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Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
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Fim da lua-de-mel

Resposta dura do Vaticano
em debate sobre a
II Guerra
ameaça diálogo judaico-católico

O delicado relacionamento com os judeus que a Igreja Católica vem tecendo no pontificado de João Paulo II sofreu uma sacudidela na semana passada. Num pronunciamento de tom duríssimo, a Santa Sé acusou o Congresso Judaico Mundial de tentar atingi-la com uma "campanha difamatória". Era a resposta à organização judaica, que no mês passado havia acusado o Vaticano de impedir o acesso a documentos sobre a atuação da Igreja durante a II Guerra. A omissão diante do genocídio dos judeus é um assunto espinhoso para o alto clero católico. A ponto de ter demorado meio século para o papa João Paulo II proferir uma espécie de mea-culpa, em 1998. Ainda assim, tratou-se de um arrependimento genérico pelas falhas dos católicos diante das atrocidades do período – bem longe do pedido de desculpa ou da condenação do papa Pio XII que muitos judeus gostariam de ouvir.

A Igreja Católica não se sente responsável pelas atrocidades nazistas e ignora as acusações de que Pio XII não teria tentado impedir o genocídio. Alertado várias vezes sobre o andamento da "solução final" – o projeto nazista de exterminar a população judaica da Europa –, o papa tocou no assunto publicamente uma única vez, e de passagem, na mensagem de Natal de 1942. Nem quando os nazistas ocuparam Roma, no ano seguinte, e começaram a deportar os judeus romanos para os campos de concentração, ele esboçou reação mais contundente. João Paulo II, que viveu sob a ocupação da Polônia e testemunhou atrocidades nazistas, tem patrocinado um verdadeiro exame de consciência da Igreja e se esforçado pela conciliação entre católicos e judeus. Com seu aval, foi criada dois anos atrás uma comissão independente, composta de três pesquisadores judeus e três católicos, para analisar com isenção os arquivos do Vaticano.

Durante dois anos, o grupo debruçou-se sobre onze volumes de documentos publicados entre 1965 e 1981. Em junho, os pesquisadores solicitaram acesso a outros documentos, inéditos. O Vaticano recusou o pedido, alegando que o material – cerca de 3 milhões de páginas – ainda não havia sido catalogado. E colocou à disposição um arquivo que termina em 1923, muito antes da guerra e do pontificado de Pio XII, papa entre 1939 e 1958. Descontentes, os pesquisadores, incluindo os católicos, enviaram uma carta ao Vaticano na qual reclamam do cerceamento e anunciam a suspensão dos trabalhos. Para irritação da Santa Sé, o teor da carta foi revelado publicamente pelo Congresso Judaico Mundial, responsável pela indicação dos pesquisadores judeus. Sem acesso à documentação inédita, os cientistas se dizem incapazes de chegar a qualquer conclusão. A forma dura com que a Santa Sé tratou o assunto indica que eles não devem contar com uma súbita liberalidade dos arquivistas do Vaticano. A lua-de-mel ecumênica entre católicos e judeus pode ter chegado a um fim melancólico.

 
 
   
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