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A década
da euforia
Estudo
realizado pelo Censo
americano mostra pela primeira
vez um retrato dos anos
de
maior progresso do país
Cristiana
Baptista
O primeiro retrato completo do período de crescimento mais longo
da história do capitalismo foi divulgado na semana passada pelo
escritório do Censo americano. O estudo tem como base uma pesquisa,
concluída no ano passado, que entrevistou moradores de 700.000
residências americanas. Os números ajudam a responder com
segurança a uma questão que sempre intrigou os estudiosos:
quando a maré da economia capitalista sobe, ela eleva o padrão
de vida de todos ou apenas dos ricos? O levantamento do Censo americano
mostra que os ricos aumentaram em número e em fatia da renda nacional,
mas os pobres e a classe média igualmente avançaram muito.
Ou seja, tanto os barquinhos quanto os transatlânticos melhoraram
seu padrão em relação ao início dos anos 90.
As estatísticas revelam o salto de qualidade que se verificou na
vida dos americanos. Em 1990, 75% da população com 25 anos
ou mais tinha diploma do 2º grau e apenas um em cada cinco havia
completado um curso universitário. Em 2000, o índice de
adultos com ensino médio completo saltou para 82%, e a proporção
dos bacharéis passou a ser de um para quatro. O número de
domicílios sem computador diminuiu 30% e mais gente comprou casa
própria do que em qualquer outro período da história
americana. Retratos feitos com números nunca são muito fáceis
de apreciar, mas no meio de uma série infindável de tabelas
é possível descobrir algumas cenas de inestimável
valor sociológico. Na década da prosperidade que parecia
não mais acabar, os Estados Unidos passaram a ser mais que nunca
um país de imigrantes. Nos anos 90, mais de 13 milhões deles,
na maioria hispânicos pobres, entraram oficialmente no país
cerca de 50% mais que na década anterior. Os estrangeiros já
são 11% da população. É a maior porcentagem
desde os anos 30, período entre guerras. O dínamo da economia
americana funcionou como um ímã, atraindo pobres de todas
as partes do mundo, especialmente do vizinho México, da Rússia
e das demais repúblicas antes submetidas ao poder soviético.
Essa avalanche de gente de fora se refletiu no censo. Os números
mostram que em uma de cada cinco casas americanas se fala outro idioma
além do inglês.
Foi uma década sem precedentes, em que os Estados Unidos cresceram
um Brasil a cada dois anos. Com o dólar forte e a economia idem,
os americanos foram os grandes compradores do planeta. Com sua fúria
consumista, os Estados Unidos mantiveram a economia mundial aquecida de
tal forma que nem crises financeiras poderosas conseguiram tirar o progresso
dos trilhos. O país comprou a torto e a direito tudo que vinha
de fora e vendeu, comparativamente, muito pouco. Manteve uma balança
comercial que apresenta atualmente um déficit anual de cerca de
400 bilhões de dólares. Um rombo desse tamanho seria suficiente
para afundar até mesmo a economia americana. Curiosamente, esse
déficit não fez nem cócegas no país. A explicação
para a sobrevivência está na raiz da globalização.
Enquanto as empresas estabelecidas nos Estados Unidos exportam cerca de
900 bilhões de dólares, as vendas de suas filiais em outros
países superam os 2,4 trilhões. Na soma final o déficit
pode estar escondendo superávit. Outro contraponto que desafia
as regras tradicionais da economia. Um país que cresce é
um país em que os habitantes poupam. No decorrer dos anos 90, os
americanos pouparam cada vez menos, trocaram os fundos de renda fixa por
carteiras de ações de empresas negociadas nas bolsas de
valores. Mas, como disse o presidente do banco central americano, Alan
Greenspan, em discurso recente, um dos maiores enganos dos economistas
que enxergam no déficit uma fraqueza é não considerar
os investimentos em ações como poupança, e sim como
gastos. Greenspan sustenta que os impostos sobre transações
financeiras pagos pelas dezenas de milhões de americanos constituem
uma poupança nacional que não aparece nas estatísticas
tradicionais. O próprio censo divulgado na semana passada é
um sintoma de que a sociedade americana assumiu uma dinâmica que
não pode ser totalmente compreendida pelos meios tradicionais de
medição. Exatamente por essa razão o governo decidiu
repetir a pesquisa das 700.000 residências todos os anos.
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