PUBLICIDADE

Home  »  Revistas  »  Edição 2121 / 15 de julho de 2009


Índice    Seções    Panorama    Brasil    Internacional    Geral    Especial    Guia    Artes e Espetáculos    ver capa
Livros

Paisagens da Irlanda

A estreia literária de Edna O’Brien foi marcada pela censura
e pelo escândalo – mas hoje ela é a grande dama das letras irlandesas

Selmy Yassuda
INFÂNCIA CATÓLICA
Edna O’Brien: "Cresci sob a influência de duas mães poderosas:
a igreja e a minha mãe de fato"

VEJA TAMBÉM
O romance de estreia de Edna O’Brien, The Country Girls, de 1960 – ainda sem tradução no Brasil –, foi banido pela censura em sua Irlanda natal. Em um país dominado pela igreja católica, não se aceitavam a linguagem franca do livro nem as cenas sensuais envolvendo duas jovens que, depois de expulsas de um convento, tentam a vida em Dublin. No condado de Clare, onde a autora nasceu, um padre recolheu e queimou todos os exemplares que encontrou – mas a fogueira foi pequena. "Eram apenas dois livros. Nem consegui ganhar dinheiro antes da censura", brinca a autora. Tal como já aconteceu com tantos outros escritores, Edna, de 78 anos, percorreu o caminho do escândalo à consagração. A Irlanda que a censurava – hoje uma integrante cosmopolita da União Europeia – já a cobriu das devidas homenagens e prêmios. Edna O’Brien é uma espécie de grande dama da literatura irlandesa (o que não significa que sua fama seja apenas provinciana: entre seus admiradores, contam-se escritores como o americano Philip Roth). Mas a filha pródiga não voltou ao lar: prefere viver em Londres, onde está radicada desde os anos 50. Na semana passada e na retrasada, Edna esteve no Brasil para divulgar, em Paraty (leia a coluna de Diogo Mainardi) e no Rio, seu mais recente romance, A Luz da Noite (tradução de Maurette Brandt; Record; 384 páginas; 49 reais), um belíssimo drama familiar.

Admiradora reverente do compatriota James Joyce – é autora de uma biografia breve do criador de Ulisses , Edna seguiu o exemplo do mestre: distanciou-se da terra natal para melhor escrever sobre ela. "A paisagem irlandesa, nos meus livros, é tão importante quanto os personagens", diz. Sua infância foi marcada pelas restrições religiosas e pela limitação cultural (os únicos livros em sua casa eram a Bíblia e manuais de criação de cavalos). "Cresci sob a influência de duas mães poderosas: a igreja e a minha mãe de fato", diz. A mãe, aliás, ficou chocada com a escandalosa estreia da filha escritora. Edna lembra que, depois da morte dela, descobriu um exemplar de The Country Girls escondido em um celeiro, sob um monte de feno. Sua mãe havia riscado com tinta preta todos os palavrões e expressões que julgava ofensivos. Com fortes tintas autobiográficas, A Luz da Noite lança um olhar ao mesmo tempo duro e compassivo sobre uma típica mãe do interior da Irlanda. A dedicatória vale pelo programa literário da autora: "Para a minha mãe e para a minha terra natal".

EDIÇÃO DA SEMANA
ACERVO DIGITAL
PUBLICIDADE
OFERTAS



Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados