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As vítimas
do Muro
Documentos
da Stasi revelam
que centenas morreram tentando
fugir da Alemanha Oriental
O Muro de
Berlim foi o símbolo da divisão do mundo em duas superpotências
antagônicas e sua queda, em 1989, marcou a derrocada do comunismo
soviético. Para os berlinenses, a barreira e seus guardas armados
significaram muito mais: era o sombrio lembrete de que viviam num campo
de batalha. Na semana passada, com a divulgação de um balanço
de tentativas de fuga do lado comunista, pôde-se dimensionar em
números o que significou viver na linha de fogo durante 28 anos.
Os dados, compilados pelos historiadores Bernd Eisenfeld e Roger Engelmann,
do instituto que guarda os arquivos da extinta polícia secreta
da Alemanha comunista, a famigerada Stasi, revelam que mais de 75.000
alemães foram presos e 809 mortos tentando escapar entre 1961 e
1989. Destes, 250 foram baleados junto ao Muro de Berlim, 370 ao longo
do que então era a fronteira entre as duas Alemanhas e 189 na região
do Mar Báltico.
Que vários
guardas da Alemanha Oriental sonhavam em colocar os pés do outro
lado da fronteira já se sabia. Divulgado na semana passada para
marcar os quarenta anos do início da construção do
Muro, o relatório revelou que o fenômeno teve extensão
maior do que se pensava. Dois mil e quinhentos guardas conseguiram escapar
para o lado ocidental e 5.500 foram pegos e
sofreram castigo exemplar. Ficaram presos, em média, por cinco
anos. Já as penas para os civis capturados foram mais brandas:
de um a dois anos atrás das grades. A construção
do Muro foi um sinal da precariedade da Alemanha criada pelos comunistas.
Com medo de que seus cidadãos cruzassem em massa para a Alemanha
capitalista, os chefões do PC mandaram erguer a barreira da noite
para o dia. No ano da construção do Muro, a Stasi precisou
mobilizar todos os recursos que possuía, inclusive os 50.000
funcionários, para evitar uma debandada geral.
O grau de
paranóia era típico dos regimes policialescos. As pessoas
comuns eram incentivadas a espionar amigos, parentes, colegas de trabalho
e vizinhos. Quem morava perto do Muro e, por qualquer motivo, despertasse
a suspeita de que planejava fugir era removido para bem longe. Mesmo assim,
muita gente conseguiu escapulir saltando por uma janela que se abria para
o lado ocidental, até que os comunistas fechassem essas rotas de
escape. Outros usaram túneis sob o Muro ou se esconderam no porta-malas
de carros. Quando o Muro veio abaixo, numa explosão espontânea
dos berlinenses, derrubou junto um império autoritário e
pobre, que se espalhava da Europa Central ao Extremo Oriente.
O Muro continua
a marcar a paisagem psicológica dos alemães. Passados quase
doze anos, os alemães do Leste ainda se sentem cidadãos
de segunda classe na Alemanha unificada. A renda per capita nos seis Estados
orientais é metade da ocidental. Mas a melhoria em relação
ao passado comunista é incomparável. As fábricas
obsoletas desapareceram (a Alemanha Oriental era um dos países
com maior índice de poluição da Europa) e são
raros os monótonos Trabant, os carrinhos de teto de papelão
que eram usados pelos alemães-orientais. Desde a reunificação,
em 1990, a Alemanha injetou 800 bilhões de dólares na recuperação
da infra-estrutura e da economia dos Estados do Leste. Graças aos
investimentos, a rede de telecomunicações do lado oriental
é uma das mais modernas da Europa. A divulgação dos
números da Stasi ajuda a entender por que tantas feridas ainda
estão abertas.
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