Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Livros
Quem tem medo
de James Joyce?

Ulisses, obra-prima do escritor irlandês,
ganha uma nova (e mais fluente) tradução


Jerônimo Teixeira


James Joyce: palavras-valise e psicologia


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Trecho do livro

James Joyce (1882-1941) é desses escritores que metem medo. Ao lado do francês Marcel Proust e do checo Franz Kafka, o irlandês é um dos maiores gênios da literatura moderna. Mas esse estatuto de clássico convive com a fama de autor inacessível. Joyce é, de fato, uma leitura exigente – mas de modo algum impossível, como prova a nova tradução de sua mais conhecida obra-prima, Ulisses (tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro; Objetiva; 912 páginas; 79,90 reais). Professora de literatura aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a tradutora trabalhou sete anos para verter para o português a verdadeira enciclopédia lingüística que é a obra de Joyce. E espera que o leitor encontre em seu Ulisses uma propriedade que não é comumente atribuída ao romance: diversão. "O livro tem episódios hilários. Traduzindo, eu dava risada sozinha", diz Bernardina.

A influência de Ulisses sobre a literatura moderna é imensa. Entre outras realizações fundamentais, Joyce consolidou a técnica que ficaria conhecida como "fluxo de consciência" – forma narrativa que busca seguir livremente a linha tortuosa do pensamento das personagens. Ao mesmo tempo, Ulisses é uma obra sem herdeiros. Sua inventividade não encontra paralelo em nenhum escritor posterior, embora tenha sido reivindicada pelas mais diversas vanguardas – como, no Brasil, a poesia concreta. Em 1962, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, líderes do movimento, já traduziam excertos de Finnegans Wake, o último e mais radical livro de Joyce. Em certa medida, os concretistas pautaram o modo como o irlandês seria lido no país: como um mestre da "minúcia artesanal da linguagem" e como alguém cuja obra tornava ultrapassadas formas de narração mais convencionais. Joyce era mesmo um portento lingüístico – mas também foi muito mais do que o proselitismo dos manifestos concretos fazia supor: um psicólogo consumado e um cronista acurado da vida urbana. Nem é preciso dizer que ele não é o ponto final da história do romance.

Elogiada (com reparos) por Augusto de Campos quando foi lançada em 1966, a tradução realizada pelo filólogo Antônio Houaiss era até hoje a única alternativa para o leitor brasileiro que desejasse se aventurar por Ulisses. Pioneiro em língua portuguesa (Portugal só produziria sua tradução em 1989), o Ulisses de Houaiss ainda se sai melhor na recriação das "palavras-valise" criadas por Joyce – condensações de duas ou mais palavras em um só vocábulo, como, por exemplo, "bovinamigo" ("protetor-de-novilho", na versão pálida de Bernardina). Mas o filólogo também cometeu alguns erros crassos (veja quadro). Mais grave, seu texto erudito traz um tom empolado. A linguagem das ruas, que Joyce reproduziu com uma vitalidade ímpar, morre na mão de Houaiss. Bernardina recuperou essa coloquialidade, produzindo um Ulisses de leitura mais fluida.

O romance transcorre em Dublin, na Irlanda, em um único dia, 16 de junho de 1904. Ao longo dessas inesgotáveis 24 horas, a obra acompanha as andanças e as elucubrações do jovem poeta Stephen Dedalus – protagonista do romance anterior de Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem – e de Leopold Bloom, judeu cristianizado que vive de intermediar anúncios publicitários entre as casas de comércio e os jornais. Esses dois protagonistas são complementados por Molly, a mulher adúltera de Bloom – a quem cabe o magnífico monólogo que encerra o livro –, e por uma galeria imensa de figuras secundárias de Dublin, na mais vigorosa representação literária que já se fez de uma cidade.

Em torno da vida cotidiana de Dublin, Joyce (que preferiu morar na Europa continental) teceu uma profusão de referências históricas, filosóficas, literárias. Criou também intrincadas correspondências com a Odisséia, poema épico do grego Homero que narra a viagem de dez anos do guerreiro Ulisses em seu retorno da Guerra de Tróia. Na maior parte, são aproximações paródicas. No entanto, será enganoso imaginar que Joyce produziu uma versão modernizada e "decadente" do épico homérico. Bloom, o Ulisses de Dublin, ainda conserva seu estofo heróico. O romance apresenta o protagonista nas mais comezinhas circunstâncias – defecando ou se masturbando em uma praia. E mesmo assim ele guarda uma inteireza de caráter que só Stephen Dedalus (e, em certa medida, Molly) é capaz de reconhecer. Ulisses não é apenas um feito de criatividade lingüística. O leitor que atravessar suas 900 páginas conhecerá alguns dos personagens mais complexos e humanos da literatura moderna.



Fotos Leonardo Aversa/Ag. O Globo/Irineu Barreto Filho

 
 
 
 
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