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| Fotos: Fernando Vivas |
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| A
escola do Ilê-Aiyê: além de percussão,
crianças aprendem sobre cultura africana |
Em qualquer lugar do mundo, tambor é
apenas um instrumento de percussão. Na cidade de
Salvador, capital da Bahia, tambor significa muito mais:
emprego, ascensão social, educação e até religião.
Numa metrópole que tem cerca de 200 conjuntos musicais
que utilizam instrumentos de percussão, entre blocos
carnavalescos, afoxés e grupos de samba, tocar repique,
atabaque ou agogô é o sonho de milhares de crianças e
jovens, principalmente nas classes mais pobres. Para
atender a essa demanda, estão sendo inaugurados, neste
ano, dois grandes pólos de ensino de percussão. Um
deles é o Pracatum, idealizado pelo músico Carlinhos
Brown, que deve abrir em dezembro. Localizado no Candeal,
bairro onde Brown nasceu, o Pracatum dará aulas
gratuitas de música para 200 crianças entre 14 e 18
anos. O outro é o do Olodum, que está sofrendo uma
grande reestruturação e terá sua capacidade ampliada,
de 263 alunos para 600. Esses dois novos pólos vêm
juntar-se a outras duas grandes escolas de percussão de
Salvador. A Didá, localizada, como o Olodum, no
Pelourinho, voltada para o público feminino, com
capacidade para 200 alunas, e a do Ilê-Aiyê, um dos
mais famosos blocos afros de Salvador, que tem 100
alunos.
Tambor é também educação porque as
escolas de percussão da Bahia pretendem ensinar muito
mais do que batucada. Enraizadas em comunidades
geralmente pobres, elas tentam suprir parte das
carências das populações a que se destinam.
Construído com um orçamento de 2 milhões de dólares,
arrecadados de entidades como o Unicef, o BNDES e a
Fundação Vitae, o Pracatum, de Carlinhos Brown,
pretende dar às crianças aulas de alfabetização,
matemática e língua portuguesa. Outra idéia é
utilizar a música para chamar a atenção para o bairro,
conseguindo dinheiro para melhorar as condições de
saneamento e moradia, que são bem precárias. "O
que estamos fazendo no Candeal é uma revolução com
elegância", gosta de dizer Brown. O Olodum tem
objetivos semelhantes. O grupo fechou, no final do ano
passado, a Escola Criativa Olodum, uma instituição de
ensino de 1º grau que acrescentava ao currículo básico
temas relativos à cultura afro-brasileira, já que a
maior parte da população do Pelourinho é negra. A
idéia, agora, é concentrar forças no ensino de
música, mantendo cursos profissionalizantes em outras
áreas. Para isso, foi fechada uma parceria com uma
empresa de informática que ministrará um curso de
computação. "Não há vagas no mercado de trabalho
para todo mundo que aprende percussão. Assim, o aluno
fica com uma segunda alternativa", explica Kátia
Melo, coordenadora pedagógica do Olodum.
Salário e viagens
O sonho da maior parte dos jovens que procuram
essas escolas, no entanto, é mesmo viver de tocar
tambor. Em Salvador, há mercado para isso como em
nenhuma outra cidade brasileira. A Superintendência de
Estudos Socio-Econômicos do Estado estima que 10% da
população economicamente ativa da cidade tire o seu
sustento da indústria do entretenimento que
engloba, entre outras coisas, blocos carnavalescos, trios
elétricos que fazem festas pelo Brasil inteiro e os
grupos de percussão da cidade, que realizam turnês
regulares no país e no exterior. Só a banda adulta do
Olodum, para citar um exemplo, tem 400 percussionistas
cadastrados, 280 deles na ativa, prontos para representar
o grupo em excursões. A ocupação de percussionista
não é um emprego com carteira assinada. Como costuma
acontecer em geral com músicos, ganha-se cachê por
apresentação. Na cidade, eles ficam na faixa de 200
reais. Um percussionista bem posicionado no mercado pode
faturar, assim, algo em torno de 2.000 reais mensais, um
salário razoável em qualquer lugar do Brasil. Isso sem
contar a possibilidade de viajar. De família pobre,
Marivaldo Paim da Conceição, de 23 anos, que trabalha
no Ilê-Aiyê como instrutor e músico, fez sua primeira
viagem ao exterior com 18 anos, para um festival nos
Estados Unidos. Hoje, ostenta também em seu passaporte
carimbo da alfândega da Alemanha e da França.
"Acho que a possibilidade de fazer essas viagens é
um dos estímulos das crianças que aprendem percussão
comigo", acredita Marivaldo.
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A
banda Didá: instrumentos de graça e assistência ginecológica |
As escolas de percussão baianas em geral se originam de blocos carnavalescos, organizando-se em torno de figuras carismáticas. Uma delas, claro, é Carlinhos Brown, que idealizou o Pracatum e se dedica, pessoalmente, a angariar recursos para a escola em suas viagens pelo mundo. Outra é Antonio Luís de Souza, 42 anos, conhecido como Neguinho do Samba. Ele é o fundador da escola de percussão do Olodum. Depois de algumas divergências com a cúpula do bloco, saiu e fundou a Didá, onde dá aula só para mulheres. Com sua lábia, Neguinho conseguiu de graça desde instrumentos musicais doados pela fábrica paulistana Gope até assistência ginecológica para suas alunas, por intermédio de amigos médicos. O belo sobrado do Pelourinho onde funciona a Didá foi doado pelo músico americano Paul Simon. Corria o ano de 1990, o cantor havia acabado de gravar o CD The Rhythm of the Saints com o Olodum, do qual Neguinho do Samba era figura de proa. Contente com o resultado, Simon procurou o músico depois das gravações e lhe ofereceu um carro importado de presente. Neguinho disse que, em vez de uma BMW, preferia uma casa no Pelourinho, que custava o mesmo preço. No sobrado, fundou sua escola.
Com a febre em relação ao instrumento
surgiram tambores que fogem aos moldes dos atabaques rum,
rumpi e lé, os quais fazem a trilha sonora dos cultos
afro-brasileiros. Para os ouvidos leigos em batucada, os
diversos tipos de tambor não têm a menor diferença
entre si no que se refere à sonoridade. Os especialistas
no assunto, entretanto, são capazes de discutir horas a
fio a respeito dos defeitos e das virtudes de cada
novidade. Carlinhos Brown, por exemplo, é o responsável
por colocar em primeiro plano um instrumento até então
considerado secundário na família dos tambores, o
timbau. Chamado também de timba e tocado com uma
espécie de vassourinha, o timbau ficava quase esquecido
nas rodas de samba. Carlinhos Brown tirou-o da sombra e
inventou a timbalada, uma orquestra de timbaus. Para
contrastar com o som grave do instrumento, inventou
outro, a "bacurinha", de timbre agudo. Neguinho
do Samba também criou um estilo. Ele é o inventor do
"samba-reggae" tocado pelo Olodum e adora
modificar tambores para conseguir afinações e
sonoridades diferentes. Os tambores baianos são, por
último, objeto de polêmica. "Essas escolas de
percussão criam a idéia, falsa, de que o supra-sumo
para a comunidade afro-descendente é tocar tambor",
diz o professor Fernando Conceição, um dos líderes do
movimento negro na Bahia. "Em vez de criar tais
escolas, deveriam usar a verba que vem do exterior para
investir na qualificação profissional das pessoas de
baixa renda." Para os opositores dessa febre, o
ensino de percussão é uma maneira de reforçar o
estereótipo segundo o qual a população negra só
consegue destacar-se em atividades como a música e o
esporte. Eles até podem ter alguma razão, mas a
valorização das raízes africanas será sempre um
elemento altamente positivo para os negros que, no
passado, eram bombardeados com associações negativas em
relação aos elementos de sua cultura.
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S.A. |