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Home  »  Revistas  »  Edição 2121 / 15 de julho de 2009


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Artes plásticas

O PRIMEIRO PASSO RUMO
À GENIALIDADE

Exposição da pintura de estreia de Michelangelo,
feita aos 12 ou 13 anos de idade, mostra que ele
chegou tão longe porque foi o artista certo
no lugar certo e na hora certa


André Petry, de Nova York

Kimbell Art Museum/The New York Times

NO PRINCÍPIO ERA ASSIM
O Tormento de Santo Antônio: análises em laboratório finalmente comprovaram que se trata da estreia de Michelangelo


Quando tinha 12 ou 13 anos, Michelangelo Buonarroti (1475- 1564) usou óleo e têmpera sobre uma tela de madeira e pintou seu primeiro quadro. Chama-se O Tormento de Santo Antônio e está em exibição no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, onde ficará até 7 de setembro. A suspeita é antiga, mas só agora, depois da remoção das camadas de tinta aplicadas por antigos restauradores e das análises de raio X e infravermelho, chegou-se ao veredicto de que se trata, de fato, da tela de estreia de Michelangelo. A imagem que o artista escolheu para pintar é cópia de uma gravura feita cerca de uma década e meia antes pelo alemão Martin Schongauer (1448-1491). Há dois atrativos na exposição. O primeiro é simplesmente ver uma obra de Michelangelo. O outro é descobrir que a gravura de Schongauer, cuja cópia também faz parte da exposição, é artisticamente superior à tela de Michelangelo. Gravurista de mão-cheia, Schongauer dá mais dinamismo aos demônios que parecem impedir Santo Antônio de ascender aos céus e define-lhes os contornos com uma exatidão ao mesmo tempo aguda e graciosa. O atraente, nessa comparação, é que nem Michelangelo, nem mesmo ele, o artista genial, nasceu pronto.

Seus afrescos, como os pintados no teto e na parede do altar da Capela Sistina, no Vaticano, são icônicos, deslumbrantes. As esculturas, como Pietà, Moisés e David, são tão esplêndidas que parecem transformar mármore em carne. Mas, vendo-se de onde Michelangelo partiu – sua primeira pintura é excelente para um garoto de 12 ou 13 anos, mas imatura, tateante, promissora –, é inevitável indagar como é que atingiu mais tarde alturas tão enormes. A resposta, aparentemente, é uma soma de talento excepcional com circunstâncias históricas também excepcionais. Tanto que Michelangelo só rivaliza mesmo com seus contemporâneos – entre eles, Leonardo da Vinci (1452-1519), um dos primeiros a ver e se maravilhar com seu David, de mais de 5 metros de altura. Nem o mais favorável ambiente físico e cultural produz a genialidade de um
Michelangelo ou de um Da Vinci, mas circunstâncias muito adversas podem exterminar um gênio artístico. Michelangelo teve tudo a seu favor: foi o artista certo no lugar certo (a península itálica) e na hora certa (em pleno Renascimento).

Alinari Archives/Corbis/Latinstock

OBRA GIGANTESCA
David, de Michelangelo:
5 metros de altura e maestria


Ainda criança, fazia cópias exímias de estátuas gregas, pelas quais tinha admiração inata. Foi ajudado pela feliz coincidência de que a Itália renascentista ressuscitava os ideais e os valores estéticos do humanismo grego, com seu culto à beleza, o que favoreceria a arte de Michelangelo, ele que tinha a mesma obsessão helênica pela perfeição física, sobretudo do corpo masculino – que apreciava por razões artísticas e também nas suas escapadelas noturnas com belos rapazinhos. Até a arqueologia da época lhe foi favorável. Em 1506, arqueólogos desenterraram Laocoön, a esplêndida escultura que muitos consideram a obra-prima da Antiguidade. (Consta que Michelangelo acompanhou os trabalhos de escavação em Roma.) Em seus quase 89 anos de vida, o artista foi, quase sempre, um homem atormentado, como o Santo Antônio de sua primeira pintura, mas, como que para compensá-lo dos demônios pessoais, em seu tempo, mais que nunca, a arte permeou a vida.

Estava na política, na diplomacia, na vida militar, na gastronomia, na moda, na religião. Os ricos e poderosos, dos papas de Roma ao clã dos Médici em Florença, buscavam distinção social pela arte. Os principais pontífices do tempo de Michelangelo – Júlio II, Leão X, Clemente VII e Paulo III – competiram pelo título de o maior protetor das artes e lhe fizeram encomendas que definiriam sua carreira, como os afrescos da Capela Sistina e a monumental escultura de Moisés – para alguns críticos, sua maior obra-prima. Certa vez, em busca de uma explicação para seu próprio fenômeno, Michelangelo disse, brincando, que tudo se devia ao seu precoce convívio com o mármore, pois sua ama de leite, coincidentemente, era filha e esposa de cortadores de mármore. Quem vê O Tormento de Santo Antônio constata que era, mesmo, só uma brincadeira.

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