Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
Em foco

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Gustavo Franco

Incêndios e bombeiros

"O pacote do FMI de 15 bilhões de
dólares para o Brasil dá a sensação
de que os bombeiros, em vez de
atacar o foco do incêndio, forneceram
extintores para o apartamento de cima"


Ilustração Ale Setti

Está difícil entender a postura da nova administração republicana dos Estados Unidos com relação a países emergentes em dificuldades. Daqui do Brasil, tenha-se claro, nada a objetar ao novo programa com o FMI que nos brindará com mais 15 bilhões de dólares no contexto de uma continuação levemente modificada do acordo já em vigor. Mas como interpretar, senão como castigo, o fato de a Argentina receber do FMI apenas um adiantamento de um solitário bilhão, tendo em vista que é lá que está o problema? Qual a razão da "punição"? O que pretendem os americanos?

O noticiário sobre a Argentina pode facilmente conduzir o leitor, e mesmo as autoridades americanas, à idéia de que os argentinos estão fazendo algo profundamente errado ao fixar sua taxa de câmbio com relação ao dólar e deixá-la flutuar com relação ao euro e ao real. É preciso lembrar que nada de diferente foi feito nos países da União Européia – Portugal, Espanha e França, por exemplo – que fixaram suas taxas de câmbio com relação ao euro e as deixaram flutuar com relação ao dólar e ao real.

O problema, portanto, não é o "câmbio fixo" em si, mas o país estar aprisionado a uma paridade "errada". Ou melhor, uma paridade que podia estar correta no momento de sua fixação, faz mais de uma década, mas que, com o tempo, ficou "errada". O mesmo pode ocorrer, é claro, daqui a dez anos com qualquer país da União Européia. Pode ser uma inflação maior que a dos vizinhos ou um diferencial de produtividade que faz, por exemplo, os preços das mercadorias produzidas na Espanha ou na Itália se tornarem mais altos ao longo do tempo. Ou pode ser um fator externo, como o fechamento do mercado de capitais, ou uma megadesvalorização num país vizinho.

O que está se passando com a Argentina, portanto, pode perfeitamente acontecer com qualquer país europeu no futuro, e, caso aconteça, não será encontrada nos estatutos da União Européia nenhuma solução diferente de um financiamento acompanhado necessariamente de um programa de ajuste. É claro que a natureza exata desse programa dependerá muito do que ocorreu para tornar a paridade "errada". Se tiver sido irresponsabilidade fiscal e inflação, a receita é conhecida. No caso de um vizinho que desvalorizou, ou de mercados de mau humor, as coisas ficam mais incertas. De um modo ou de outro, a troca de paridade, tal como a saída de um país da União Monetária Européia, seria dificílima de fazer. Uma nova moeda nacional teria de ser construída, fiduciária e flutuante, e provavelmente em fases, como fizemos aqui com a URV. É preciso criar a mercadoria que se quer desvalorizar, e, em vista da complexidade do processo, as chances de uma transição pacífica dependeriam muito do nível de apoio político e do tamanho do financiamento externo.

O fato é que quanto mais se adiar o financiamento e o programa de ajuste mais a situação vai se deteriorar, maior será o sofrimento dos argentinos e de seus vizinhos e mais cara vai ficar a solução. A situação poderia estar muito melhor se o pacote da "blindagem" não tivesse fracassado em razão da não-participação dos americanos, e essa foi uma das primeiras decisões da administração Bush. Caso os democratas tivessem vencido, o pacote seria bem maior. Naquela ocasião, não fora o extraordinário talento de nossos vizinhos para tornar grandioso tudo o que fazem, poderíamos ter antecipado a crise hoje instalada. Agora os americanos estão novamente diante da mesma decisão e vai ser muito mais difícil ocultar, para não falar em explicar, um "não". Por isso, os argentinos passarão o fim de semana nos EUA esperando por um "sim".

Tem-se a sensação, em conclusão, de que os bombeiros foram chamados para a América do Sul, mas, em vez de atacar o foco do incêndio, forneceram extintores para o apartamento logo acima. Pode-se perguntar que espécie de lição os bombeiros estão querendo ensinar aos proprietários do apartamento em chamas. O fato é que, a julgar pela reação morna ao nosso pacote, os 15 bilhões de dólares fariam melhor a nós, brasileiros, se fossem dados aos argentinos.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (
gfranco@palavra.com)

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS