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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Discurso da esperança
contra o medo
Dedicado ao presidente
Lula, sem
ônus, e com carinho, para tirar bom
proveito da presente conjuntura
Texto que se oferece ao presidente da República,
para ser dito perante o Congresso Nacional:
"Dois anos e seis meses de mandato bastaram
para me ensinar que o maior antagonismo, neste país, não
é entre direita e esquerda, elite e povo, governo e oposição.
Estou convencido de que mais importante é o antagonismo entre
os honestos e os desonestos, os homens de bem e os escroques. Confesso
que errei. Levado por maus conselheiros, deixei-me jogar nos braços
das más companhias. Teria muito a elaborar, a esse respeito,
e, por que não dizer?, até culpas a confessar, mas
não é esta a hora. O que quero é conclamar
os queridos companheiros congressistas para uma reorganização
de forças neste país. Nunca houve momento tão
propício para isso. Ao mesmo tempo, quero apresentar, para
aprovação em rito sumário, algumas poucas medidas
cujo objetivo é tornar mais difícil a vida dos malfeitores
neste país. Estou convencido de que, também para isso,
nunca houve momento mais propício.
Um dia, quando ainda estava longe do posto
que ocupo, eu disse que o Congresso Nacional tinha 300 picaretas.
Talvez não sejam tantos. Suponhamos que sejam um pouco menos,
só um pouquinho, digamos três a menos. Seriam 297 picaretas.
Ora, Câmara e Senado, somados, têm 594 membros. Se 297
são picaretas, sobram 297 que não são
e essa é uma grande notícia! A esses 297, mais aos
que, do outro lado, por vergonha ou conversão, venham a se
juntar a eles, é que me dirijo. É a eles que peço
que, sem prejuízo de nossas diferenças doutrinárias
nem das disputas eleitorais futuras, me ajudem num extraordinário
mutirão de limpeza do nosso ambiente. De minha parte, acabo
de requisitar à Polícia Federal uma dupla de cães
farejadores, para ficar à porta de meu gabinete. Eles se
encarregarão de farejar políticos que se aproximam
com o intuito de nomear apaniguados para diretor de compras dos
Correios ou para a diretoria da Petrobras que fura poço.
É fácil identificá-los, seguindo um cheiro
que mistura dinheiro guardado em sacola, ante-sala de ministério
e criado-mudo de bordel. Mais fácil ainda será escorraçá-los.
Em acréscimo a essa providência,
aprontei um pacote de normas que reduzirá em 95% os cargos
de livre provimento na administração. Essa é
a primeira medida para a qual lhes peço a aprovação.
Peço a boa vontade dos queridos congressistas também
para a extinção, imediata e irrevogável, das
chamadas emendas individuais ao Orçamento. O Orçamento
tem de ser da nação, não deste ou daquele parlamentar.
Se, com tal medida, o parlamentar perde o direito de atender à
clientela de sua paróquia, eu também perco o poder
de liberá-las só na hora do aperto, quando preciso
que façam ou deixem de fazer certas coisas.
Anunciei outro dia que pretendia desatar a
novela da reforma política e determinei ao ministro da Justiça
que apresentasse em 45 dias um relatório a respeito. Foi
um engano. Apresentar relatório em 45 dias, depois transformá-lo
em projetos, depois levar à discussão isso
é tudo o que eles querem. É convite por que
não dizer? para perpetuar a novela, não para
desatá-la. O momento é este, a hora é já.
O bom jogo se ganha nos primeiros quinze minutos. Foi como a Argentina
ganhou de nós. Já tramitam no Congresso faz tempo
projetos de fidelidade partidária e de financiamento público
de campanha. Que sejam votados de imediato. Também apelo
para que nos mantenhamos alertas contra as tentativas de derrubar
a chamada cláusula de barreira, pela qual, a partir das próximas
eleições, só terão direito a representação
no Parlamento os partidos que obtiverem um mínimo de 5% dos
votos nacionais, distribuídos num mínimo de um terço
dos estados. Outras reformas políticas podem vir depois.
Estas, que impedem o troca-troca partidário, atenuam a praga
dos caixas de campanha e evitam a proliferação dos
partidos, são para ontem.
O programa aqui anunciado é o pontapé
inicial da virada com a qual os homens honrados reagirão,
num jogo em que há tempos estão perdendo. Vamos para
o ataque. Não tem sentido jogar na retranca contra adversário
cujo time tem o ás da extorsão como zagueiro, o driblador
da lei no meio-campo e o rompedor do Erário como centroavante.
Estou convencido de que este é o momento em que poderemos
dar início a uma das mais extraordinárias transformações
de costumes políticos já vistas na face da Terra".
Aos assessores do presidente:
Foram introduzidas palavras e expressões do gosto do presidente
para maior autenticidade da peça. Exemplos: "estou convencido",
"por que não dizer?", "extraordinário", "maior da
face da Terra".
Evitaram-se outras tantas expressões, apesar de igualmente
do gosto do presidente, por desmoralizadas. Exemplo: "cortar na
carne".
O presente texto lhes é ofertado sem ônus. Não
serão cobrados direitos autorais.
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