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Amado se
envolveu com o "Partidão" no começo da década de
30. Deixou a militância em 1956, mas nunca parou de se dizer socialista.
Para muitos estudiosos, essas datas delimitam também a "primeira
fase" de sua literatura uma fase em que Amado progrediu dos romances
de rebeldia e denúncia para "romances proletários" cada
vez mais imbuídos de ideologia. Segundo o crítico Eduardo
de Assis Duarte, o Jorge Amado desse período "se irmana aos escritores
e intelectuais que voltaram sua atividade para a concretização
do socialismo. O impulso de esperança e utopia que move seus personagens
é o mesmo que alimentou a obra dos companheiros de viagem da revolução,
espalhados pelo mundo afora". E essa não é apenas uma constatação
de acadêmico. Em 1937, por exemplo, Amado teve 1.694
livros queimados em praça pública, em Salvador. A ata policial
falava em "obras de propaganda comunista".
Não
foram só os livros que sofreram perseguição. Amado
também foi preso por diversas vezes. Mas isso não impediu
que se entregasse inteiramente à militância. Em 1945, ele
foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista e assumiu uma cadeira
na Assembléia Constituinte instalada no ano seguinte. Foram de
sua autoria emendas sobre liberdade de culto religioso e sobre direitos
autorais, assim como projetos que facilitavam a importação
de papel para imprimir livros. Amado dava 80% do seu salário ao
Partido e vivia de direitos autorais. Em 1947, porém, o PC foi
proscrito e todos os seus parlamentares cassados. A viagem de Amado e
Zélia para a França no ano seguinte foi, assim, um exílio.

ATEÍSMO
À MODA BAIANA
O escritor, em conversa com a Mãe Menininha do Gantois: embora
não fosse religioso, ele admirava o candomblé e chegou
a freqüentar terreiros |
Paris é
uma festa, como disse o americano Ernest Hemingway. Mas, no caso de Amado,
a festa não durou muito. Em 1950, o governo francês resolveu
expulsá-lo, por causa da atuação política
(ele só receberia autorização para retornar dezesseis
anos mais tarde, graças à intervenção de André
Malraux, um dos principais romancistas e intelectuais franceses do século
XX). Amado e sua família foram então morar na Checoslováquia.
Os meses seguintes foram de andanças pela Europa do Leste e, inclusive,
de visita a Moscou, a meca do comunismo, onde Amado foi agraciado com
o Prêmio Internacional Stalin. A respeito dessa viagem, Amado costumava
contar que foi a primeira vez que ouviu críticas sérias
ao regime. "Fiquei chocado quando ouvi de um escritor húngaro histórias
sobre tortura", dizia. "Sabia que havia gente presa por discordar do Partido,
mas não imaginava que houvesse tortura num país socialista."
O próprio Amado se definia como um "stalinista ferrenho" nessa
época. No livro O Mundo da Paz, por exemplo, que data do
início dos anos 50, e que o autor não permitiu que fosse
reeditado mais tarde, ele tece loas ao homem que dirigia com mão
de ferro a política soviética: "Este livro é uma
homenagem ao camarada Stalin, nos seus 70 anos, sábio dirigente
dos povos do mundo na luta pela felicidade do homem sobre a Terra".
Ao longo
dos anos, a militância comunista trouxe dividendos para o escritor.
A máquina partidária divulgou seu nome ao redor do mundo.
Só nos países do antigo bloco comunista, ele chegou a vender
mais de 10 milhões de livros. Mas houve também momentos
em que a atividade política atrapalhou suas ambições
como escritor. A crítica é unânime em reconhecer que
o auge do sectarismo na obra de Jorge Amado, marcado pelo romance em três
volumes Os Subterrâneos da Liberdade (1954), é também
o ponto mais baixo de seu trabalho artístico. Como observou Eduardo
de Assis Duarte, nesse romance que prega a submissão total às
decisões do partido "o PC é idealizado como um organismo:
ele não só inspira, mas dirige e orienta o trabalho de seus
membros, fazendo deles peças de uma máquina". Na mesma época
em que escrevia esse livro, contudo, Amado já percebia que seus
interesses literários não encontravam muito eco entre os
camaradas do Partido. "Não queriam ler meus romances, pois, na
visão deles, eram uma coisa sem importância." Amado jamais
esqueceu um encontro que teve em Paris com um escritor americano, Michael
Gold, hoje relegado ao ostracismo. Gold também abandonara a literatura
para se dedicar à militância. Quando se viu à beira
da pobreza, precisando escrever para ganhar a vida, percebeu que simplesmente
havia "perdido a mão".
O medo de
"perder a mão" desempenhou um papel importante na decisão
de abandonar o PCB. Amado costumava dizer que não foram as denúncias
sobre os crimes do partido, nem uma desilusão com os ideais soviéticos,
que o levaram a entregar a carteirinha. Foi o simples desejo de voltar
a escrever, atividade para a qual ele não encontrava tempo, envolvido
que estava nas lides políticas. "Cheguei à conclusão
de que era mais útil ao povo brasileiro como autor do que como
militante", dizia. O primeiro romance lançado por ele depois de
1956 representa uma guinada: é Gabriela, Cravo e Canela,
de 1958. A partir daí, os livros de Jorge Amado passam a ter mais
humor. São mais "carnavalescos", para usar a palavra consagrada
pela crítica ao falar dessa nova fase. Seus heróis agora
são cômicos, como Quincas Berro Dágua ou Vadinho (de
Dona Flor e Seus Dois Maridos). As heroínas sensuais ganham
mais peso nas histórias. Jorge Amado passa a vender, em seus livros,
a imagem de um Brasil cordial, mestiço pitoresco.
Ao desligar-se
do Partidão, Amado abandonou o engajamento, mas não deixou
de dar opiniões políticas. Ele jamais renegou o passado,
embora, em anos subseqüentes, tenha feito o mea-culpa de praxe, por
ter louvado a ditadura stalinista. Em 1989, pouco antes da queda do Muro
de Berlim, ele revisitou Moscou e ficou abalado com tudo que viu e ouviu.
"Meu coração se confrangeu com a situação
do Império e dos povos soviéticos", diria ele no livro de
memórias Navegação de Cabotagem. Diz a lenda
que o choque lhe acarretou um pequeno derrame. No Brasil, Amado passou
tranqüilo pelos anos da ditadura militar. Em 1979, ele assistiu com
interesse à criação do Partido dos Trabalhadores,
mas depois se decepcionou com a agremiação. Em 1984, apoiou
o movimento das diretas já. Para confusão de muita gente,
no entanto, Amado aproximou-se cada vez mais, na velhice, de personagens
que estiveram ligados ao regime militar, como o ex-senador baiano Antonio
Carlos Magalhães e o senador maranhense José Sarney. A este
último, Amado dedicou o livro O Sumiço da Santa (1988).
Quando foi atacado por essa atitude, disse que Sarney e ACM haviam corrido
sérios riscos em meados daquela década, "liderando a desintegração
das forças partidárias que, com o beneplácito do
regime militar, estavam impondo à opinião pública
brasileira a insuportável vitória de Paulo Maluf".
O fato é
que, de 1960 em diante, Jorge Amado foi se tornando cada vez menos um
"escritor comunista" e cada vez mais uma personalidade literária
reverenciada por todos. Em 1961, foi eleito por unanimidade, e com muita
festa, para a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, seu nome passa
a constar pela primeira vez das bolsas de apostas para o Prêmio
Nobel de Literatura. Esse prêmio nunca veio, mas a galeria de homenagens
não parou de crescer e até ruas foram batizadas com o nome
do autor. Para completar esse processo de "institucionalização",
surgiu, em 1987, a Fundação Casa de Jorge Amado. Com sede
em Salvador, ela abriga o acervo bibliográfico do escritor e objetos
coletados a vida inteira. "Sou apegado até a cartão de Natal",
dizia ele. Entre os objetos colecionados, vários retratos seus
feitos por pintores de renome, como Portinari, Pancetti e Flávio
de Carvalho.
Mas foram
outras telas que ajudaram de verdade a propagar o nome de Amado pelo país
e pelo mundo. Ele é o autor brasileiro mais adaptado para o cinema
e a televisão. Sua relação com o cinema começou
bem cedo, em 1934, quando Carmem Santos quis filmar Cacau, projeto
que não foi adiante. Em 1937, chegou até a fazer uma pontinha
de ator, puxando uma rede de pesca num filme sobre a praia de Itapuã.
Amado contava ter escrito diálogos para chanchadas e argumentos
para produções menores. Quando o assunto era a adaptação
de seus próprios livros, no entanto, sua atitude mudava. "A adaptação
de um romance para outro meio é sempre uma violência", dizia.
"Escrever é um exercício de estilo e, na adaptação,
o estilo desaparece." Amado tinha certo carinho pelo filme Dona Flor
e Seus Dois Maridos, de 1976, com direção de Bruno Barreto
e estrelado por Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.
Segundo ele, a maior bilheteria da história do cinema brasileiro
era "uma agradável comediazinha". Sempre que possível, no
entanto, Amado procurava fugir das exibições de filmes baseados
em textos seus. Na televisão, foi grande o número de novelas
e minisséries inspiradas em Jorge Amado. Gabriela virou
novela duas vezes, em 1961, na Rede Tupi, e em 1975, na Rede Globo. Terras
do Sem Fim, Tenda dos Milagres, Capitães de Areia, Tieta, Tereza
Batista Cansada de Guerra, Tocaia Grande e, mais recentemente, Dona
Flor e Seus Dois Maridos foram outros romances que ganharam formato
televisivo.
Ao contrário
do poeta João Cabral de Melo Neto, um ateu que nos últimos
dias de vida acabou retornando às rezas, Jorge Amado se manteve
firme em seu agnosticismo até o último instante. Segundo
a família, a doença e a proximidade da morte não
fizeram com que se convertesse à religião. Mas Amado era
um agnóstico de estilo particular. "Meu materialismo não
me limita", diz o personagem Pedro Arcanjo no livro Tenda dos Milagres,
ao explicar por que mesmo sem ser crente gostava do candomblé da
Bahia. Igual resposta poderia ter sido dada por Jorge Amado. Deve-se lembrar,
aliás, que ele detinha um título honorífico em um
dos terreiros de candomblé mais tradicionais de Salvador, o Ilê
Axé Opô Afonjá. Ele era Obá Otun Arolu (sendo
"obá" algo como "comendador" e "Otun Arolu", o nome africano escolhido
pelo homenageado).
Ao morrer,
Jorge Amado deixou dois romances começados: Boris, o Vermelho,
projeto que o acompanhava desde 1983, e A Apostasia Universal de Água
Brusca. Ele era contra as obras póstumas o que talvez
signifique que nenhum trecho desses livros, além dos que foram
publicados durante a vida do escritor, venha à luz. Isso nada subtrai
de seu considerável legado. Em sua longa carreira, Jorge Amado
colecionou amigos e admiradores de fama no mundo literário
desde os que já morreram, como Camus e Neruda, até os que
ainda estão na ativa, como Mario Vargas Llosa, Gabriel García
Márquez e José Saramago. Amado costumava fazer pouco de
sua importância. Numa entrevista de 1991, disse: "Quando eu morrer,
vou passar uns vinte anos esquecido". Ele estava errado. Jorge Amado não
vai ser esquecido.
Divulgação

DONA
FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
Filme de 1976 ainda é a maior bilheteria do cinema nacional
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Skylight 1995/ Luciana da Justa

TIETA
Cinema teve Marília e Sonia (foto), mas versão
da TV foi melhor |
Divulgação

TENDA
DOS MILAGRES
O diretor Nelson Pereira dos Santos era aficionado do escritor |

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