Roberto Pompeu de Toledo
O absurdo chamado Honduras
"Contempla-se o mapa e surge por inteiro o erro que
é a América Central – um rabicho da América do Norte,
ou um penacho brotado da cabeça da América do Sul"
Fala-se de Honduras, nestes dias, Honduras para cá, Honduras
para lá, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não é.
Não dá para comentar um golpe, ou uma situação política,
por mais grotesca ou absurda, sem atentar primeiro ao absurdo que é Honduras
em si, mesmo sem golpes ou situação política explosiva.
Este é o ponto. Quem discute o golpe dá por pacífica a
existência de Honduras. Considera que um país chamado Honduras
é algo perfeitamente normal e cabível na ordem geral do planeta.
Ora, essas pessoas deveriam parar um momento para pensar. Como assim? Honduras?
Um país chamado Honduras? A conclusão inevitável é
que Honduras é uma aberração.
A América Central é uma aberração.
É produto de um erro geológico, um esquecimento que fez uma tripa
de terra resistir a seu destino lógico, que seria a submersão
no oceano. Sem ela, os oceanos Atlântico e Pacífico teriam ampla
comunicação. Teria sido evitado o drama que foi a construção
do Canal do Panamá, incluindo o escândalo financeiro da primeira
tentativa de sua abertura, tão rumoroso que a palavra "panamá"
virou sinônimo de negociata. A América do Norte e a América
do Sul seriam dois continentes diferentes, com identidades ainda mais nítidas
do que as que já possuem. Teriam nomes diferentes, em consequência.
E inexistiria o problema de os do Sul se sentirem órfãos do adjetivo
"americano", de tal forma ele é identificado com o mais poderoso
dos países do Norte.
Contempla-se o mapa e surge por inteiro o erro que é a
América Central um rabicho da América do Norte, ou, vista
do ângulo oposto, um penacho, ou um topete rebelde, brotado da cabeça
da América do Sul. Bem
Já que existe, poderia contentar-se
em constituir-se numa ponte, uma passagem seca, e por isso uma boa alternativa
de comunicação, entre a América do Norte e a do Sul. Não;
foi-se além, e implantou-se ali
um país? Um único
país, o que, vá lá, com boa vontade seria tolerável?
Não; implantaram-se sete países. Sete! Existe até um chamado
Belize. Eles acomodam-se mal, apertados uns contra os outros como num trem de
subúrbio às 6 da tarde, e não é de espantar que,
quando não estão em conflito consigo mesmos, como ocorreu nas
guerras civis de El Salvador e Nicarágua, enfrentam-se uns aos outros,
como na Guerra do Futebol, entre o mesmo El Salvador e nossa espantosa Honduras,
iniciada no estádio em que se enfrentavam, em 1969, as seleções
dos dois países.
O.k., reconheçamos que, caso não houvesse a América
Central, não haveria conflitos que até possuem seu lado recreativo,
infelizmente ensombrecido pela triste circunstância de também levarem
à morte e à devastação, como a Guerra do Futebol.
E caso não houvesse Honduras não haveria um espetáculo
retrô, para encher de conforto a alma de um saudosista, como a deposição manu militari de um presidente, ainda mais que enriquecida por particularidades
como arrancar o presidente do palácio de pijama, levá-lo ao aeroporto
e despejá-lo, sempre de pijama, num país vizinho.
Tais aspectos não compensam o absurdo que é a mera
existência da América Central. O simples fato de haver nações,
com o consequente aparato de fronteiras, exércitos, nacionalismos e xenofobias,
já é questionado pelos mais idealistas. Transportado para a América
Central, o argumento multiplica-se por mil. Se fosse habitada por árabes
e judeus, uns roçando as costas dos outros, ou indianos e paquistaneses,
ou chineses han e chineses uigures, ainda se entenderia caber tanto conflito
em tão exíguo cenário. Não; são países
que falam todos a mesma língua, exceto Belize, são todos cristãos
e possuem composições étnicas iguais, ou quase. A América
Central é uma amostra eloquente da forma, abusiva e abusada, como as
nações brotaram e continuam brotando na face do planeta Terra.
Enquanto isso
Neste outro país aberrante, por outros motivos, que é
o Brasil, os deputados dão um golpe na internet. O projeto de lei eleitoral
aprovado na semana passada pela Câmara amarra as campanhas políticas
pelo novo meio de comunicação na mesma camisa de força
da televisão. Dificultam-se ou proíbem-se os debates, as entrevistas,
as críticas, a controvérsia. A internet é mais arisca,
como se sabe, e a possibilidade de a lei não pegar, pela impossibilidade
de fiscalização, é grande. Em todo caso, está lá,
no papel, esperando agora a aprovação do Senado. A inspiração
central do projeto é reforçar o já velho e vitorioso objetivo
de fazer o eleitor votar às cegas.
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