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Ponto
de vista: Lya Luft
Quero a pena de morte
"Leio que na Espanha descobrem uma rede
de 'estupradores de bebês'. Aqui no Brasil
acabam de flagrar um indivíduo recordista
em matéria de fotos obscenas com crianças.
O que desejar para ele?"
Ilustração Atômica
Studio
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Leio que na Espanha descobrem uma rede de "estupradores de bebês".
Tenho de reler mais de uma vez, pois a mensagem não entra
em meu contexto, minha vida. Uma rede, sim: cúmplices pegam
os bebês, de até 2 ou 3 anos, que são violentados
e submetidos ao que chamam de "humilhações horripilantes".
Para bebês não creio que haja sensação
de humilhação, mas de profundo, excessivo, brutal
terror e sofrimento. E suas mães, seus pais, suas famílias...
E nós, e nós? Olho minhas netas e meu neto menores,
com menos de 3 anos, e descubro que às vezes quero a pena
de morte.
Aqui no Brasil acabam de flagrar um indivíduo
recordista, por estas paragens, em matéria de fotos obscenas
com crianças. O que desejar para ele?
Falhei nesse contexto, e me penitencio: pois
me chamaram para gravar depoimentos sobre violência sexual
e exploração de crianças, e por desencontros
alheios a minha vontade não consegui cumprir o pedido. Mas
leio sobre isso nos jornais, vejo na televisão, conheço
histórias também horripilantes sobre violência
sexual contra crianças e adolescentes em sua própria
família, sem contar os monstros que andam soltos por aí
em nossas desprotegidas ruas.
E quero a pena de morte.
Terroristas explodem mulheres, crianças,
pais de família, estudantes, velhos fragilizados. Se se explodem
junto, problema deles. Mas as crianças, jovens, velhos podiam
ser meus amigos, meus familiares, e, mesmo se não forem,
são meus irmãos nessa estranha e insana raça
humana. Nesse caso, não adianta querer a pena de morte, pois
eles a aplicaram a si mesmos, certos da glória a posteriori...
Não sei que pena eu desejaria para
os ídolos de pés de barro, os santos de pau oco ou
os caras-de-pau escrachados deste país, que se autodenominaram
salvadores da pátria, varões de Plutarco, porta-bandeiras
da esperança dos homens decentes e dos injustiçados
em geral. A pena da humilhação pública? Me
parece que alguns se divertiriam em lugar de se penitenciar. A pena
da perda de cargos, suspensão de direitos? Cadeia nem falo
porque entrariam por uma porta e sairiam pela outra. Do jeito que
as coisas andam, duvido que a idéia os assuste. Se houver
as anunciadas investigações severas e reais, certamente
muitos sairão do país de mansinho, apenas mudando
de endereço, e talvez de idioma, suas trapaças e estripulias.
Lembro uma de minhas avós, suspirando
horrorizada ao ver o que julgava ser modernismos excessivos na minha
adolescência: meninas de calças compridas. E dizia:
"Graças a Deus eu já criei meus filhos". Não
sei bem qual deveria ser agora a minha exclamação
de horror. Talvez: "Em que mundo vivem e vão crescer meus
netos, hoje pequenos e adolescentes?". Ou mais otimista: "Vai ver
isso que hoje me choca é antes fantasia minha do que realidade".
Li inúmeras vezes que séculos
atrás já havia quem suspirasse desse jeito, e afinal
o mundo continuou, a humanidade andou, nascemos e vivemos e morremos.
Embora seja bastante trapalhona, essa humanidade não é
de todo burra: acaba consertando até certo ponto, ou compensando,
as bobajadas ou faltas mais graves que cometeu. Será que
tudo o que nos acontece nestes dias ainda tem conserto, ou será
mais uma vez varrido para debaixo do tapete?
Seja o que for que vai acontecer, nunca mais
seremos os mesmos. Espero que sejamos melhores, mais seguros, mais
confiantes, mais justificadamente orgulhosos deste país.
Lya Luft é escritora
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