
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Gustavo
Franco
Incêndios
e bombeiros
"O
pacote do FMI de 15 bilhões de
dólares para o Brasil dá a sensação
de que os bombeiros, em vez de
atacar o foco do incêndio, forneceram
extintores para o apartamento de cima"
Ilustração Ale Setti
 |
Está
difícil entender a postura da nova administração republicana
dos Estados Unidos com relação a países emergentes
em dificuldades. Daqui do Brasil, tenha-se claro, nada a objetar ao novo
programa com o FMI que nos brindará com mais 15 bilhões de
dólares no contexto de uma continuação levemente modificada
do acordo já em vigor. Mas como interpretar, senão como castigo,
o fato de a Argentina receber do FMI apenas um adiantamento de um solitário
bilhão, tendo em vista que é lá que está o problema?
Qual a razão da "punição"? O que pretendem os americanos?
O noticiário sobre a Argentina pode facilmente conduzir o leitor,
e mesmo as autoridades americanas, à idéia de que os argentinos
estão fazendo algo profundamente errado ao fixar sua taxa de câmbio
com relação ao dólar e deixá-la flutuar com
relação ao euro e ao real. É preciso lembrar que
nada de diferente foi feito nos países da União Européia
Portugal, Espanha e França, por exemplo que fixaram
suas taxas de câmbio com relação ao euro e as deixaram
flutuar com relação ao dólar e ao real.
O problema, portanto, não é o "câmbio fixo" em si,
mas o país estar aprisionado a uma paridade "errada". Ou melhor,
uma paridade que podia estar correta no momento de sua fixação,
faz mais de uma década, mas que, com o tempo, ficou "errada". O
mesmo pode ocorrer, é claro, daqui a dez anos com qualquer país
da União Européia. Pode ser uma inflação maior
que a dos vizinhos ou um diferencial de produtividade que faz, por exemplo,
os preços das mercadorias produzidas na Espanha ou na Itália
se tornarem mais altos ao longo do tempo. Ou pode ser um fator externo,
como o fechamento do mercado de capitais, ou uma megadesvalorização
num país vizinho.
O que está se passando com a Argentina, portanto, pode perfeitamente
acontecer com qualquer país europeu no futuro, e, caso aconteça,
não será encontrada nos estatutos da União Européia
nenhuma solução diferente de um financiamento acompanhado
necessariamente de um programa de ajuste. É claro que a natureza
exata desse programa dependerá muito do que ocorreu para tornar
a paridade "errada". Se tiver sido irresponsabilidade fiscal e inflação,
a receita é conhecida. No caso de um vizinho que desvalorizou,
ou de mercados de mau humor, as coisas ficam mais incertas. De um modo
ou de outro, a troca de paridade, tal como a saída de um país
da União Monetária Européia, seria dificílima
de fazer. Uma nova moeda nacional teria de ser construída, fiduciária
e flutuante, e provavelmente em fases, como fizemos aqui com a URV. É
preciso criar a mercadoria que se quer desvalorizar, e, em vista da complexidade
do processo, as chances de uma transição pacífica
dependeriam muito do nível de apoio político e do tamanho
do financiamento externo.
O fato é que quanto mais se adiar o financiamento e o programa
de ajuste mais a situação vai se deteriorar, maior será
o sofrimento dos argentinos e de seus vizinhos e mais cara vai ficar a
solução. A situação poderia estar muito melhor
se o pacote da "blindagem" não tivesse fracassado em razão
da não-participação dos americanos, e essa foi uma
das primeiras decisões da administração Bush. Caso
os democratas tivessem vencido, o pacote seria bem maior. Naquela ocasião,
não fora o extraordinário talento de nossos vizinhos para
tornar grandioso tudo o que fazem, poderíamos ter antecipado a
crise hoje instalada. Agora os americanos estão novamente diante
da mesma decisão e vai ser muito mais difícil ocultar, para
não falar em explicar, um "não". Por isso, os argentinos
passarão o fim de semana nos EUA esperando por um "sim".
Tem-se a sensação, em conclusão, de que os bombeiros
foram chamados para a América do Sul, mas, em vez de atacar o foco
do incêndio, forneceram extintores para o apartamento logo acima.
Pode-se perguntar que espécie de lição os bombeiros
estão querendo ensinar aos proprietários do apartamento
em chamas. O fato é que, a julgar pela reação morna
ao nosso pacote, os 15 bilhões de dólares fariam melhor
a nós, brasileiros, se fossem dados aos argentinos.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com)
|
|
 |