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Devo, não
nego, mas
também não pago
O governo
briga para cobrar
das empresas 126 bilhões de reais

Marcelo Carneiro
Divulgação
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Raul Junior
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| Tanque
da Engesa, a empresa de Whitaker (à dir.) que já
foi líder da indústria bélica: falência
e dívida de 1,8 bilhão de reais |
No auge do
regime militar, uma empresa comandada por um civil era a menina-dos-olhos
do Exército brasileiro. A Engesa, uma das cinco maiores fabricantes
de material bélico do mundo, enchia de orgulho o peito dos generais.
Nos tempos de vacas gordas, quando chegou a exportar 400 milhões
de dólares ao ano, o empresário José Luiz Whitaker
Ribeiro, dono da Engesa, viajava para o Oriente Médio para fechar
contratos a bordo de um jatinho apelidado de "Tapete Voador", com dezesseis
camas, bar e mesa de jogos. Não raro, levava uma comitiva de ministros
e altas patentes militares. Hoje, falida, a companhia não produz
sequer uma bala de revólver, mas ostenta uma dívida espetacular:
1,8 bilhão de reais pendurados na conta do governo. Sua trajetória
é um retrato perfeito de como o dinheiro público pode ir
para o ralo. A Engesa lidera um ranking das empresas e pessoas físicas
que, no total, devem 126 bilhões de reais à União
o suficiente para pagar quase um quarto da dívida externa
do país. Nos últimos dois meses, VEJA analisou uma listagem
a que teve acesso com exclusividade. O relatório, com dados oficiais
da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, órgão responsável
pela cobrança judicial do governo, aponta os 1.700
devedores com débitos superiores a 10 milhões de reais cada
um. A maioria refere-se a sonegação de impostos ou a não-pagamento
de financiamentos públicos.
O panorama
que surge dessa amostragem indica um calote generalizado. Espalha-se por
todos os Estados e por grandes, médias e pequenas companhias de
todos os setores da economia agricultura, indústria, comércio
e serviços. Alcança também pessoas físicas,
algumas delas muito conhecidas, como Nicolau dos Santos Neto, o juiz Lalau,
com uma cobrança de cerca de 13 milhões de reais. Entre
as empresas campeãs, figuram gigantes como a Varig e companhias
que já foram potências em sua área de atuação,
caso da construtora Encol e do Banco Econômico. Se os usineiros
de Alagoas conseguem há mais de uma década evitar a cobrança
de um débito que já alcança 534 milhões de
reais, uma revendedora de automóveis de São Paulo, a Milano,
produziu a façanha de dever ao governo 670 milhões. O levantamento
de VEJA não inclui as dívidas com a Previdência Social
(que somam outros 100 bilhões de reais) e eliminou da relação
os casos que a própria Procuradoria da Fazenda reconhece como créditos
inconsistentes. Ficaram de fora companhias que já resolveram o
problema com a Justiça, mas ainda mantêm processos pendentes
em virtude da lentidão da burocracia. Foram excluídos ainda
erros de lançamento no momento da inscrição do débito
e equívocos do próprio devedor, como falhas no preenchimento
da declaração de imposto de renda.
Selmy Yassuda

O usineiro
Inojosa, que deve 50 milhões de reais: "A culpa é
do governo" |
O calote
da Engesa é um caso singular, especialmente pelas histórias
que ilustram o excessivo grau de intimidade entre uma empresa privada
e o governo. Em 1992, já afundada em uma dívida que beirava
os 500 milhões de dólares, a companhia quase foi estatizada,
com a ajuda providencial do Exército. O fato curioso é que
80% desse débito estava no colo de dois órgãos estatais
de financiamento o Banco do Brasil e o BNDES. Ou seja, a estatização
era uma manobra para enterrar ainda mais dinheiro público na empresa
de Whitaker. Pelo menos 100 milhões de dólares foram injetados
pelo governo na Engesa, como antecipação pela compra de
1.000 carros de combate que nunca saíram
da prancheta. A idéia de estatização não foi
à frente, mas a dívida da Engesa só fez crescer.
Menos de dois anos depois, quando até a luz já havia sido
cortada, foi decretada a falência, que se arrasta até hoje.
No início
do processo, o patrimônio da Engesa era estimado em 400 milhões
de dólares. Agora, o que restou alguns imóveis e
um punhado de tanques militares enferrujados não vale 15
milhões de dólares. E nem esse dinheiro deve voltar aos
cofres públicos. Pela legislação, em casos de falência,
as dívidas trabalhistas têm precedência, e a Engesa
ainda precisa acertar a conta com boa parte de seus ex-empregados. Afastado
da empresa, Whitaker foi denunciado pelo Ministério Público
por crime falimentar, mas acabou absolvido porque a ação
prescreveu. Em 1998, quando respondia ao processo, o homem que nos tempos
de glória cruzava o mundo a bordo de jatinhos declarou à
Justiça viver com 5.000 reais mensais.
Hoje, porém, ainda mantém sua casa no luxuoso condomínio
Alphaville, nos arredores de São Paulo.
Claudio Rossi
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Orlando Brito
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| Manifestações
contra a Encol, do empresário Pedro Paulo de Souza: mais de
10 000 ações na Justiça e rombo de 580 milhões
de reais |
A maior parte
dos 126 bilhões que essas companhias devem ao governo é
formada por dívidas incobráveis, como a da Engesa. Estima-se
que pouco mais de 30 bilhões possam efetivamente ser resgatados.
Isso ocorre porque, freqüentemente, o governo não é
o único credor dessas empresas. A Encol, também falida,
enfrenta mais de 10.000 ações
na Justiça por todo o país, incluindo as execuções
fiscais patrocinadas pela União Federal. Só com o governo,
o calote alcança 580 milhões de reais. Nessa conta entra
um pouco de tudo que uma empresa pode fazer para arrancar dinheiro do
governo, especialmente sonegação de impostos e empréstimos,
muitos empréstimos. Parece incrível, mas, quando até
o mais ingênuo dos mutuários já sabia que um apartamento
da Encol era um investimento de altíssimo risco, os bancões
oficiais continuavam enterrando dinheiro na construtora. No Banco do Brasil,
a Encol tinha crédito ilimitado. Um empréstimo de 100 milhões
de reais teve como avalista o próprio dono da construtora, Pedro
Paulo de Souza. Mais: mesmo com um papagaio de 120 milhões pendurado
no INSS, a empresa continuou a receber dinheiro público, o que
é proibido por lei. A chance de essa dinheirama retornar aos cofres
públicos é mínima.
Isso não
significa que a briga para fazer um caloteiro pagar tudo o que deve seja
uma luta inócua. Um grupo de empresários de Alagoas que
comanda usinas de açúcar e álcool já percebeu
que terá de entregar parte do vasto patrimônio para saldar
um calote que dura mais de dez anos. A dívida, registrada em nome
da Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool
de Alagoas, teve início em 1984 e atualmente alcança 534
milhões de reais. Nessa época, os empresários conseguiram
um empréstimo no exterior e apresentaram como fiador o Banco do
Brasil. Não honraram a dívida, mas o BB não fez feio.
Pagou o débito pelos usineiros e até hoje o governo enfrenta
idas e vindas nos tribunais para recuperar o dinheiro jogado fora. Em
março deste ano, os empresários ofereceram como garantia
de pagamento do papagaio vários imóveis registrados em nome
das usinas. A Justiça alagoana, talvez escaldada com o estilo usineiro
de negociação, exigiu a comprovação em cartório
da posse dos bens.
Juntos, os
usineiros brasileiros devem mais de 5 bilhões de reais, quase 5%
do total da dívida espetada pelas empresas no governo. Só
Antônio Inojosa, dono da Usina do Outeiro, no Estado do Rio, tem
uma dívida de 50 milhões de reais. Inojosa, de 75 anos,
comandou a Cooperativa Fluminense por mais de duas décadas, mas
diz que os empresários não têm nenhuma responsabilidade
sobre as dívidas. "A culpa é do governo. Eles estimularam
a produção, mas não investiram em irrigação.
Daí a quebra", defende-se o empresário, que apesar das dívidas
é dono de terras na Bahia e no Rio de Janeiro.
Recuperar
o dinheiro gasto com os caloteiros, mesmo que apenas uma parte, significaria
um alívio de caixa para qualquer governo. O problema é que
essa é uma tarefa hercúlea. Nos últimos sete anos,
a União conseguiu recuperar algo perto de 23 bilhões de
reais. É uma façanha e tanto, levando-se em conta que em
todo o país há pouco mais de 700 procuradores da Fazenda,
e nem todos atuam na área de cobrança. A própria
Procuradoria estima que hoje cada procurador tenha sob sua responsabilidade
cerca de 30.000 processos. Em alguns Estados,
os computadores não estão conectados à internet,
o que torna o acompanhamento das ações uma peregrinação
sem fim aos fóruns. "Temos dificuldade em preencher todas as vagas
abertas nos últimos concursos. Em Rondônia não existe
nenhum procurador de carreira", diz Almir Martins Bastos, há três
anos no cargo de procurador-geral.
Do outro
lado do balcão, sobram recursos para a guerra. Escritórios
com mais de 100 advogados prestam serviço ininterrupto às
empresas enroladas com o Fisco. Em Alagoas, os barões do açúcar
são defendidos pela advogada Maria Fernanda Vilela, irmã
do senador Teotonio Vilela, até bem pouco tempo atrás presidente
nacional do PSDB. VEJA procurou as dez companhias que lideram o ranking
dos endividados. A desculpa para uma dívida tão grande gira
em torno da justificativa de que o débito existe, mas é
bem menor. Na verdade, a lengalenga é sempre esta: devo, não
nego, mas também não pago. Nem morto. Resta ao governo mudar
sua tática. No Brasil, dar calote continua sendo ótimo negócio.
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