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Jorge Amado morreu no último dia 6, aos 88 anos, de problemas cardíacos. Foi o romancista brasileiro mais lido da história. Foi também um dos mais queridos e admirados. É difícil fazer-lhe justiça num obituário até mesmo porque obituários não combinam com um autor que prezava tanto a alegria. Seus últimos meses não foram fáceis. Amado tinha a saúde frágil desde 1993, quando sofreu um infarto. Havia se retirado de todas as atividades públicas e passava o dia em casa, protegido pelos familiares. Seu quadro médico era agravado pela cegueira parcial, que o deprimia e o fazia mergulhar em longos períodos de silêncio. Ele tinha nos olhos o mesmo problema que acometeu outro grande escritor brasileiro, o poeta João Cabral de Melo Neto, morto em 1999: degeneração da retina. Embora enxergasse vultos, não podia dedicar-se à leitura, uma de suas atividades preferidas. Sem ler, não escrevia. É certo, porém, que não gostaria de ser lembrado dessa triste forma. Basta pensar num de seus melhores livros, A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, que VEJA publica na íntegra nesta edição. Nele, o protagonista, que trocara uma existência pacata pela boemia, cai morto num dia qualquer. Planeja-se para ele um enterro "módico, mas respeitável". Até que seus companheiros de farra chegam para resgatá-lo. Eles o tiram do caixão e seguem com ele num cortejo carnavalesco pelas ruas de Salvador, entregando-o por fim ao mar seu túmulo escolhido, o único "digno de sua picardia". O livro dá a pista. Assim como Quincas Berro Dágua, Jorge Amado precisa mesmo é ser festejado.
Roberto Valverde![]() HISTÓRIA DE AMOR Jorge e Zélia, que aparecem aqui em sua famosa casa do Rio Vermelho, conheceram-se num congresso de escritores, em 1945, e nunca mais se separaram: formaram o casal mais famoso na história da literatura nacional |
Em 1939, quando a primeira tradução de Amado foi lançada na França, o romancista e pensador franco-argelino Albert Camus resenhou o livro. Ele se rendeu à força "prodigiosa" do autor. "Vejo nele um abandono à vida no que ela tem de excessivo e desmesurado", escreveu Camus. Passados todos esses anos, o diagnóstico permanece exato. O que importa em Jorge Amado é a vitalidade. Ele agarrou pelos chifres o touro da realidade brasileira. Revelou regiões inteiras do país por meio da literatura. Seus personagens escaparam dos livros e conquistaram para sempre um lugar no imaginário do leitor. Amado não fixou apenas tipos, como o coronelão espoliador e a mulata sestrosa, mas também figuras com nome e história, como Gabriela, Tieta ou o malandro Vadinho. Ele não era um estilista, no sentido de escrever bonito, e confessou que deixava o trabalho de linguagem em segundo plano, preocupando-se mais com os enredos. Espichava-se nos parágrafos, sobretudo na maturidade. "Para mim é mais fácil fazer coisa longa", dizia. "Tenho problemas para ser conciso." Desde o começo, seu projeto foi atingir o maior número possível de leitores. Conseguiu. Vinte milhões de exemplares de seus 32 livros foram vendidos no Brasil. Cinqüenta e cinco países traduziram suas obras. Esses números sem precedentes não deixaram de trazer problemas. Justamente por ser best-seller, ele era espicaçado por uma parte da crítica. Afirmavam, por exemplo, que a certa altura da carreira Amado deixara de lado o que havia de louvável no seu desejo de escrever para muitos e adotara uma estética de massas, que descaía no estereótipo, na pieguice e no mau gosto. Certa vez o definiram também como "romancista das putas e dos vagabundos". Em vez de acabrunhar-se, Amado aceitou a classificação e a repetia com orgulho, em tom de desafio. A despeito das oscilações da crítica, uma coisa é certa: Jorge Amado nunca fez uma literatura acanhada ou medrosa.
Ele nasceu em 10 de agosto de 1912, em Itabuna, cidade da região cacaueira no sul do Estado da Bahia. O pai, João Amado de Faria, viera de Sergipe para tentar a sorte. Um dia, em sua própria fazenda, João foi cercado por jagunços e levou um tiro. Ferido, correu para socorrer Jorge, que ainda não tinha 1 ano e presenciava tudo. Mais tarde, cenas desse calibre se tornariam comuns em romances como Terras do Sem Fim (1943) ou Tocaia Grande (1984). O susto levou a família a mudar-se para Ilhéus, onde Amado conheceu "o mar e a sedução das viagens, que me perturbou desde cedo". Aos 10 anos, ele foi mandado para um colégio de jesuítas em Salvador. Os padres bem que tentaram, mas não conseguiram domar o menino, que tinha uma veia rebelde. Da linhagem do poeta Gregório de Matos, outro baiano ilustre, que o influenciou, pode-se dizer que Jorge Amado era um "indignado". Em 1927, ele arranjou o primeiro emprego, como repórter policial do Diário da Bahia. Teve início uma vida social variada e apimentada, entre aspirantes a literato, pescadores e prostitutas. Com os amigos, Amado esperava a chegada do modernismo à Bahia. "Nós combatíamos violentamente os escritores não-modernistas, mesmo sem termos lido os modernos", comentou ele.
Em 1930, Jorge Amado mudou-se para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, começou para valer sua carreira literária. O amigo Otávio de Faria gostou dos originais de O País do Carnaval e os levou ao poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, um dos homens de letras mais influentes da época. Amado ia todos os dias cobrar a impressão do livro, "num exercício de humilhação necessário". Mais tarde, ele se lembraria da época: "Nunca fiquei sabendo se Schmidt leu o livro. Jamais disse nada". A primeira tiragem saiu pequena, com 1.000 exemplares. Mas o livro fez sucesso e logo ganhou uma segunda edição. Com seu romance seguinte, Cacau (1933), Amado se tornou best-seller para a época: os 2.000 exemplares da primeira tiragem se esgotaram em quarenta dias.
![]() ![]() Sipa Press
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![]() CONEXÃO INTERNACIONAL Amado fez amizades e recebeu homenagens em várias partes do mundo: no alto à esquerda, com o escritor chileno Pablo Neruda e com o político Luís Carlos Prestes; acima, em visita a Brasília com a escritora francesa Simone de Beauvoir, o arquiteto Oscar Niemeyer, o filósofo Jean-Paul Sartre e o irmão James Amado; na foto do meio, com o dirigente cubano Fidel Castro e, à esquerda, sendo condecorado pelo presidente francês François Mitterrand |
O ano de 1933 foi também o do primeiro casamento de Jorge Amado, com Matilde Garcia Rosa. Os dois tiveram uma filha em 1935, Eulália, que morreu aos 14 anos. Raramente as duas eram citadas por ele. Mesmo em seu livro de memórias, Navegação de Cabotagem, ele não dedica mais do que três menções a Matilde e nenhuma à filha. Em 1944, o casamento acabou. Amado recorda assim o período que se seguiu: "Solteiro, eu rosetava de leito em leito: mulheres em abundância, tantas, eu quase não dava abasto". As mulheres foram um grande tema na vida e na literatura do escritor. Um de seus amigos, o romancista Antonio Callado, chegou a brincar num texto, dizendo que "Jorge se dedicou com tanto afinco à literatura e com tanta generosidade à política para não passar a vida inteira entre braços e pernas de mulher". Neste ponto é preciso falar de Zélia Gattai. Ela e Jorge Amado se encontraram durante o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, realizado em São Paulo, em 1945. "Ao conhecer Zélia, arriei a bandeira e pedi paz", contava o escritor. Os dois logo deram início a uma das grandes histórias de amor da literatura brasileira, uma união que durou pelo resto da vida, sem contratempos. O casal teve dois filhos, João, 54 anos, e Paloma, 50, cujo padrinho foi o famoso poeta chileno Pablo Neruda e que ao longo dos últimos anos vem trabalhando na revisão das obras do pai.
Em 1965, Amado vendeu os direitos de filmagem do livro Gabriela, Cravo e Canela para Hollywood e, com o dinheiro, comprou uma casa no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Em seu jardim, ao pé de uma grande mangueira, ele pediu que fossem espalhadas depois da morte as cinzas de sua cremação. Essa casa, à qual a também escritora Zélia dedicou um livro de recordações em 1999, não foi apenas o centro da vida familiar. Foi também uma espécie de centro de cultura. Amado, que se dizia "um homem da convivialidade", gostava de receber amigos e deixava a porta aberta para desconhecidos. O romancista João Ubaldo Ribeiro foi, durante algum tempo, um freqüentador assíduo das reuniões que aconteciam ali. "Numa atmosfera que os mais rígidos considerariam insuportavelmente bagunçada, ruidosa e derramada, nós nos reuníamos aos domingos no varandão da casa de Jorge Amado", contou ele mais tarde. "Escritores, pintores, cineastas, atores, bailarinos, cantores, jornalistas e gente de outras áreas, de todas as idades, cores, nacionalidades e condições sociais, se misturavam e interagiam, catalisados, instigados e incentivados por ele." O problema é que com todo esse movimento a casa se transformou em atração turística, com ônibus de excursão parados na porta. Resultado: para escrever, Amado muitas vezes precisou encontrar esconderijos. Tenda dos Milagres foi redigido num sítio na Bahia, Tieta do Agreste em Londres, Tocaia Grande em Petrópolis. Mas o refúgio preferido era Paris, onde ele tinha um belo apartamento, no bairro do Marais. Navegação de Cabotagem foi quase todo escrito lá.
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ENTRE
PARES O escritor posa ao lado do romancista colombiano Gabriel García Márquez, um de seus muitos amigos e admiradores no exterior. Ao lado, com o cineasta Glauber Rocha |
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Um dos motivos da predileção era o fato de o romance com Zélia Gattai ter dado os primeiros passos na capital francesa. Em 1948, os dois se mudaram para um hotelzinho no bairro do Quartier Latin. Eram fregueses de um restaurante chinês das proximidades e passeavam por sebos e livrarias. O toque de glamour advinha dos encontros com celebridades, como o filósofo Jean-Paul Sartre e o pintor Pablo Picasso. Mas Amado certamente não estava interessado em glamour. Sua tarefa na Europa era representar o Partido Comunista Brasileiro e freqüentemente, quando se encontrava com personagens como aqueles, era para pedir seu apoio a alguma causa. O engajamento político preencheu um capítulo central na vida do autor.
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