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Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
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As vítimas do Muro

Documentos da Stasi revelam
que centenas morreram tentando
fugir da Alemanha Oriental

O Muro de Berlim foi o símbolo da divisão do mundo em duas superpotências antagônicas – e sua queda, em 1989, marcou a derrocada do comunismo soviético. Para os berlinenses, a barreira e seus guardas armados significaram muito mais: era o sombrio lembrete de que viviam num campo de batalha. Na semana passada, com a divulgação de um balanço de tentativas de fuga do lado comunista, pôde-se dimensionar em números o que significou viver na linha de fogo durante 28 anos. Os dados, compilados pelos historiadores Bernd Eisenfeld e Roger Engelmann, do instituto que guarda os arquivos da extinta polícia secreta da Alemanha comunista, a famigerada Stasi, revelam que mais de 75.000 alemães foram presos e 809 mortos tentando escapar entre 1961 e 1989. Destes, 250 foram baleados junto ao Muro de Berlim, 370 ao longo do que então era a fronteira entre as duas Alemanhas e 189 na região do Mar Báltico.

Que vários guardas da Alemanha Oriental sonhavam em colocar os pés do outro lado da fronteira já se sabia. Divulgado na semana passada para marcar os quarenta anos do início da construção do Muro, o relatório revelou que o fenômeno teve extensão maior do que se pensava. Dois mil e quinhentos guardas conseguiram escapar para o lado ocidental e 5.500 foram pegos e sofreram castigo exemplar. Ficaram presos, em média, por cinco anos. Já as penas para os civis capturados foram mais brandas: de um a dois anos atrás das grades. A construção do Muro foi um sinal da precariedade da Alemanha criada pelos comunistas. Com medo de que seus cidadãos cruzassem em massa para a Alemanha capitalista, os chefões do PC mandaram erguer a barreira da noite para o dia. No ano da construção do Muro, a Stasi precisou mobilizar todos os recursos que possuía, inclusive os 50.000 funcionários, para evitar uma debandada geral.

O grau de paranóia era típico dos regimes policialescos. As pessoas comuns eram incentivadas a espionar amigos, parentes, colegas de trabalho e vizinhos. Quem morava perto do Muro e, por qualquer motivo, despertasse a suspeita de que planejava fugir era removido para bem longe. Mesmo assim, muita gente conseguiu escapulir saltando por uma janela que se abria para o lado ocidental, até que os comunistas fechassem essas rotas de escape. Outros usaram túneis sob o Muro ou se esconderam no porta-malas de carros. Quando o Muro veio abaixo, numa explosão espontânea dos berlinenses, derrubou junto um império autoritário e pobre, que se espalhava da Europa Central ao Extremo Oriente.

O Muro continua a marcar a paisagem psicológica dos alemães. Passados quase doze anos, os alemães do Leste ainda se sentem cidadãos de segunda classe na Alemanha unificada. A renda per capita nos seis Estados orientais é metade da ocidental. Mas a melhoria em relação ao passado comunista é incomparável. As fábricas obsoletas desapareceram (a Alemanha Oriental era um dos países com maior índice de poluição da Europa) e são raros os monótonos Trabant, os carrinhos de teto de papelão que eram usados pelos alemães-orientais. Desde a reunificação, em 1990, a Alemanha injetou 800 bilhões de dólares na recuperação da infra-estrutura e da economia dos Estados do Leste. Graças aos investimentos, a rede de telecomunicações do lado oriental é uma das mais modernas da Europa. A divulgação dos números da Stasi ajuda a entender por que tantas feridas ainda estão abertas.

 
 
   
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