Maílson
da Nóbrega
Os salários dos executivos
da
Petrobras
"No setor público, raros
são os dirigentes demitidos por
incompetência. Sua remuneração
não deve ter relação
com a do setor privado"
Deu no Correio Braziliense (25/6/2009): entre
2003 e 2007, a remuneração dos diretores da Petrobras cresceu 90%,
mais de três vezes a inflação do período. Em 2007,
cada um recebeu perto de 710 000 reais, quase 60 000 reais por mês.
Em entrevista a O Estado de S. Paulo (27/6/2009),
o presidente da empresa, Sergio Gabrielli, tachou a matéria de "muito
ridícula", pois veiculava decisão da assembleia-geral da empresa,
que é pública. Falou em "claro indício de crime de quebra
de sigilo fiscal", pois a informação é protegida. Como?
Se o dado é público, não teria havido delito.
Corretamente,
Gabrielli mostrou que a remuneração é modesta, em relação
à de empresas privadas: "Todos os dirigentes da Petrobras receberam
7,108 milhões de reais no ano de 2007. O Itaú teve 244 milhões
de reais; o Bradesco, 170 milhões de reais; o Unibanco, 153 milhões
de reais; Gerdau, 59 milhões de reais; Vale, 43 milhões de reais;
Sadia, 16 milhões de reais; Perdigão, 14 milhões de reais;
Aracruz, 9 milhões de reais; CSN, 9,5 milhões de reais".
Haverá
quem se impressione com o argumento e dê razão ao presidente da Petrobras.
Acontece que não se pode fazer essa comparação. O setor privado
é mais exigente quanto aos requisitos de experiência e qualificação
profissional. Os executivos podem sair por causa de desempenho insuficiente. Por
essas razões, paga-se mais, aqui e em outros países. No setor público,
raros são os dirigentes demitidos por incompetência. Sua remuneração
não deve ter relação com a do setor privado.
O
senhor Gabrielli tem elevada qualificação acadêmica, incluindo
o doutorado em economia nos EUA. É professor de uma instituição
de prestígio, a Universidade Federal da Bahia. Sua competência é
hoje muito reconhecida. Ocorre que se a Petrobras fosse privada dificilmente esses
predicados bastariam para ele chegar a presidente. A escolha de seus dirigentes
levou mais em conta as vinculações sindicais ou partidárias.
Segundo
Maria Celina dAraújo, cientista política da Fundação
Getulio Vargas, o governo federal dispõe de 77 000 cargos para preencher
por indicação política. No atual governo, esse processo foi
exacerbado. Salvo exceções como a do Banco Central, as nomeações
se pautaram por critérios essencialmente políticos. Nem mesmo as
agências reguladoras que deveriam ser geridas por pessoal preparado
escaparam do aparelhamento.
No governo federal americano,
as indicações políticas são cerca de 3 000.
Os dois partidos que se revezam no poder costumam recorrer a gente qualificada,
recrutada nos seus próprios quadros ou em organizações de
pesquisas e estudos (os think tanks). No Reino Unido, onde é maior
a profissionalização do serviço público, o primeiro-ministro
nomeia pouco mais de 100 pessoas, incluindo os ministros.
O
governo britânico usa habitualmente empresas de consultoria especializadas
(headhunters) para recrutar e selecionar dirigentes. É assim que são
escolhidos os equivalentes, entre nós, aos cargos de secretário
da Receita Federal e do Comitê de Política Monetária do Banco
Central. O presidente que conduziu a privatização da British Steel,
a estatal de aço, era um canadense indicado pelo mesmo método.
No
setor privado, cargos como os da Petrobras são exercidos segundo valores,
princípios e lógica distintos dos aplicáveis ao governo.
Ao contrário do setor público, sua remuneração deriva
de expectativa de desempenho, de demandas do cargo ou dos respectivos riscos.
Voltemos aos EUA. Como o país não possui empresas
estatais como as brasileiras, tomemos o exemplo do Federal Reserve, o banco central.
A remuneração anual de seu presidente, medida pelo método
da paridade do poder de compra da moeda, é de 279 100 reais, menos
da metade do ganho de um diretor da Petrobras. A complexidade do cargo é
maior. Comparada à de um dirigente de banco americano, essa remuneração
ficaria a uma distância maior do que a existente entre a Petrobras e empresas
brasileiras.
Em resumo, consideradas a natureza estatal da
Petrobras e a forma de escolha de seus diretores, parece não haver justificativa
para o valor de seus salários, muitíssimo superiores aos do universo
dos dirigentes do setor público brasileiro. A comparação
com a remuneração de diretores de empresas privadas é no
mínimo descabida.
Maílson
da Nóbrega é economista |