Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Cultura
Obras do acaso

Peças inéditas de Bach, Dumas
e Edvard Munch vêm à luz numa
semana de fazer história

 

David Hecker/AP
O "novo" Munch: desde 1898 sob outra tela

A semana passada vai ficar na história da arte. Num espaço de poucos dias, revelaram-se obras inéditas ou perdidas de três grandes mestres: o compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) e o escritor francês Alexandre Dumas (1802-1870). Trata-se de uma situação atípica, pela quantidade de descobertas e pelo calibre de seus autores. Mas ela faz pensar naquela que é a possibilidade mais embriagadora para um pesquisador: topar com um achado de valor. O que acontece com alguma freqüência. A Europa produziu volumes incalculáveis de arte. Apenas catalogar todo esse material já seria uma tarefa sobre-humana. São famosos os porões de museus como o Britânico, o Louvre e o do Vaticano, repletos de peças que nenhum especialista teve ainda tempo de examinar. E a tumultuada história do continente criou outros enigmas: guerras e perseguições fizeram com que fortunas e bens fossem incontáveis vezes surripiados, escondidos, destruídos ou simplesmente perdidos.

Cada uma das obras trazidas à tona na semana passada exemplifica, à sua maneira, os caminhos prováveis para que se chegue a novas descobertas. A pequena cantata para soprano e cravo composta por Bach em 1713, para o aniversário de seu mecenas, surgiu do acaso. Estava havia três séculos numa caixa de sapatos, tirada de uma biblioteca pouco antes que esta fosse consumida por um incêndio. Levada para o Acervo Bach, na cidade de Leipzig, a caixa atraiu a atenção do pesquisador Michael Maul, que encontrou em seu interior a peça inédita. O quadro de Munch, por sua vez, mostra a valia das novas técnicas de análise e autenticação de obras de arte. Intitulado Moça e Cabeças de Três Homens, ele estava desde 1898 oculto sob A Mãe Morta, outra tela do próprio pintor (cujo célebre O Grito foi roubado no ano passado). Ao ser levada para restauro, a tela revelou seu segredo. "É provável que Munch não tivesse outra moldura à mão", arrisca a historiadora Barbara Nierhoff, do Museu Kunsthalle de Bremen, na Alemanha, onde a pintura ficará exposta. Já o novo romance de Dumas surgiu da pesquisa metódica. O francês Claude Schopp, estudioso do autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, examinava suas cartas quando deparou com uma menção ao livro – que fora publicado em capítulos semanais num jornal, em 1869, e então caíra no esquecimento. Schopp recuperou os jornais, revisou os capítulos e acrescentou a eles um desfecho, que Dumas não teve tempo de escrever. Intitulado O Cavaleiro de Saint-Hermine, o derradeiro escrito de Dumas trata do assassino (fictício, no caso) almirante Horatio Nelson, herói britânico das guerras napoleônicas. Publicado pela primeira vez em forma de livro 135 anos após a morte de seu autor, já está despertando o interesse dos produtores de cinema.

 

Achados preciosos

Johann Sebastian Bach (1685-1750)
Na terça passada, anunciou-se a descoberta de uma cantata do compositor barroco. Por três séculos, ela esteve escondida numa caixa de sapatos

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Um trabalho inédito do compositor austríaco foi encontrado em 2001. Ao consultar um arquivo na inglaterra, uma pesquisadora topou com o manuscrito por acaso

Alexandre Dumas (1802-1870)
Publicado apenas num jornal no século XIX, um romance desconhecido do escritor francês foi recuperado depois que se descobriu uma menção a ele numa carta

Peter Paul Rubens (1577-1640)
Atribuída erroneamente a um pintor menor, a tela O Massacre dos Inocentes ficou décadas mofando num mosteiro. Redescoberta, foi leiloada por 76 milhões de dólares

 
 
 
 
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