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Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
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Cuidado, isso vicia

Pesquisa comprova que exercícios
físicos podem tornar-se uma compulsão

Neide Oliveira

Ricardo Benichio
A ginástica leva à euforia: em excesso, cria problemas físicos e sociais

Quem precisava de uma desculpa definitiva para fugir da malhação pode continuar sentadão no sofá. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) demonstra que, a exemplo do que ocorre com as drogas psicotrópicas, como álcool e cocaína, algumas pessoas podem tornar-se dependentes de exercícios físicos. Ao se doparem, os viciados em drogas geralmente experimentam bem-estar, porque elas estimulam a liberação no sistema nervoso da dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. A privação da substância, depois, produz sintomas que levam a pessoa a reiniciar o processo, num ciclo de dependência. Os exercícios físicos podem resultar em algo semelhante. Sua prática acarreta a liberação de endorfina, outro neurotransmissor, com propriedades analgésicas e entorpecentes. "É como se os exercícios físicos estimulassem a liberação de drogas fabricadas no próprio organismo", explica o coordenador do estudo, o professor de educação física Daniel Alves Rosa, do departamento de psicobiologia da Unifesp. "Às vezes, a ginástica funciona como uma válvula de escape para a ansiedade, e nesses casos o prazer obtido pode gerar dependência", explica a professora Maria Lúcia Formigoni, coordenadora da unidade de dependência de drogas da Unifesp e orientadora da pesquisa.


Das pessoas que praticam exercícios físicos com freqüência e regularidade,
50%
podem desenvolver algum tipo de dependência, conclui a pesquisa

Na década de 80, estudiosos americanos demonstraram que, após as corridas, alguns maratonistas sentiam euforia intensa, que os induzia a correr com mais intensidade e freqüência. O fenômeno foi batizado de runner's high. Em bom português, o barato da corrida. No estudo brasileiro, os pesquisadores submeteram 66 voluntários a testes de esforço físico máximo, com monitoria de equipamentos, e a várias análises bioquímicas. Eles responderam também a questionários que procuravam detectar seu estado mental antes e depois dos exercícios. Ao final das baterias, a metade dos que revelaram ter o hábito de praticar exercícios apresentou sintomas de compulsão. O economista paulista Élcio Sígolo, de 44 anos, foi uma das pessoas classificadas na pesquisa como "dependente". Além de correr vários quilômetros durante seis dias por semana, ele ainda freqüenta a academia para fazer musculação. "A sensação que tenho após os exercícios é uma coisa indescritível", conta Élcio.

Em princípio, isso seria o que se pode considerar um vício positivo, já que o organismo se torna cada vez mais forte e saudável com a prática de exercícios. Mas existem dois problemas. Primeiro, a síndrome de abstinência, que atinge pessoas como Élcio. "Quando não tenho tempo de correr, fico irritado e ansioso", ele relata. Depois, há as complicações físicas ou no relacionamento social decorrentes da obsessão pela academia. Atletas compulsivos chegam a praticar exercícios mais de uma vez ao dia, mesmo sob condições adversas, como chuva, frio ou calor intensos. E se exercitam até quando lesionados. A dentista mineira Fernanda Campos, de 28 anos, tem três empregos e mesmo assim não falta às sessões de malhação. Às vezes, levanta-se às 5 horas da manhã para fazer exercícios e passa o dia arrastando uma bolsa com 7 quilos de apetrechos. "Se sobra um tempinho, vou malhar", ela conta. "Já atendi meu namorado ao celular no banheiro da academia para que ele não percebesse onde eu estava."

 
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  Entrevista com um dos autores da pesquisa, o professor Daniel Alves Rosa

 

   
 
   
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