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Fim
da lua-de-mel
Resposta dura do Vaticano
em debate sobre a II
Guerra
ameaça diálogo judaico-católico
O delicado relacionamento com os judeus que a Igreja Católica vem
tecendo no pontificado de João Paulo II sofreu uma sacudidela na
semana passada. Num pronunciamento de tom duríssimo, a Santa Sé
acusou o Congresso Judaico Mundial de tentar atingi-la com uma "campanha
difamatória". Era a resposta à organização
judaica, que no mês passado havia acusado o Vaticano de impedir
o acesso a documentos sobre a atuação da Igreja durante
a II Guerra. A omissão diante do genocídio dos judeus é
um assunto espinhoso para o alto clero católico. A ponto de ter
demorado meio século para o papa João Paulo II proferir
uma espécie de mea-culpa, em 1998. Ainda assim, tratou-se de um
arrependimento genérico pelas falhas dos católicos diante
das atrocidades do período bem longe do pedido de desculpa ou
da condenação do papa Pio XII que muitos judeus gostariam
de ouvir.
A Igreja Católica não se sente responsável pelas
atrocidades nazistas e ignora as acusações de que Pio XII
não teria tentado impedir o genocídio. Alertado várias
vezes sobre o andamento da "solução final" o projeto
nazista de exterminar a população judaica da Europa ,
o papa tocou no assunto publicamente uma única vez, e de passagem,
na mensagem de Natal de 1942. Nem quando os nazistas ocuparam Roma, no
ano seguinte, e começaram a deportar os judeus romanos para os
campos de concentração, ele esboçou reação
mais contundente. João Paulo II, que viveu sob a ocupação
da Polônia e testemunhou atrocidades nazistas, tem patrocinado um
verdadeiro exame de consciência da Igreja e se esforçado
pela conciliação entre católicos e judeus. Com seu
aval, foi criada dois anos atrás uma comissão independente,
composta de três pesquisadores judeus e três católicos,
para analisar com isenção os arquivos do Vaticano.
Durante dois anos, o grupo debruçou-se sobre onze volumes de documentos
publicados entre 1965 e 1981. Em junho, os pesquisadores solicitaram acesso
a outros documentos, inéditos. O Vaticano recusou o pedido, alegando
que o material cerca de 3 milhões de páginas
ainda não havia sido catalogado. E colocou à disposição
um arquivo que termina em 1923, muito antes da guerra e do pontificado
de Pio XII, papa entre 1939 e 1958. Descontentes, os pesquisadores, incluindo
os católicos, enviaram uma carta ao Vaticano na qual reclamam do
cerceamento e anunciam a suspensão dos trabalhos. Para irritação
da Santa Sé, o teor da carta foi revelado publicamente pelo Congresso
Judaico Mundial, responsável pela indicação dos pesquisadores
judeus. Sem acesso à documentação inédita,
os cientistas se dizem incapazes de chegar a qualquer conclusão.
A forma dura com que a Santa Sé tratou o assunto indica que eles
não devem contar com uma súbita liberalidade dos arquivistas
do Vaticano. A lua-de-mel ecumênica entre católicos e judeus
pode ter chegado a um fim melancólico.
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