
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Jogo da morte
Ataque
cardíaco em ídolo do futebol
americano e outras três tragédias
recentes emcampo geram um
debate sobre doping

Sérgio
Ruiz Luz
AP/Victoria Arocho
 |
| A
batalha campal: clavículas quebradas e substâncias proibidas |
Às
vésperas do início de mais uma temporada de seu milionário
e truculento show esportivo, a liga profissional de futebol americano
vive um clima de velório. Nos últimos meses, nada menos
que quatro jogadores morreram durante partidas amistosas ou sessões
de treinamentos. O caso mais recente e que provocou maior comoção
foi o do atacante Korey Stringer, 27 anos. Gigante de 150 quilos espalhados
em 1,90 metro, Stringer era um dos jogadores mais populares do Minnesota
Vikings. Logo no primeiro dia de exercícios preparativos para o
início da temporada, ele já havia dado sinais de que não
estava bem. Exausto, retirou-se de campo antes de seus companheiros de
equipe. Num esporte em que qualquer tipo de fraqueza é interpretado
como falta gravíssima, o atleta, mesmo à beira de um colapso
físico, acabou voltando às atividades no dia seguinte. Seu
corpo não agüentou o esforço. Após vomitar três
vezes no gramado, Stringer foi levado às pressas a um hospital
das redondezas, com mais de 40 graus de febre. Quinze horas depois estava
morto, vítima de ataque cardíaco. Ocorrido há duas
semanas, o caso motivou um intenso debate na liga. Técnicos, dirigentes,
jogadores e jornalistas especializados discutem sobre a conveniência
de expor os jogadores a duríssimos treinamentos físicos
realizados debaixo de um sol de rachar. Essa é apenas a primeira
parte da reflexão provocada pelas mortes recentes. A outra questão
que surge quando se observam os músculos inacreditáveis
dos atletas é óbvia, mas nem sempre comentada abertamente:
doping.
Mesmo num
esporte que sempre foi caracterizado pelo porte avantajado de seus praticantes,
a situação atual impressiona. Nunca os atletas de futebol
americano foram tão fortes quanto nos dias de hoje. Isso foi demonstrado
num estudo recente realizado por Bob Goldman, membro da Academia Nacional
de Medicina Esportiva dos Estados Unidos e autor do livro Morte no
Vestiário. Segundo o especialista, há dez anos existiam
na liga profissional apenas 38 jogadores com peso superior a 130 quilos.
Hoje, o total é de 280. Ou seja, os mastodontes-humanos deixaram
de ser exceção e estão se tornando regra do jogo.
"Um sistema cardíaco preparado para suportar um ser humano com
100 quilos é submetido a uma alta dose de stress quando tem de
carregar uma massa muito maior", afirma Goldman. Outro fator que chama
a atenção é que esses gigantes conseguem conciliar
uma força descomunal com uma agilidade impressionante para alguém
desse tamanho. Segundo os especialistas no assunto, não existem
milagres da natureza. Pouco antes de morrer, em 1992, vítima de
câncer cerebral, o astro do Denver Broncos, Lyle Martin, abriu o
jogo sobre essa questão. "Nós não nascemos com 130
quilos ou capazes de dar saltos de 10 metros de distância", afirmou
ele. "Comecei a tomar esteróides anabolizantes em 1969 e nunca
mais parei. Eles me faziam jogar melhor. Cerca de 90% dos atletas estão
nessa."
Os chamados
esteróides anabolizantes representam o tipo de doping mais comum
do esporte moderno. Essas substâncias são hormônios
masculinos sintetizados em laboratório. Quando injetam a droga
no corpo em tratamentos prolongados combinados a cargas de exercícios
físicos, os atletas conseguem doses extras de força e explosão
física. Em troca da glória esportiva, eles se expõem
a uma série de efeitos colaterais, como problemas cardiovasculares,
por exemplo. Não há ainda uma prova conclusiva de que as
mortes recentes do futebol americano tenham sido provocadas por uso de
drogas. Vários episódios, porém, deixam claro que
o doping é muito comum dentro desse esporte. Ídolo dos anos
80, o jogador Steve Courson chegou a ser considerado um dos homens mais
fortes do mundo. Em 1991, já aposentado e com graves problemas
de saúde, escreveu sua autobiografia, Falsa Glória: Endurecidos
e Anabolizados A História de Steve Courson. Um dos casos
recentes mais rumorosos de doping no futebol americano é o que
envolve o jogador Bill Romanowski, do Denver Broncos. Ele é acusado
de usar a mulher e os amigos para obter drogas controladas para emagrecimento.
Segundo consta nos autos do processo, o jogador tomou uma dose cinco vezes
superior às receitadas em dietas. Nessa quantidade, a droga tem
efeito estimulante, que elimina a fadiga do corpo. Se for comprovada a
irregularidade, Romanowski pode ser condenado a pena de até nove
anos de prisão.
AP/Tom Olmscheid
 |
KOREY
STRINGER
Idade: 27 anos
Peso: 150 quilos
Altura: 1,90 metro
Time: Minnesota Vikings
Posição: atacante
Causa da morte: ataque do coração |
Inspirado nas guerras por território, o futebol americano surgiu
no fim do século XIX. O time que ataca tem como objetivo levar
a bola até o outro lado do campo. Para isso, precisa conquistar
território ou seja, massacrar a defesa adversária,
que fica postada à sua frente para impedir o avanço. Com
exceção de golpes abaixo da cintura, vale tudo. A cada temporada,
uma média de dez atletas sofrem fraturas graves na coluna cervical,
que deixam como seqüela algum tipo de paralisia. Raramente, um jogador
consegue manter-se no auge por mais de três anos. Combinado às
características do jogo, considerado um dos mais violentos do mundo,
o uso prolongado de drogas tem efeito devastador sobre a saúde
dos praticantes. A expectativa de vida desses brucutus é inferior
a 60 anos, muito abaixo da média dos americanos comuns.
O futebol
é um espetáculo com números sempre na casa dos milhões
milhões de telespectadores, milhões de dólares
em direitos de transmissão e milhões em salários
pagos às grandes estrelas do circo da violência. Diante disso,
a sedução do doping é enorme, principalmente quando
os dirigentes fazem vistas grossas para o problema. A Liga Nacional de
Futebol Americano proíbe o uso dessas substâncias e faz um
controle regular para coibir e punir o doping. Mas, na maior parte das
vezes, há muito mais retórica que resultados concretos nessa
política. Tome-se como exemplo as penas aplicadas a quem foi pego
em flagrante turbinando os músculos. Na primeira vez, o jogador
toma um gancho de apenas quatro jogos. Em caso de reincidência,
a punição aumenta para seis partidas. Só depois do
terceiro teste positivo é que o atleta fica afastado dos campos
por um ano.
Para quem
acha os dirigentes do futebol americano pouco rigorosos, basta olhar para
a turma do beisebol. Lá, a lei em vigor é a do "liberou
geral". Um dos ídolos do esporte, o rebatedor Mark David McGwire,
é usuário declarado da droga androstenedione, cujos efeitos
são similares aos dos esteróides anabolizantes. Como esses
astros são heróis da garotada, a coisa se torna muito preocupante
e começa a extrapolar o campo esportivo. Depois da onda de jogadores
turbinados, quintuplicou nos Estados Unidos o consumo de androstenedione,
a bola mágica de McGwire e tantos outros. Por causa disso, o combate
ao doping vem se convertendo em tema da pauta de compromissos assumidos
pelo governo.
AP/Lafayette Daily Advertiser
 |
ERASTE
AUTIN
Idade: 18 anos
Peso: 110 quilos
Altura: 1,85 metro
Time: Universidade da Flórida
Posição: defensor
Causa da morte: ataque do coração |
Há
tempos o esporte vem perdendo a guerra contra as drogas. Até alguns
anos atrás, pensava-se que o consumo generalizado ficava restrito
a algumas categorias, como o fisiculturismo. Campeão da década
de 90, o alemão Andreas Münzer, um gigante de 106 quilos,
tornou-se uma espécie de símbolo dessa era quando tombou
vítima do uso prolongado de um coquetel de drogas para turbinar
a massa física. Aos poucos, evidências e mais evidências
foram mostrando que o doping se espalhou por todas as modalidades. Não
há competição ciclística realizada hoje em
dia que passe sem um escândalo de consumo de substâncias químicas
proibidas. A natação nunca mais foi vista da mesma maneira
depois que começaram a vir a público os casos de atletas
fabricados nos porões da extinta Alemanha Oriental.
Mais recentemente,
as técnicas de doping saíram dos laboratórios das
nações mais desenvolvidas e começaram a se disseminar
entre os atletas de países do Terceiro Mundo. Na semana passada,
a meio-fundista brasileira Fabiane dos Santos foi suspensa por uso de
substâncias proibidas (veja quadro abaixo). Mesmo com as
autoridades esportivas prometendo testes mais precisos e rigorosos, as
Olimpíadas passaram a ser realizadas sob uma nuvem de desconfiança.
Cada recorde batido levanta uma nova suspeita. Pouco antes dos Jogos de
Sydney, no ano passado, os membros do Comitê Olímpico Internacional
prometeram uma competição com "tolerância zero" em
relação ao uso de drogas. Foram punidos aproximadamente
vinte atletas. A conta parece alta. Só que não havia meios
eficientes de detectar algumas das drogas mais modernas, como a EPO, substância
que aumenta o número de glóbulos vermelhos dos esportistas
e, por conseqüência, sua resistência física.
Diante desse fato, dizem os especialistas, muitos campeões-químicos
podem ter levado sua medalha para casa sem ser importunados.
|
Brasileiros
turbinados
AE/Otavio Magalhães
|
| A
meio-fundista Fabiane: reincidente no doping |
A meio-fundista Fabiane dos Santos era uma das maiores esperanças
de medalha do Brasil na mais recente edição do Mundial
de Atletismo, no Canadá. Especialista nos 800 metros rasos,
ela tinha feito o segundo melhor tempo do ano nessa prova. Na semana
passada, a confirmação de um teste positivo de doping
realizado em Fabiane deixou a forte suspeita de que essa formidável
performance pode ter sido fruto do uso de substâncias químicas.
Depois do anúncio do resultado de seu exame, ela foi impedida
de participar do Mundial de Atletismo. A atleta é o terceiro
caso de doping registrado entre atletas brasileiros nos últimos
dois anos. Em 1999, a arremessadora de peso Elisângela Adriano
caiu na malha fina, também acusada de consumo de esteróides.
No
ano passado, quase às vésperas das Olimpíadas
de Sydney, o corredor Sanderlei Parrela passou pelo mesmo problema.
Elisângela e Sanderlei defenderam-se no tribunal da Federação
Internacional de Atletismo e acabaram absolvidos. Em vez de livrá-los
para sempre das suspeitas, tais decisões só aumentaram
a confusão. Elas ocorreram no vácuo de uma série
de outras absolvições envolvendo estrelas internacionais
do atletismo, em que não ficaram claros os critérios
técnicos de revisão de cada uma das penas. Isso deixou
no ar um cheiro forte de conchavo político para não
barrar o caminho de estrelas como o cubano Javier Sotomayor rumo
à disputa dos Jogos de Sydney. Apesar dos antecedentes, é
quase certo que a meio-fundista Fabiane seja banida para sempre
do esporte. Ela é reincidente. Em 1995, já havia sido
punida por uso de esteróides anabolizantes.
|
|
|
 |
|
 |

|
 |