Revista VEJA
Vida Digital
A nuvem é de tijolos iCLoud
O sistema que armazena todos os arquivos dos aparelhos da Apple,
e que parece etéreo, só é possível porque há conjuntos de servidores
do tamanho de campos de futebol
Alexandre Salvador e Filipe Vilicic
MEMÓRIA A DISTÂNCIA
Jobs em frente a uma foto do novo data center de sua empresa: “Com o iCloud, os PCs e Macs serão apenas dispositivos, não o centro de nossa vida digital”
(Zuma Press)
Nefelibatas são aqueles que vivem com a cabeça nas nuvens. Como adjetivo, a palavra tem, tradicionalmente, conotação pejorativa. Na nova era digital, é preciso rever o que se pretende dizer ao empregá-la. Viver nas nuvens não pode mais ser um sinônimo de viver distraído. Ao contrário, está se tornando condição necessária a quem usa computadores no trabalho ou no lazer — ou seja, 2 bilhões de pessoas. Na chamada computação em nuvem, os arquivos digitais não mais são guardados nos discos rígidos dos computadores — nem, no caso das empresas, em servidores próprios. Eles ficam armazenados em servidores remotos, aos quais se tem acesso pela internet. Assim, não se depende mais da memória do computador e os arquivos estão disponíveis em qualquer lugar, já que as informações não se encontram mais presas a uma só máquina. A nuvem está em formação há anos e já mostrou ser a inovação que vai definir o mundo digital nesta década. Na semana passada, uma contribuição a esse admirável mundo novo foi dada por Steve Jobs, o CEO da Apple. Ele apresentou um novo serviço, o iCloud. Esse é um sistema de armazenamento e sincronização de arquivos, fotos, músicas e aplicativos. Ele guarda nos servidores da Apple, ou seja, na nuvem, tudo o que se carrega em um dos aparelhos produzidos pela empresa, seja um iMac, iPad, iPod ou iPhone, e automaticamente o torna disponível nos outros aparelhos da família ou em PCs. O sistema é sob medida para acabar com uma velha dor de cabeça: aquela que todos têm quando precisam de um arquivo que está em outra máquina ou quando querem ouvir uma música no carro mas o iPod foi esquecido em casa. “Manter os aparelhos eletrônicos sincronizados se tornou uma loucura”, disse Jobs na apresentação. “Com o iCloud, os PCs e Macs serão apenas dispositivos. O centro de nossa vida digital estará nas nuvens”, completou.
O iCloud estará disponível a partir de setembro e vem para substituir o extinto MobileMe, ferramenta de sincronização da Apple, considerada um fiasco pelo próprio Jobs. O MobileMe era um serviço pago (99 dólares anuais), que fazia backup dos contatos, compromissos e e-mails e os sincronizava nos diferentes aparelhos do usuário. Não era disso que as pessoas precisavam. O iCloud vai incorporar esses serviços e adicionará outros, sem custo algum. Qualquer alteração feita em um arquivo é automaticamente registrada pelo sistema, que atualiza a versão disponível na nuvem e a distribui para os aparelhos usados pelo consumidor — desde que tenham a marca Apple ou sejam PCs. Será oferecido gratuitamente um espaço de 5 gigabytes de armazenamento — para isso a Apple conta com três centrais de servidores, a mais recente com 46 500 metros quadrados e cuja construção custou 500 milhões de dólares. Para comparar, isso equivale a encher de computadores uma área correspondente a seis campos de futebol. A nuvem, já se vê pelo gigantismo dessas instalações, é apenas uma figura de linguagem. Para oferecer serviços na nuvem, as empresas usam recursos com alicerces bem sólidos na terra. São enormes data centers, conhecidos como fazendas de servidores, mantidos permanentemente à temperatura de 21 graus. O maior data center da Amazon ocupa um terreno de 65 000 metros quadrados, o equivalente ao terminal de passageiros do Aeroporto de Congonhas.
A idéia de nuvem, em formato ainda rudimentar, data de 1961. O especialista em inteligência artificial John McCarthy, então professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, descreveu um modelo em que centrais forneceriam o processamento e o armazenamento de dados para residências e empresas. A primeira vez em que se falou de computação em nuvem foi em 1997, na formulação de Ramnath Chellappa, hoje professor da Universidade Emory, em Atlanta: “É um paradigma da computação, em que as fronteiras são limitadas por razões econômicas, e não por razões técnicas”. Em termos práticos, a nuvem é a capacidade ociosa de servidores de gigantes, como o Google e a Microsoft, que pode ser emprestada ou vendida a quem quiser usá-la para guardar ou processar seus arquivos digitais e programas de computador. Para as empresas, conservar na nuvem os dados que alimentam seus sistemas significa uma tremenda economia. Primeiro, não é preciso manter uma bateria de servidores, cuja manutenção custa caro. Segundo, não é necessário comprar licenças que apenas parte dos funcionários vai usar. Terceiro, é possível ter acesso a uma velocidade de processamento alta a custo muito baixo. É isso que viabiliza iniciativas como o Facebook, criado por estudantes de Harvard em 2004 e hoje a maior rede social da internet.
A nuvem democratiza as oportunidades de negócios on-line. Ela significa, para as empresas modernas, o que as grandes distribuidoras de eletricidade representaram para as companhias no início do século passado, dispensando-as de manter geradores próprios e oferecendo energia mais barata. No ano passado, Steve Jobs falou sobre o futuro dos computadores, fazendo uma analogia com a indústria automotiva no começo do século passado. “Naquela época, boa parte da população americana vivia no campo, e lá os tratores também eram utilizados como meio de transporte. Com o crescimento das cidades, os carros de passeio ficaram mais populares e se provaram mais úteis para esse uso”, disse o dono da Apple. “Os PCs (computadores de mesa e notebooks) serão esses tratores. Eles continuarão por aqui, mas cumprindo funções específicas e serão a minoria.”
Para o armazenamento de músicas, a Apple fez acordos com as quatro principais gravadoras internacionais, ao custo estimado de 150 milhões de dólares. Isso permitirá que as composições baixadas através do iTunes, a loja virtual de música da Apple, estejam disponíveis simultaneamente em até dez aparelhos. A transferência é feita direto dos servidores da Apple, e não mais de aparelho para aparelho. Nesse terreno, Jobs deu um passo além. O iTunes Match, um serviço pago à parte e que custará 25 dólares anuais, identifica as músicas presentes no acervo que não foram compradas no iTunes — aquelas baixadas de sites ou extraídas de CDs. As músicas que também figurarem no acervo da Apple, que conta com 18 milhões de faixas, serão substituídas por arquivos de maior qualidade e oferecidas nos outros aparelhos. Com isso, a Apple vai até mesmo legalizar músicas que foram baixadas ilegalmente.
A Apple entra com certo atraso em um segmento já dominado pela Amazon, pelo Google e pela Microsoft, pioneiros em hospedar bytes e processar programas de consumidores e empresas em suas nuvens, ou seja, em seus servidores. Mas é uma entrada com barulho, ao estilo de Steve Jobs. Em 2010, a computação em nuvem ficou com apenas 5% do 1,5 trilhão de dólares dos gastos das empresas com tecnologia da informação. O futuro será diferente. Evidentemente, muitas grandes empresas e os governos ainda mantêm desconfiança com relação à nuvem, temendo colocar informações confidenciais em servidores alheios. “Os limites da nuvem ainda precisam ser testados para que se saiba sua real dimensão”, disse a VEJA o cientista da computação Monte Davidoff, um dos primeiros desenvolvedores da Microsoft. As possibilidades abertas pelo armazenamento e processamento a distância, no entanto, fazem da nuvem, como querem Steve Jobs e seus pares, o futuro da computação.
GIGANTE DE AÇO
Fazenda de servidores da Equinix, na Califórnia: informações de grandes empresas mantidas à temperatura constante de 21 graus
(Bob Sacha/Corbis/Latinstock)
Visionários por acaso
Eu acho que há no mundo mercado para talvez cinco computadores.” Essa frase, atribuída a Thomas J. Watson, fundador e presidente da IBM, supostamente dita em 1943, tem lugar de destaque em qualquer antologia de palpites infelizes (ainda que a empresa insista em desmentir que ele alguma vez tenha pronunciado tal besteira). O fim da história é bem conhecido. Quatro décadas mais tarde, a IBM desenvolveu o Personal Computer, o PC, transformando o computador em um produto de consumo em massa. Talvez seja a hora de a IBM mudar de política em relação a seu fundador e passar a vê-lo como um homem de visão além de seu tempo. Em termos globais, as vendas de PC estão em queda. No comparativo entre o primeiro trimestre de 2010 e o de 2011, a redução foi de 1,1% nas vendas. Ainda é cedo para decretar a redução de seu mercado a uns “cinco computadores”, mas a tendência é perfeitamente visível e de fácil explicação. Uma delas é a multiplicação de dispositivos móveis, como os tablets e os smartphones. Com capacidade de processamento e armazenagem suficiente para a necessidade diária da maioria das pessoas, eles tornam quase dispensável o desktop. A computação em nuvem será o golpe final? É curioso, mas o conceito da migração dos dados digitais para um ponto remoto foi descrito por visionários que não mereceram o devido crédito em seu tempo. “A rede é o computador”, era o slogan da Sun Microsystems nos anos 80. Em 2000, Larry Ellison, da Oracle, fundou a New Internet Computer (NIC), que tinha por mote “Um monitor, um teclado e um supercomputador distante”. Não é uma definição perfeita para a computação em nuvem? Sobre isso, disse a VEJA Monte Davidoff, um dos desenvolvedores do Altair Basic, que está entre as primeiras linguagens da Microsoft: “A computação é um círculo. A ideia de nuvem já era empregada nos anos 70, quando computadores gigantes alimentavam terminais que eram usados a distância”. Como o movimento é pendular, pode-se dizer que todo visionário terá seu segundo de relógio parado: em algum mo-mento, ele dará a hora certa.
SUPERCOMPUTADOR DISTANTE
Larry Ellison: visão além de seu tempo
(Matt Brasier/Redux/Latinstock)
PALPITE INFELIZ
Thomas Watson: não viu o grande negócio da própria empresa
(MPI/Archive Photos/Getty Images)


