Afundar é preciso

Clássico português relata grandes naufrágios
e mostra lado trágico dos descobrimentos

Desenho português do século XVI: a ganância
como o motor da História

Reunidos em livro entre os anos de 1735 e 1736, e postos "aos reais pés" da majestade de Portugal pelo historiador Bernardo Gomes de Brito, os doze relatos de naufrágios ou "perdições de naus" que compõem a História Trágico-Marítima (Lacerda Editores/Contraponto; 543 páginas; 40 reais) são um documento inestimável sobre os grandes descobrimentos, cujos 500 anos estão sendo comemorados. Editada cuidadosamente, com apresentação da escritora Ana Miranda e introdução e notas do poeta e crítico Alexei Bueno, essa obra famosa ganha sua primeira versão comercial no Brasil, para revelar um lado pouco conhecido da história das navegações. Não aquele dos grandes feitos e conquistas, marcados por nomes como os de Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral, mas o dos protagonistas anônimos, que se perderam em desventuras marítimas.

A princípio, o estilo rebuscado e os termos navais podem parecer um empecilho à leitura. Mas, uma vez que nos acostumamos com eles, História Trágico-Marítima pode quase ser lido como um romance de aventuras. Há descrições espetaculares de afundamentos, como esta, retirada da Relação do Naufrágio da Nau São Tomé: "Toda essa noite passaram com grandes trabalhos e desconsolações, porque tudo quanto viam lhes representava a morte, porque, por baixo, viram a nau cheia de água, por cima, o céu conjurado contra todos, porque até ele se lhe encobriu com a maior cerração e escuridade que se viu. O ar assobiava de todas as partes, que parecia lhes estava bradando morte, morte, e não bastando a água que por baixo lhes entrava, e de cima que o céu lançava sobre eles, parecia que os queria alagar com outro dilúvio". Tempestades e ondas, porém, podiam ser males menores. A sobrevivência em costas hostis, as intermináveis negociações e lutas com nações de "cafres" (negros da região hoje ocupada pela África do Sul) e "arábios", as disputas com holandeses e piratas, a morte causada por fome, frio, tigres, pulgas, corredeiras e azares de toda espécie determinaram o preço que a aventura da navegação até as Índias, no século XVI, impôs aos portugueses.

Cobiça e tormentas — Homens como Fernão Dias e Pedro Álvares Cabral comandaram um gigantesco empreendimento que, em meio século, muitas vezes cegou o bom senso e a competência navegadora de Portugal. A denúncia moral da ganância humana é um dos temas centrais do livro. Assim, Diogo do Couto, guarda-mor da Torre do Tombo e narrador do já mencionado naufrágio da nau São Tomé, critica o péssimo estado de conservação da frota portuguesa dizendo que "todas estas naus andam a Deus misericórdia, por pouparem quatro cruzados". E João Baptista Lavanha, cosmógrafo-mor de sua majestade, ao contar sobre o afundamento da nau Santo Alberto, diz que ele não se deveu às tormentas do Cabo da Boa Esperança, mas à "cobiça dos contratadores e navegantes", que sobrecarregaram aquele navio e "outros muitos que no fundo do mar hão sepultado".

Os relatos de História Trágico-Marítima nasceram, sem exceção, das impressões de sobreviventes dos naufrágios narrados no livro. Oferecem um retrato bastante concreto daquilo que foram as navegações, incluindo, como já se disse, personagens anônimos como padres, pajens, escravos e algumas mulheres que se aventuraram nas embarcações, como a esposa do capitão Manuel de Sousa Sepúlveda, morta na costa africana depois de muitos sofrimentos e de ter suas roupas roubadas pelos guerreiros cafres. No conjunto, a História Trágico-Marítima acaba sendo um maravilhoso contraponto às glórias narradas em épicos como Os Lusíadas, ainda que a coragem e o heroísmo de que falou Luís de Camões não estejam, de forma alguma, ausentes de suas páginas.

Amyr Klink




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