humano.
No laboratório, uma pequena descarga elétrica faz o núcleo
da célula da pessoa a ser clonada se fundir com a célula
oca. Quando o procedimento dá certo, imediatamente a célula
construída artificialmente começa a se reproduzir e gera
um pré-embrião, chamado blastocisto. Esse pré-embrião
é, então, transferido para o útero de uma das voluntárias
onde vai passar pelo processo de gestação. Teoricamente,
os bebês que Antinori e Davos conseguirem produzir serão
gêmeos univitelinos dos doadores do núcleo celular.
Teoricamente,
reafirme-se. O processo é ainda tão incipiente que há
quase certeza de que mesmo os bebês nascidos vivos podem trazer
ao mundo falhas genéticas de nascença como as que, aos poucos,
vão se descobrindo em Dolly. A ovelha clonada pelo Instituto Roslin
nasceu há cinco anos, mas suas células são equivalentes
às de uma ovelha mais velha um animal com 12 anos, exatamente
a idade da ovelha cujo DNA foi utilizado na experiência. Por essa
razão, não está descartada a possibilidade de que
os clones humanos sejam bebês precocemente envelhecidos, que sofram
de doenças degenerativas, como a catarata ou o reumatismo e mesmo
certos tipos de câncer, ainda na primeira infância. Alguns
bezerros e ovelhas clonados nasceram aleijadamente grandes, com peso 60%
superior ao de um filhote normal. Como o espaço no útero
é menor que o necessário, podem nascer mancos ou com pernas
deformadas. Às vezes é a cabeça que cresce demais,
e os animais morrem rapidamente. Mesmo os filhotes que nascem perfeitos
podem apresentar problemas mais tarde. É comum bezerros clonados
morrerem de paralisia renal menos de 48 horas depois de nascerem. A eutanásia
é o único caminho para aliviar o sofrimento desses filhotes.
A ciência
claramente não está pronta para testar a técnica
da clonagem em seres humanos. "Há 25 anos eu achava que as limitações
para conseguir clonar uma pessoa eram mera questão de método
e tecnologia. Hoje tenho certeza de que há uma séria limitação
biológica", diz o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade
Federal de Minas Gerais. Um dos principais argumentos dos pesquisadores
que decidiram levar adiante a clonagem é o desenvolvimento de exames
capazes de prever anormalidades em um embrião no estágio
inicial de formação. Isso contornaria os riscos de se produzirem
bebês monstro. Pouca gente acredita na existência desses testes.
"A única maneira de chegar à perfeição na
clonagem é pela prática, pela repetição, por
tentativa e erro. Nas experiências com animais isso é perfeitamente
aceitável. Mas com seres humanos é antiético agora
e será pelas próximas décadas", disse Alan Colman,
diretor da PPL Therapeutics, empresa líder na criação
de animais geneticamente modificados para produzir remédios.
A questão
ética não vai ceder tão cedo. Perto da clonagem,
as discussões morais sobre aborto ou eutanásia tornam-se
problemas menores. Do ponto de vista da Igreja, o debate tem muito pouco
a ver com as dificuldades científicas do processo de clonagem.
Ele é uma variante de um dogma que remonta a Santo Agostinho, no
século V, segundo o qual a vida humana começa no momento
da concepção. Em tese, os religiosos estariam contra o processo
de clonagem por ele produzir embriões condenados a morrer, mas
não seriam necessariamente contrários ao processo em si,
desde que haja garantias de sucesso na operação. Isso em
tese. Na prática, a Igreja Católica repele, com mais veemência
que o judaísmo e as denominações protestantes, todas
as formas de manipulação genética em seres humanos.
"Clonagem de qualquer tipo é antiética e o embrião
que é descartado, mesmo que seja antes de completar duas semanas,
é vítima de assassinato", diz o bispo dom João Bosco
de Faria, designado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB) para participar da redação do Código de Ética
de Manipulação Genética que os religiosos esperam
ver adotado no Brasil.
O mais provável
é que a ética religiosa não conte muito para os cientistas
da estirpe de Antinori e Zavos. Nem para a legião de outros grupos
que começam a admitir estar trabalhando na produção
de um clone humano. Um desses grupos é um certo Clonaid, clínica
de pesquisa com sede nas Bahamas e que tem ligação com uma
seita exótica, os raelianos. O Clonaid é formado por cerca
de 20 000 pessoas que acreditam na clonagem como o objetivo transcendente
da raça humana. Dirigido pela pesquisadora francesa Brigitte Boisselier,
o Clonaid está cobrando 200.000 dólares
de potenciais candidatos à clonagem. Vista como uma aventureira
pelo próprio Antinori, Brigitte sugeriu durante a reunião
em Washington que seu grupo já se está preparando para a
primeira operação completa de clonagem. Seu grupo quer clonar
um bebê de 10 meses que morreu durante uma cirurgia malsucedida
no ano passado. Algumas células retiradas na operação
e congeladas antes da morte darão aos cientistas o material genético
necessário para o experimento. Entre as mulheres arregimentadas
para a tarefa de receber um clone no útero está a própria
filha de Brigitte, de 22 anos.
Candidatos
a fazer cópias de si mesmos não faltam. O americano Randolfe
Wicker, de 63 anos, presidente do Human Cloning Foundation, é o
mais ardente deles. "A maioria das pessoas quer ter filhos. A essa altura
da vida prefiro ter um irmão gêmeo", disse ele a VEJA. "A
clonagem não é a chave para a eternidade e sei que meu clone
será uma pessoa diferente de mim. Se eu estiver vivo para criá-lo,
vou tê-lo como filho. Seu nome será Randolfe Wicker Junior",
esclarece o ativista. Motivações como a de Wicker mostram
que a clonagem começa a ser encarada como um procedimento útil.
"Antes, as pessoas falavam erradamente que a clonagem poderia produzir
cópias de Hitler ou de Saddam Hussein", diz Brigitte. "Agora se
fala em clonar um filho morto ainda bebê ou fazer a cópia
de um filho com leucemia para que o irmão gêmeo resultante
possa ser doador da medula que vai salvar-lhe a vida." Seja qual for a
razão, depois do anúncio da semana passada ficou claro que
a corrida rumo ao impensável, a cópia artificial de um ser
humano, está muito mais adiantada do que se imaginava.
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A
clonagem é inevitável
Arquivo pessoal

Lawrence
Smith com o bezerro clonado: falhas tornam a clonagem humana
uma temeridade |
Brasileiro,
filho de ingleses, o veterinário Lawrence Smith, 44 anos,
trabalhou com Ian Wilmut, criador da ovelha Dolly. No ano passado
Smith clonou um bezerro a partir de células congeladas de
um touro premiado já morto. Em entrevista concedida ao editor
Daniel Hessel Teich, Smith, que é professor da Universidade
de Montreal, no Canadá, alertou para os riscos da clonagem
humana.
Veja
O senhor acredita que os médicos Severino Antinori
e Panayiotis Zavos terão sucesso em sua tentativa de clonar
um ser humano?
Lawrence
Smith Em princípio, não vejo muitas chances
de essa experiência dar certo. É preciso montar uma
logística enorme e é difícil imaginar como
essa estrutura virá a funcionar em apenas um ou dois anos.
Isso é coisa para cinco anos no mínimo. Eu imagino
que eles vão começar a pesquisa com poucas mulheres,
quatro ou cinco de cada vez, e irão refinando a técnica.
A clonagem humana de fato acontecerá, seja por eles ou por
outro grupo. Isso é inevitável.
Veja
Os cientistas têm condições de começar
já esse tipo de pesquisa?
Lawrence
Smith Do ponto de vista científico, as ferramentas
estão à disposição. Mas a questão
aqui é outra. A pergunta, nesse caso, é se estamos
preparados para ver esses bebês que eventualmente nasçam
deformados, se temos como tratar as crianças que sobrevivam
e venham a ter problemas graves de saúde no futuro. Sob esse
aspecto, a resposta é não. Os resultados em animais
são ainda muito incipientes. Há menos de cinqüenta
animais clonados no mundo. É pouco. A clonagem existe há
cinco anos, o que também é pouco. Ainda é uma
técnica cheia de falhas, quase uma loteria, na qual se obtêm
acertos às vezes por pura sorte.
Veja O senhor já teve casos graves de más-formações
em suas experiências com bezerros?
Lawrence
Smith Problemas de formação de órgãos,
como coração, rim e pulmão, são comuns.
Isso ocorre em mais da metade dos animais que nascem. Muitos morrem,
e os demais vivem para sempre com algumas limitações.
Do ponto de vista veterinário, isso não chega a ser
um problema, mas, em se tratando de seres humanos, não sei
dizer como um jovem ou uma criança conviveria com essa situação.
Em nossas melhores experiências, como a do clone do touro
premiado, conseguimos uma taxa de sucesso de 1,5%. Caso de aberração
só detectamos uma vez, quando um bezerro chegou às
vésperas do nascimento com uma aparência fetal semelhante
à dos primeiros estágios da vida uterina. Morreu assim
que nasceu.
Veja
O que os senhores fazem com os animais defeituosos que
sobrevivem?
Lawrence
Smith Depende da deformidade. Melhoramos um pouco nossas
técnicas de tratar filhotes com problemas respiratórios
logo depois do parto e estamos salvando vários deles com
isso. No caso de problemas cardíacos, renais e imunológicos,
a situação é diferente. As chances de sobrevivência
são muito pequenas, e partimos para a eutanásia nos
primeiros dias de vida. Damos uma injeção letal para
que o animal sofra o mínimo. Talvez fosse possível
reverter o quadro com cirurgias, mas, em se tratando de animais,
o custo e as dificuldades não compensam o esforço.
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