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Ana Araujo![]() |
"É muito fácil governar sem contrariar nenhum interesse. Você não constrói nada novo, mas todo mundo te ama" |
Seu partido, o DEM, apoiou a eleição de José Sarney e depois pediu a saída dele da presidência do Senado. O senhor acha que Sarney ainda tem condições de presidir a Casa? O problema do Senado é maior do que essa discussão pontual, personificada, da notícia do jornal de hoje. O modelo político criado pela Constituição de 1988 foi importante porque permitiu a estabilidade política e preservou a democracia por duas décadas, mas está dando sinais claros de fadiga. Se não for feita uma reforma política séria, que traga estabilidade às casas legislativas, o país pode ficar ingovernável e, sem dúvida, continuará sendo pautado por escândalos.
Qual é a reforma política que o senhor defende?
É preciso ter apenas cinco ou seis partidos que representem os diversos
espectros ideológicos, como em qualquer país civilizado. A partir
daí, é necessário ter coerência entre as legendas
e seus programas, ter fidelidade partidária e verticalização.
No ano que vem, as alianças da eleição nacional serão
totalmente diferentes das regionais. Aí acontece o seguinte: o sujeito
ganha a eleição para presidente e não sabe com qual base
política e legislativa contará. E como é que ele constrói
a maioria? Com fisiologismo, com práticas políticas pouco ortodoxas.
O senhor está dizendo que o que se passa hoje no Senado
é culpa do modelo, e não dos políticos?
Os problemas éticos
nas casas legislativas são facilitados por uma legislação
política e administrativa totalmente atrasada e incompatível com
o momento político que o Brasil vive. As estruturas administrativas são
muito arcaicas. A máquina pública é um elefante. Come muito,
custa caro e é lerda. Isso vale para o Senado e também para o
meu governo. Se a máquina pública brasileira vivesse de resultados,
já estaria em concordata há muitos anos. Os políticos fazem
parte dessa máquina.
É possível governar sem fisiologismo?
É quase
impossível. O fisiologismo está entranhado de uma maneira tal
na cultura política brasileira que, hoje, a única diferença
entre um governante e outro é o limite de tolerância e flexibilidade
em relação a essa prática. É hipocrisia não
reconhecer que todos os governos, literalmente todos, praticam certa dose de
fisiologismo.
E qual é o seu limite?
É o limite ético.
É não dar mesada, não permitir corrupção
endêmica, institucionalizada. Sei que existe corrupção no
meu governo, mas sempre que eu descubro há punição. Não
dá para entregar um setor de atividade do governo para que um grupo político
cuide dele por interesses empresariais escusos. Se peço a um parlamentar
eleito para me ajudar a administrar sua base eleitoral, isso é política.
Mas, se entrego a esse parlamentar a empresa de energia elétrica, isso
não é aceitável. Quando me pedem algo assim, eu aproveito
que tenho cara de bobo e finjo que não entendo. Alguns passam para a
oposição, mas a maioria continua me apoiando entre aspas e esperando
o primeiro momento para me pegar na curva. O problema é que se você
entrar nesse jogo não consegue sair mais.
| "O fisiologismo está entranhado na política. A única diferença entre um governante e outro é o limite de tolerância em relação à prática. É hipocrisia não reconhecer que todos praticam fisiologismo" |
Esse diagnóstico também se aplica ao governo federal?
O PT segue outra linha. O PT tem uma visão de instrumentalização
da máquina pública e politiza as relações que deveriam
ser institucionais. Mas o presidente Lula é diferente do PT.
O senhor é do partido que mais faz oposição
ao governo federal, mas acaba de fazer um agrado ao presidente Lula, isentando-o
de responsabilidade pelo fisiologismo...
Os que são eleitos para administrar
precisam de maturidade e civilidade para pôr os interesses públicos
acima das diferenças partidárias. Brasília é a capital
do país. Eu sou hospedeiro dos poderes da República. O povo escolheu
Lula presidente. E o povo daqui me escolheu governador. Trabalhar em harmonia,
com respeito e independência, é fundamental para que o interesse
público prevaleça. Eu procurei ter essa postura e encontrei no
presidente a mesma vontade. Em dois anos e meio como governador, todos os pleitos
que levei ao governo federal foram atendidos dentro da lei. Então, não
vejo nenhuma razão para ter desavenças com o governo federal.
É por isso que o presidente é tão popular?
Ele é popular por três motivos. Primeiro, porque tem um tipo de
inteligência epidérmica, emocional, que é muito raro. Ele
se comunica com a população como ninguém. Em segundo lugar,
ele é um homem de sorte. Governou o Brasil em um período de estabilidade
econômica, não mexeu em nada, e navegou por seis anos em um mar
de crescimento mundial. A terceira qualidade do Lula é a simpatia. Ele
é agregador, não é belicoso. Essas três questões
deram ao presidente Lula uma popularidade só comparada na história
recente à de Getúlio Vargas.
Lula tem defeitos?
Tem, como o Getúlio tinha. No caso do
Getúlio, uma vertente autoritária. No caso do presidente Lula,
ele tem uma tendência de simplificar problemas complexos em vez de dar
soluções estruturais, definitivas. Por exemplo: ele prefere gastar
dinheiro com a máquina pública a fazer investimentos que alavanquem
a economia. Um exemplo concreto e politicamente incorreto: no momento em que
ele opta por ter mais recursos no Bolsa Família do que na educação,
mais recursos no assistencialismo do que na infraestrutura, ele ganha votos
no curto prazo, mas distancia o país de uma economia competitiva.
O senhor vê traços de populismo no governo Lula?
E alguém não vê? Mas o populismo tem aspectos positivos
e negativos. É positivo quando com-preende o problema dos mais humildes.
E é negativo quando escraviza os mais humildes na dependência de
políticas públicas.
E o Bolsa Família, que o senhor citou, está em qual
dos exemplos?
Nos dois. O Bolsa Família atende e escraviza. Aqui em Brasília
há pessoas que se dispõem a fazer um serviço doméstico
mas não aceitam ter a carteira assinada para não perder o benefício.
E, infelizmente, há um grande número de pessoas que se acomodam,
deixam de trabalhar e vivem escravizadas pelo benefício. Hoje os políticos
têm medo de falar em contrapartida, em porta de saída, porque serão
tratados como inimigos do Bolsa Família. Não apenas os beneficiários
ficam escravos do assistencialismo, mas a classe política também.
| "Quando Lula opta por ter mais recursos no Bolsa Família do que na educação, mais recursos no assistencialismo do que na infraestrutura, ele ganha votos, mas distancia o país de uma economia competitiva" |
O senhor vai estar em qual palanque em 2010?
Meu partido vai seguir
com o PSDB, com o candidato que os tucanos definirem, o governador José
Serra ou o governador Aécio Neves. O melhor candidato da oposição
será aquele que conseguir construir uma unidade. Nenhum deles ganha sem
o outro. Mas alguma coisa me diz que o quadro eleitoral do ano que vem não
é esse que está colocado hoje. Tanto da parte da oposição
quanto da do governo. Não dá para afirmar que a ministra Dilma,
Serra ou Aécio serão os candidatos no ano que vem. Muita coisa
ainda pode mudar.
O senhor enfrentou recentemente uma longa greve de professores
que derrubou sua popularidade, mas, em vez de ceder, resolveu partir para o
confronto. Não há diálogo possível com o sindicalismo?
Esse sindicalismo representa um pensamento retrógrado, corporativo, que
ainda domina espaços importantes da vida pública brasileira. São
células nas quais a união se dá por interesses, não
por ideais. Agora o sindicato está contra a proposta que condiciona o
14º salário dos professores ao resultado das escolas. Foi graças
a esse enfrentamento que consegui produzir uma revolução na educação.
Brasília já tem 200 escolas públicas com educação
integral. Cinquenta mil alunos que chegam à escola às 7 da manhã,
fazem três refeições e saem às 5 da tarde. Hoje os
28 000 professores da rede pública têm laptop. Praticamente
todas as escolas estão ligadas no wireless ou na banda larga. A questão
é que isso só vai dar resultado em dez anos, e o brasileiro é
muito imediatista.
O senhor sucedeu a Joaquim Roriz no governo do Distrito Federal,
político famoso pelo clientelismo e envolvido em escândalos. Qual
foi a herança que o senhor recebeu?
Quando assumi, vi que apenas o pagamento
das contas consumia todo o orçamento, não sobrava um tostão
para investir. Fiz uma reengenharia do estado. Cortei o número de secretarias
de quarenta para vinte, demiti 23 000 servidores públicos contratados
sem concurso, retirei as vans piratas das ruas e acabei com as invasões.
Também passei a gastar menos, paguei as dívidas e já no
segundo ano retomei a capacidade de contrair novos empréstimos e de investir
com recursos próprios. Hoje há 1 750 obras na cidade. A
média da população, que viu o esforço de contenção
de gastos e vê o retorno agora, está feliz. Mas a pessoa que perdeu
seu emprego não vai enxergar isso porque o interesse pessoal dele está
acima do interesse público.
No Brasil, não é um risco um político adotar
essa linha dura nas questões urbanas?
A política de ordenamento
urbano e de gestão responsável da máquina pública
contraria muitos interesses. Em meu primeiro ano de governo, cheguei a ter 58%
de rejeição. Com o tempo, isso foi se invertendo. Hoje já
tenho uma posição mais confortável, mas muito distante
do que eu teria se simplesmente fosse o populista clássico e não
contrariasse os interesses de ninguém. É muito fácil no
Brasil governar sem contrariar nenhum interesse. Você não constrói
nada novo, mas todo mundo te ama.
Brasília será uma das sedes da Copa do Mundo de
2014. Vai haver gasto de dinheiro público do Distrito Federal na Copa?
Certamente. E provavelmente em todas as sedes. É uma utopia querer aumentar
um estádio de 30 000 para 70 000 lugares ou fazer linhas
de trem ou metrô sem dinheiro público. O que está em jogo
agora é a imagem do Brasil. E esse investimento cria empregos, movimenta
a economia e moderniza a vida das cidades. O investimento em Brasília
deve chegar a 2 bilhões de reais. Mas tudo será revertido para
a modernização da cidade, para o benefício da população.
O senhor foi personagem de um dos maiores escândalos da
história do Senado, a violação do painel de votações.
Por causa disso, o senhor renunciou ao mandato. Há algum paralelo entre
a sua situação e a do senador Sarney?
Quando você está
ali, no Senado, você pensa que é Deus. Eu cometi dois grandes erros:
vi uma lista que não deveria ter visto e tentei esconder isso. No momento
em que percebi que seria mais um que erra e não assume, preferi outro
caminho. Eu reconheci o erro, paguei um preço muito alto por isso, que
foi minha saída do Senado, e recomecei do zero. O que tem de semelhança
é o erro. O que tem de diferença é que reconheci meu erro.
E graças a esse reconhecimento consegui dar a volta por cima.