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Futuro sombrio
Pequenas
vitórias e grandes derrotas
ainda marcam a luta contra a Aids
Com a divulgação, no final de junho,
do relatório da ONU sobre a incidência de Aids no mundo, um pessimismo
fundamentado tomou conta da comunidade médica mundial. A despeito dos
avanços científicos, com a criação de drogas potentes, o número de doentes
cresce assustadoramente. Hoje, 30,6 milhões de pessoas vivem com o vírus
HIV. Cerca de 6 milhões de homens, mulheres e crianças foram infectados
apenas no ano passado 16.000 novos casos por dia. E, em cada dez
pacientes, nove estão em países pobres, sobretudo na África e na Ásia.
"A epidemia está mais uma vez mudando de perfil e atingindo as populações
mais carentes", diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital
Albert Einstein, em São Paulo. O "empobrecimento" das vítimas
do HIV sempre foi um dos maiores temores dos especialistas. Para grande
parte dessas populações, as terapias mais modernas de controle da Aids
são inacessíveis. O custo mensal de um tratamento é de, no mínimo, 1.000
reais muito dinheiro para nações que ainda sucumbem a males já
controláveis, como a diarréia infantil. E o mais grave, alerta o documento
da ONU, é que a maioria dos doentes não sabe que carrega o vírus. Até
que os primeiros sintomas da Aids se manifestem, o que pode demorar até
dez anos, os infectados terão transmitido o HIV para outras pessoas. O
futuro é, portanto, sombrio (veja quadro).
Em 1996, os
cientistas revelaram a descoberta de um coquetel de
drogas capaz de conter o crescimento do HIV no organismo
humano. Os mais animados chegaram a falar em
"cura". O entusiasmo, como se revelaria agora,
dois anos depois, foi exagerado. "Havia uma certa
euforia de que o coquetel poderia bloquear totalmente a
multiplicação do vírus", afirma o infectologista
Luiz Pedro Meireles, da Universidade de São Paulo.
"Estamos voltando à realidade." Na 12ª
Conferência Mundial da Aids, encerrada no último dia 3,
os pesquisadores anunciaram os primeiros casos de
contaminação de pacientes por uma cepa do HIV
resistente aos medicamentos mais sofisticados. Já havia
relatos de doentes que, durante o tratamento,
desenvolviam resistência às drogas. Mas não se
esperava que essa versão fortalecida do vírus pudesse
ser transmitida. Infelizmente pode.
Mutações
A capacidade de mutação do HIV joga água fria
também na crença de que uma vacina contra a Aids
estaria ao alcance da mão. Não está. "O vírus é
extremamente mutante e não conseguimos prever como ele
reagirá às novas terapias", afirma o doutor
Timerman. As pesquisas mais avançadas no desenvolvimento
de uma vacina utilizam uma proteína encontrada na
superfície do HIV que serve de porta de entrada para a
contaminação das células do corpo humano, a gp 120. O
problema é que se trata de uma das estruturas do HIV
mais suscetíveis a mutações. A imunização
conseguiria, portanto, proteger contra uma ou duas
versões do HIV, mas não contra todas. O grande temor
dos pesquisadores é de que as pessoas, imaginando-se
seguras, abandonem toda e qualquer medida de prevenção
à Aids. O que é, sem dúvida, uma possibilidade e um
risco. Não bastassem todas as dificuldades no cerco ao
vírus da Aids, o documento da ONU revela que a doença
se está espraiando para grupos completamente fora da
população tida como de risco. Hoje, no mapa do mundo da
Aids, vê-se que as contaminações acontecem em grande
escala via relações heterossexuais. O parceiro se
contamina em relações homossexuais ou com drogas
injetáveis e infecta a parceira. Em 1986, uma em cada
dezessete vítimas brasileiras era mulher. Hoje, a
proporção é de uma para cada quatro casos. Na África
do Sul, 79% dos casos de Aids aconteceram via
transmissão heterossexual.
Em meio a tantas
más notícias, a única boa dá conta de que, quando se
faz uma prevenção eficiente, os índices de
contaminação se estabilizam ou decaem drasticamente. No
Brasil, desde 1995, contabilizam-se os mesmos 17.000
novos casos por ano. Na Europa Ocidental, entre 1995 e
1997, as notificações de novos casos caíram 38%.
Passaram de 23.954 para 14.874. Desde os primórdios da
epidemia alerta-se para a importância da prevenção.
Não chega a ser uma novidade nem é sensacional como a
descoberta de uma vacina, mas continua a ser a melhor
receita.
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