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Cuidado, isso vicia
Pesquisa
comprova que exercícios
físicos podem tornar-se uma compulsão

Neide Oliveira
Ricardo Benichio
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| A
ginástica leva à euforia: em excesso, cria problemas
físicos e sociais |
Quem precisava
de uma desculpa definitiva para fugir da malhação pode continuar
sentadão no sofá. Uma pesquisa da Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp) demonstra que, a exemplo do que ocorre com
as drogas psicotrópicas, como álcool e cocaína, algumas
pessoas podem tornar-se dependentes de exercícios físicos.
Ao se doparem, os viciados em drogas geralmente experimentam bem-estar,
porque elas estimulam a liberação no sistema nervoso da
dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação
de prazer. A privação da substância, depois, produz
sintomas que levam a pessoa a reiniciar o processo, num ciclo de dependência.
Os exercícios físicos podem resultar em algo semelhante.
Sua prática acarreta a liberação de endorfina, outro
neurotransmissor, com propriedades analgésicas e entorpecentes.
"É como se os exercícios físicos estimulassem a liberação
de drogas fabricadas no próprio organismo", explica o coordenador
do estudo, o professor de educação física Daniel
Alves Rosa, do departamento de psicobiologia da Unifesp. "Às vezes,
a ginástica funciona como uma válvula de escape para a ansiedade,
e nesses casos o prazer obtido pode gerar dependência", explica
a professora Maria Lúcia Formigoni, coordenadora da unidade de
dependência de drogas da Unifesp e orientadora da pesquisa.
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Das
pessoas que praticam exercícios físicos com freqüência e regularidade,
50%
podem desenvolver algum tipo de dependência, conclui a pesquisa
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Na década
de 80, estudiosos americanos demonstraram que, após as corridas,
alguns maratonistas sentiam euforia intensa, que os induzia a correr com
mais intensidade e freqüência. O fenômeno foi batizado
de runner's high. Em bom português, o barato da corrida.
No estudo brasileiro, os pesquisadores submeteram 66 voluntários
a testes de esforço físico máximo, com monitoria
de equipamentos, e a várias análises bioquímicas.
Eles responderam também a questionários que procuravam detectar
seu estado mental antes e depois dos exercícios. Ao final das baterias,
a metade dos que revelaram ter o hábito de praticar exercícios
apresentou sintomas de compulsão. O economista paulista Élcio
Sígolo, de 44 anos, foi uma das pessoas classificadas na pesquisa
como "dependente". Além de correr vários quilômetros
durante seis dias por semana, ele ainda freqüenta a academia para
fazer musculação. "A sensação que tenho após
os exercícios é uma coisa indescritível", conta Élcio.
Em princípio,
isso seria o que se pode considerar um vício positivo, já
que o organismo se torna cada vez mais forte e saudável com a prática
de exercícios. Mas existem dois problemas. Primeiro, a síndrome
de abstinência, que atinge pessoas como Élcio. "Quando não
tenho tempo de correr, fico irritado e ansioso", ele relata. Depois, há
as complicações físicas ou no relacionamento social
decorrentes da obsessão pela academia. Atletas compulsivos chegam
a praticar exercícios mais de uma vez ao dia, mesmo sob condições
adversas, como chuva, frio ou calor intensos. E se exercitam até
quando lesionados. A dentista mineira Fernanda Campos, de 28 anos, tem
três empregos e mesmo assim não falta às sessões
de malhação. Às vezes, levanta-se às 5 horas
da manhã para fazer exercícios e passa o dia arrastando
uma bolsa com 7 quilos de apetrechos. "Se sobra um tempinho, vou malhar",
ela conta. "Já atendi meu namorado ao celular no banheiro da academia
para que ele não percebesse onde eu estava."

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