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Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
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A década da euforia

Estudo realizado pelo Censo
americano mostra pela primeira
vez um retrato dos
anos de
maior progresso do país

Cristiana Baptista

O primeiro retrato completo do período de crescimento mais longo da história do capitalismo foi divulgado na semana passada pelo escritório do Censo americano. O estudo tem como base uma pesquisa, concluída no ano passado, que entrevistou moradores de 700.000 residências americanas. Os números ajudam a responder com segurança a uma questão que sempre intrigou os estudiosos: quando a maré da economia capitalista sobe, ela eleva o padrão de vida de todos ou apenas dos ricos? O levantamento do Censo americano mostra que os ricos aumentaram em número e em fatia da renda nacional, mas os pobres e a classe média igualmente avançaram muito. Ou seja, tanto os barquinhos quanto os transatlânticos melhoraram seu padrão em relação ao início dos anos 90.

As estatísticas revelam o salto de qualidade que se verificou na vida dos americanos. Em 1990, 75% da população com 25 anos ou mais tinha diploma do 2º grau e apenas um em cada cinco havia completado um curso universitário. Em 2000, o índice de adultos com ensino médio completo saltou para 82%, e a proporção dos bacharéis passou a ser de um para quatro. O número de domicílios sem computador diminuiu 30% e mais gente comprou casa própria do que em qualquer outro período da história americana. Retratos feitos com números nunca são muito fáceis de apreciar, mas no meio de uma série infindável de tabelas é possível descobrir algumas cenas de inestimável valor sociológico. Na década da prosperidade que parecia não mais acabar, os Estados Unidos passaram a ser mais que nunca um país de imigrantes. Nos anos 90, mais de 13 milhões deles, na maioria hispânicos pobres, entraram oficialmente no país – cerca de 50% mais que na década anterior. Os estrangeiros já são 11% da população. É a maior porcentagem desde os anos 30, período entre guerras. O dínamo da economia americana funcionou como um ímã, atraindo pobres de todas as partes do mundo, especialmente do vizinho México, da Rússia e das demais repúblicas antes submetidas ao poder soviético. Essa avalanche de gente de fora se refletiu no censo. Os números mostram que em uma de cada cinco casas americanas se fala outro idioma além do inglês.

Foi uma década sem precedentes, em que os Estados Unidos cresceram um Brasil a cada dois anos. Com o dólar forte e a economia idem, os americanos foram os grandes compradores do planeta. Com sua fúria consumista, os Estados Unidos mantiveram a economia mundial aquecida de tal forma que nem crises financeiras poderosas conseguiram tirar o progresso dos trilhos. O país comprou a torto e a direito tudo que vinha de fora e vendeu, comparativamente, muito pouco. Manteve uma balança comercial que apresenta atualmente um déficit anual de cerca de 400 bilhões de dólares. Um rombo desse tamanho seria suficiente para afundar até mesmo a economia americana. Curiosamente, esse déficit não fez nem cócegas no país. A explicação para a sobrevivência está na raiz da globalização. Enquanto as empresas estabelecidas nos Estados Unidos exportam cerca de 900 bilhões de dólares, as vendas de suas filiais em outros países superam os 2,4 trilhões. Na soma final o déficit pode estar escondendo superávit. Outro contraponto que desafia as regras tradicionais da economia. Um país que cresce é um país em que os habitantes poupam. No decorrer dos anos 90, os americanos pouparam cada vez menos, trocaram os fundos de renda fixa por carteiras de ações de empresas negociadas nas bolsas de valores. Mas, como disse o presidente do banco central americano, Alan Greenspan, em discurso recente, um dos maiores enganos dos economistas que enxergam no déficit uma fraqueza é não considerar os investimentos em ações como poupança, e sim como gastos. Greenspan sustenta que os impostos sobre transações financeiras pagos pelas dezenas de milhões de americanos constituem uma poupança nacional que não aparece nas estatísticas tradicionais. O próprio censo divulgado na semana passada é um sintoma de que a sociedade americana assumiu uma dinâmica que não pode ser totalmente compreendida pelos meios tradicionais de medição. Exatamente por essa razão o governo decidiu repetir a pesquisa das 700.000 residências todos os anos.

   
 

 

 

   
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