
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Sobre
os evangélicos
"Acusam
Garotinho de misturar fé
e política. É uma denúncia
ilegítima. A
Igreja Católica faz o
mesmo. Do papa aos padres do PT"
Conheço
apenas duas evangélicas. Ambas empregadas domésticas. Uma
delas nasceu católica, virou espírita, passou para a umbanda,
até o dia em que descobriu a Igreja Universal do Reino de Deus.
Numa entrevista publicada recentemente pela editora Sulina, o filósofo
romeno Cioran disse que o triunfo do cristianismo em Roma se deveu aos
domésticos, na maior parte imigrados, que apagaram o brilho intelectual
do mundo antigo, levando a melhor sobre seus senhores. Para Cioran, o
estupor causado pelo avanço do cristianismo nos espíritos
cultos da época foi bem descrito por Celso, que, no século
II d.C., atacou a ignorância e baixeza dos fiéis da doutrina
emergente. A doutrina dos empregados domésticos.
Há evangélicos que se incomodam com essa imagem de uma igreja
ligada só aos pobres. A Associação de Homens de Negócio
do Evangelho Pleno, da Assembléia de Deus, organiza "encontros
sofisticados em lugares de requinte" e "eventos de alto nível para
pessoas de primeira classe", oferecendo desde jantares no sofisticado
restaurante Gustare, de Bauru, em frente à Renault Veículos,
até coquetéis no requintado edifício Hannover, em
Joinville, "com a presença do nosso querido e amigo pastor Livingston
Farias". Personalidades evangélicas também se esforçam
para difundir a fé nas camadas sociais mais elevadas. No site Planeta
Evangélico, encontram-se depoimentos religiosos de pessoas de primeira
classe, como Dedé Santana, Mara Maravilha e Edmílson, além
de Baby do Brasil, que apresenta na Flórida o espetáculo
Exclusivo para Deus. Apesar disso, é sobretudo graças
aos pobres que as igrejas evangélicas continuam a crescer. O dízimo,
por exemplo. A Igreja Universal jamais teria conseguido financiar investimentos
de caráter puramente religioso, como a compra da Rede Record, sem
o dízimo doado pelos crentes mais pobres. De acordo com Edir Macedo,
quando somos fiéis ao dízimo, vemo-nos livres do sofrimento.
Uma espécie de Baú da Felicidade do espírito.
Graças aos votos de seu rebanho de pobres, os evangélicos
também puderam eleger cerca de cinqüenta parlamentares. E
agora pretendem alçar Garotinho a presidente. O mesmo Garotinho
que, para evitar a abertura de CPIs contra seu governo, reuniu manifestantes
evangélicos diante da Assembléia Legislativa do Rio. Muita
gente o denunciou por misturar fé e política. É uma
denúncia ilegítima. Porque a Igreja Católica é
igual: vive misturando as coisas. Tanto que o papa é festejado
por ter contribuído para derrubar a Cortina de Ferro. Nada mais
político do que isso. Num país fortemente católico
como a Itália, a Igreja também se mete em política,
como nas últimas eleições, quando deu uma mãozinha
para a coligação de direita, de Silvio Berlusconi. E não
foi político o gesto do padre ruandês Athanase Seromba, acusado
de genocídio pelo tribunal da ONU por ter mandado abater com tratores
uma igreja lotada de refugiados tutsis? E, voltando ao Brasil, o que dizer
dos padres de esquerda das comunidades de base? Quantos votos eles levam
ao PT? Mais ou menos do que os pastores evangélicos? O fato é
que a religião de sua empregada doméstica triunfará,
como aconteceu na antiga Roma. Um pouco menos provável é
que, com o triunfo de sua religião, sua empregada também
seja vista tomando coquetel no requintado edifício Hannover, na
companhia do pastor Livingston Farias.
|
|
 |