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Prova é que não falta

Jader entrega extratos bancários
e, sem querer, dá outra prova de
que embolsou dinheiro do Banpará

Alexandre Oltramari

 

Ana Araujo
"Não vou ficar perambulando pelos corredores do Senado, como fez ACM."
Do senador Jader Barbalho, a um amigo, explicando por que não aparece para trabalhar

A hora mais dramática para todo suspeito ocorre no momento em que sua própria defesa, em vez de inocentá-lo, o incrimina. Na semana passada, Jader Barbalho, presidente licenciado do Senado, foi pilhado nessa arapuca. Primeiro, VEJA publicou o relatório oficial do Banco Central sobre o desfalque do Banpará, mostrando que o senador e sua turma receberam 2,5 milhões de reais desviados da instituição. Depois, surgiu a nota técnica elaborada pelo Ministério Público Federal, com base no relatório do BC. A nota, com 51 páginas, confirma a mecânica do desfalque, lista seus beneficiários e atualiza os valores, apontando um rombo total de 5,1 milhões de reais. Na semana passada, Jader disparou um tiro no pé. Para defender-se das acusações de ser o mentor e principal beneficiário do roubo do Banpará, o senador entregou ao Senado uma pilha de extratos de sua conta bancária. Os três documentos – o relatório do BC, a nota técnica do Ministério Público e os extratos bancários – formam um conjunto harmônico e autorizam a mesmíssima conclusão: Jader Barbalho era o responsável pelo fundo de investimentos que manipulou e desviou milhões de reais do banco oficial do Pará na época em que ele era governador do Estado.

Ao entregar seus extratos bancários, Jader tentou jogar para a platéia e ludibriar os desavisados. Seus extratos, analisados isoladamente, não são uma prova contra o senador. Ali, aparecem depósitos, saques e transferências de valores pequenos que, em si, não sugerem nenhuma participação em desvios milionários. O problema é que, confrontados com o relatório do BC e a nota técnica do Ministério Público, os extratos acabam por revelar todo o esquema. Era assim: o dinheiro desviado do Banpará caía num fundo de investimento ao portador numa agência do banco Itaú no Rio de Janeiro. O fundo recebia cotas de investimento de valores definidos. Quando o dinheiro excedia a cota, o fundo devolvia a sobra. Quando, ao contrário, o dinheiro não atingia a cota de investimento, o fundo exigia que fosse complementada. E tanto as sobras quanto os complementos, todos em valores pequenos, saíam de uma mesma conta bancária. A conta de Jader Fontenelle Barbalho, conforme comprovam os extratos do próprio senador.

Na página 31 da nota técnica do Ministério Público, aparece um exemplo concreto. No dia 17 de outubro de 1984, o fundo do Itaú recebeu um investimento em cheques administrativos do Banpará de 1,3 milhão de reais, em valores de hoje. Mas a cota não estava completa. Faltavam 141 reais, também em valores de hoje. O dinheiro que faltava saiu da conta 96650-4, aberta em nome de Jader Barbalho. Na mesma nota técnica, há outro exemplo, mostrando que o dinheiro também corria em sentido contrário. Nesse caso, em vez de sacar de sua conta para integralizar uma cota de investimento, Jader recebeu o troco que excedia a cota. Foi no dia 29 de novembro de 1984, quando o fundo devolveu uma parcela de 6.607 reais, em valores atuais. A devolução foi depositada na mesma conta, 96650-4, de Jader Barbalho. Tanto o saque de 141 reais (usado para atingir a cota) quanto o depósito de 6.607 reais (devolvido por exceder a cota) aparecem nos extratos bancários apresentados pelo senador na semana passada.

Diante disso, Jader poderia alegar que apenas recebeu – e devolveu – pequenos resíduos das aplicações feitas com dinheiro do Banpará. Talvez fosse essa sua intenção ao divulgar seus extratos bancários. Mas não colou por uma razão simples. Quando investigaram o caso, os técnicos do Banco Central se interessaram em saber para onde ia o grosso dos investimentos, e não apenas seus resíduos. Descobriram, inicialmente, que as boladas eram resgatadas por meio de cheques administrativos do banco Itaú – e eram cheques ao portador, cujo dono fica anônimo. Em seguida, os técnicos rastrearam o destino das boladas para identificar seus verdadeiros beneficiários. E encontraram, na ponta final, Jader Barbalho, seus familiares, suas empresas e seus amigos. Reunindo tudo o que se sabe sobre o caso até agora, constata-se o seguinte: os extratos de Jader registram os complementos e sobras das aplicações no fundo do Itaú, e a investigação do BC já comprovara que a parte substancial das aplicações acabava no bolso do senador e patota. Estava montada a arapuca.

Erro de principiante – Na semana passada, apesar das evidências acachapantes de que Jader está metido na cumbuca do Banpará, o senador ganhou alguns dias para respirar. A sobrevida veio do Supremo Tribunal Federal. No início da semana, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, pediu ao STF a abertura de inquérito criminal para investigar Jader no caso do Banpará. Só que o pedido nem foi analisado devido a um erro de principiante cometido por Brindeiro. O ministro encarregado de analisá-lo, Carlos Velloso, reparou que nas trinta páginas redigidas pelo procurador-geral não havia o dado mais elementar: de que crime, afinal de contas, Jader Barbalho é suspeito? De roubo? De peculato? De corrupção? De fraude? Como Brindeiro descreveu detalhadamente o desfalque, mas esqueceu-se de tipificar o crime, o pedido de abertura de inquérito criminal foi devolvido. É um alívio momentâneo para Jader Barbalho. Se, nos próximos dias, Brindeiro conseguir redigir um pedido com início, meio e fim, a tendência é que o STF abra o inquérito.

Quando Brindeiro não erra, acelera-se a caminhada de Jader ao cadafalso. No início da semana passada, atendendo ao pedido do procurador-geral, o STF autorizou a quebra do sigilo bancário e fiscal de Jader. É a primeira vez na história que um senador da República tem seus sigilos quebrados. Neste caso, a idéia é apurar, com base em dados bancários e no imposto de renda, a suspeita de que Jader se envolveu num esquema irregular de venda de títulos públicos na época em que foi ministro da Reforma Agrária, no fim da década de 80. Além disso, o Conselho de Ética do Senado apura outra suspeita, a de que Jader regia uma sinfonia de propinas para liberar verbas da extinta Sudam. Na sexta-feira passada, os senadores Romeu Tuma, Jefferson Péres e João Alberto, que integram o Conselho de Ética, estavam em Manaus tomando depoimentos sobre o caso. Único dos três a pertencer ao PMDB de Jader, nos últimos dias João Alberto ameaçou retirar-se das investigações, voltou atrás, mas já decidiu: não moverá uma palha para tentar salvar seu companheiro de partido. Maranhense, João Alberto foi avisado pela governadora do Estado, Roseana Sarney. Ou pulava fora da canoa de Jader, ou não teria o apoio da governadora em eleições futuras.

 

Fartura de provas

O relatório descobre

Clique nas imagens para vê-las ampliadas

Relatório sigiloso do Banco Central, publicado por VEJA, revela que Jader Barbalho e seus parentes receberam 2,5 milhões de reais desviados do Banpará

 

A nota técnica reforça

Documento sigiloso do Ministério Público, ao qual VEJA teve acesso, confirma que Jader e parentes receberam dinheiro do Banpará. Atualizado, o desvio chega a 3 milhões de reais

 

Os extratos comprovam

Extratos bancários que Jader entregou ao Senado comprovam que o senador se beneficiou do dinheiro desviado. Resíduos das aplicações feitas com recursos do Banpará aparecem creditados em sua conta corrente

 

Todos de olho na cadeira

Ana Araujo

A cadeira azul vazia: lorota da maldição

Desde que Jader Barbalho virou o anhangá da política nacional e perdeu qualquer condição de voltar a comandar o Senado, só se fala de uma coisa: quem sentará na cadeira de espaldar alto e couro azul, reservada ao presidente da Casa? "Eu não seria candidato em nenhuma hipótese e isso não está em pauta, até porque a cadeira não está vaga", assevera Renan Calheiros, líder do PMDB. "Não quero a presidência, imagina! Sou ministro, e como tal acho até antiético entrar nessa discussão", descarta Ramez Tebet, do PMDB de Mato Grosso do Sul e ministro da Integração Nacional. "Meu projeto é outro. Quero ser presidente da República", garante o senador Pedro Simon. "Não posso dizer que sou candidato se não há situação concreta de disputa", desvia o gaúcho José Fogaça. Para justificar tantas desistências, espalhou-se até a lorota de que a cadeira azul seria amaldiçoada – dado o destino de seus dois últimos ocupantes: Antonio Carlos Magalhães, que foi forçado a renunciar ao mandato, e Jader Barbalho, que ainda cambaleia entre a renúncia e a cassação.

Como em política quase nada é o que parece ser, a cadeira azul, na verdade, está no centro dos movimentos de cobiça no PMDB, a legenda que tem direito de preferência em fazer o sucessor de Jader Barbalho. "Todo mundo está doido para sentar na amaldiçoada cadeira", brinca o oposicionista Jefferson Péres. De fato, pretendentes há vários. Eles só não querem ser identificados. "Quem não quer ser presidente do Senado? Claro que isso é conversa", diz um desses pretendentes, senador do PMDB, cujo nome aparece no parágrafo anterior. Até agora, o único que não descarta a cadeira azul é o senador José Sarney, do PMDB do Amapá. Sarney acha deselegante tratar do assunto em público, considerando que Jader ainda não se evadiu do cargo, mas já mandou seus aliados avisarem que aceita o posto, desde que não haja disputa. Cioso do respeito litúrgico que um ex-presidente da República deve sempre receber, Sarney diz que só pretende entrar em cena caso seu nome seja uma unanimidade entre os senadores. Ainda não é. Mas, na semana passada, seu nome era o mais cotado na bolsa de apostas do Senado.

Olho espichado – Entre os candidatos mais esforçados está Renan Calheiros, que espicha o olho para a cadeira azul mesmo antes de Jader sentar-se nela. Em encontros reservados ocorridos no início do ano, a cúpula do PMDB tentava convencer Jader a adotar uma estratégia. Sairia candidato à presidência do Senado, venceria a disputa e, em seguida, abandonaria o cargo. Com a vitória, daria uma lição em seu maior rival no Senado, Antonio Carlos Magalhães. E, com o abandono, evitaria ser triturado por sua própria máquina de fraudes, como está acontecendo agora. No caso de abandono depois da vitória, a idéia era que a cadeira de presidente fosse ocupada por Renan Calheiros. Jader não topou, mas, entre todos os peemedebistas que articularam essa saída, o mais empolgado era Renan Calheiros – o tal que diz que não seria candidato "em nenhuma hipótese".

Malu Gaspar

 

 
 
   
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