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Livros Quem
tem medo de James Joyce? Ulisses,
obra-prima do escritor irlandês,
ganha uma nova (e mais fluente) tradução 
Jerônimo Teixeira
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| James Joyce: palavras-valise e psicologia |
James Joyce (1882-1941) é
desses escritores que metem medo. Ao lado do francês Marcel Proust e do
checo Franz Kafka, o irlandês é um dos maiores gênios da literatura
moderna. Mas esse estatuto de clássico convive com a fama de autor inacessível.
Joyce é, de fato, uma leitura exigente mas de modo algum impossível,
como prova a nova tradução de sua mais conhecida obra-prima, Ulisses
(tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro; Objetiva;
912 páginas; 79,90 reais). Professora de literatura aposentada da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, a tradutora trabalhou sete anos para verter para o
português a verdadeira enciclopédia lingüística que é
a obra de Joyce. E espera que o leitor encontre em seu Ulisses uma propriedade
que não é comumente atribuída ao romance: diversão.
"O livro tem episódios hilários. Traduzindo, eu dava risada sozinha",
diz Bernardina. A influência de Ulisses
sobre a literatura moderna é imensa. Entre outras realizações
fundamentais, Joyce consolidou a técnica que ficaria conhecida como "fluxo
de consciência" forma narrativa que busca seguir livremente a linha
tortuosa do pensamento das personagens. Ao mesmo tempo, Ulisses é
uma obra sem herdeiros. Sua inventividade não encontra paralelo em nenhum
escritor posterior, embora tenha sido reivindicada pelas mais diversas vanguardas
como, no Brasil, a poesia concreta. Em 1962, os irmãos Augusto e
Haroldo de Campos, líderes do movimento, já traduziam excertos de
Finnegans Wake, o último e mais radical livro de Joyce. Em certa
medida, os concretistas pautaram o modo como o irlandês seria lido no país:
como um mestre da "minúcia artesanal da linguagem" e como alguém
cuja obra tornava ultrapassadas formas de narração mais convencionais.
Joyce era mesmo um portento lingüístico mas também foi
muito mais do que o proselitismo dos manifestos concretos fazia supor: um psicólogo
consumado e um cronista acurado da vida urbana. Nem é preciso dizer que
ele não é o ponto final da história do romance.
Elogiada (com reparos) por Augusto de Campos quando foi lançada em 1966,
a tradução realizada pelo filólogo Antônio Houaiss
era até hoje a única alternativa para o leitor brasileiro que desejasse
se aventurar por Ulisses. Pioneiro em língua portuguesa (Portugal
só produziria sua tradução em 1989), o Ulisses de
Houaiss ainda se sai melhor na recriação das "palavras-valise" criadas
por Joyce condensações de duas ou mais palavras em um só
vocábulo, como, por exemplo, "bovinamigo" ("protetor-de-novilho", na versão
pálida de Bernardina). Mas o filólogo também cometeu alguns
erros crassos (veja quadro).
Mais grave, seu texto erudito traz um tom empolado. A linguagem das ruas,
que Joyce reproduziu com uma vitalidade ímpar, morre na mão de Houaiss.
Bernardina recuperou essa coloquialidade, produzindo um Ulisses de leitura
mais fluida. O romance transcorre em Dublin, na
Irlanda, em um único dia, 16 de junho de 1904. Ao longo dessas inesgotáveis
24 horas, a obra acompanha as andanças e as elucubrações
do jovem poeta Stephen Dedalus protagonista do romance anterior de Joyce,
Retrato do Artista Quando Jovem e de Leopold Bloom, judeu cristianizado
que vive de intermediar anúncios publicitários entre as casas de
comércio e os jornais. Esses dois protagonistas são complementados
por Molly, a mulher adúltera de Bloom a quem cabe o magnífico
monólogo que encerra o livro , e por uma galeria imensa de figuras
secundárias de Dublin, na mais vigorosa representação literária
que já se fez de uma cidade. Em torno da
vida cotidiana de Dublin, Joyce (que preferiu morar na Europa continental) teceu
uma profusão de referências históricas, filosóficas,
literárias. Criou também intrincadas correspondências com
a Odisséia, poema épico do grego Homero que narra a viagem
de dez anos do guerreiro Ulisses em seu retorno da Guerra de Tróia. Na
maior parte, são aproximações paródicas. No entanto,
será enganoso imaginar que Joyce produziu uma versão modernizada
e "decadente" do épico homérico. Bloom, o Ulisses de Dublin, ainda
conserva seu estofo heróico. O romance apresenta o protagonista nas mais
comezinhas circunstâncias defecando ou se masturbando em uma praia.
E mesmo assim ele guarda uma inteireza de caráter que só Stephen
Dedalus (e, em certa medida, Molly) é capaz de reconhecer. Ulisses não
é apenas um feito de criatividade lingüística. O leitor que
atravessar suas 900 páginas conhecerá alguns dos personagens mais
complexos e humanos da literatura moderna.

 Fotos
Leonardo Aversa/Ag. O Globo/Irineu Barreto Filho | |