O fino do fino

O disco que lançou a bossa nova ganha reedição em CD

Uma raridade acaba de chegar às lojas. Depois de quarenta anos fora de catálogo, foi relançado em CD Canção do Amor Demais, o disco que — simplesmente — lançou a bossa nova. Atenção para o time que ele reúne: Tom Jobim e Vinicius de Moraes assinam as treze composições, interpretadas por Elizete Cardoso com João Gilberto ao violão. Jobim também toca piano, assina os arranjos e a regência da orquestra. Antes que alguém pense que se está diante de uma daquelas gravações experimentais e fanhosas, que servem apenas como registro histórico, é bom avisar: Canção do Amor Demais é um dos melhores discos da MPB em todos os tempos, e continua atualíssimo.

À época em que foi gravado, João Gilberto era um baiano recém-chegado ao Rio. Vinicius era um diplomata e poeta que começava a engatar parcerias com o desconhecido Jobim. A dupla decidiu gravar suas músicas e fechou negócio com a nanica gravadora Festa, especializada em discos de poesia declamada. A princípio chamaram Dolores Duran para interpretá-lo. Como ela cobrasse caro demais, convidaram Elizete. Novo problema: a cantora era contratada da Copacabana. Foi preciso muita lábia e malícia de Vinicius para convencer os donos da Copacabana de que o disco não representaria concorrência. Seria mais ou menos como os outros da Festa: suas poesias seriam recitadas por Elizete, com acompanhamento musical.

Evidentemente, não era nada disso. O disco traz grandes canções da safra inicial de Tom e Vinicius, inclusive Chega de Saudade, na qual pela primeira vez se ouviu a batida característica do violão de João Gilberto. Elizete, por sinal, achou a batida muito esquisita e tentou substituir João pelo violonista que a acompanhava regularmente. Por sorte não conseguiu. O disco nem sequer chegou perto das paradas de sucesso, mas aquela batida e as músicas da dupla iriam transformar a MPB para sempre.




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