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Cultura Obras
do acaso Peças inéditas de Bach, Dumas
e Edvard Munch vêm à luz numa semana de fazer história
David
Hecker/AP
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"novo" Munch: desde 1898 sob outra tela |
A
semana passada vai ficar na história da arte. Num espaço de poucos
dias, revelaram-se obras inéditas ou perdidas de três grandes mestres:
o compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), o pintor norueguês
Edvard Munch (1863-1944) e o escritor francês Alexandre Dumas (1802-1870).
Trata-se de uma situação atípica, pela quantidade de descobertas
e pelo calibre de seus autores. Mas ela faz pensar naquela que é a possibilidade
mais embriagadora para um pesquisador: topar com um achado de valor. O que acontece
com alguma freqüência. A Europa produziu volumes incalculáveis
de arte. Apenas catalogar todo esse material já seria uma tarefa sobre-humana.
São famosos os porões de museus como o Britânico, o Louvre
e o do Vaticano, repletos de peças que nenhum especialista teve ainda tempo
de examinar. E a tumultuada história do continente criou outros enigmas:
guerras e perseguições fizeram com que fortunas e bens fossem incontáveis
vezes surripiados, escondidos, destruídos ou simplesmente perdidos.
Cada uma das obras trazidas à tona na semana passada exemplifica, à
sua maneira, os caminhos prováveis para que se chegue a novas descobertas.
A pequena cantata para soprano e cravo composta por Bach em 1713, para o aniversário
de seu mecenas, surgiu do acaso. Estava havia três séculos numa caixa
de sapatos, tirada de uma biblioteca pouco antes que esta fosse consumida por
um incêndio. Levada para o Acervo Bach, na cidade de Leipzig, a caixa atraiu
a atenção do pesquisador Michael Maul, que encontrou em seu interior
a peça inédita. O quadro de Munch, por sua vez, mostra a valia das
novas técnicas de análise e autenticação de obras
de arte. Intitulado Moça e Cabeças de Três Homens,
ele estava desde 1898 oculto sob A Mãe Morta, outra tela do próprio
pintor (cujo célebre O Grito foi roubado no ano passado). Ao ser
levada para restauro, a tela revelou seu segredo. "É provável que
Munch não tivesse outra moldura à mão", arrisca a historiadora
Barbara Nierhoff, do Museu Kunsthalle de Bremen, na Alemanha, onde a pintura ficará
exposta. Já o novo romance de Dumas surgiu da pesquisa metódica.
O francês Claude Schopp, estudioso do autor de Os Três Mosqueteiros
e O Conde de Monte Cristo, examinava suas cartas quando deparou com uma
menção ao livro que fora publicado em capítulos semanais
num jornal, em 1869, e então caíra no esquecimento. Schopp recuperou
os jornais, revisou os capítulos e acrescentou a eles um desfecho, que
Dumas não teve tempo de escrever. Intitulado O Cavaleiro de Saint-Hermine,
o derradeiro escrito de Dumas trata do assassino (fictício, no caso) almirante
Horatio Nelson, herói britânico das guerras napoleônicas. Publicado
pela primeira vez em forma de livro 135 anos após a morte de seu autor,
já está despertando o interesse dos produtores de cinema.
Achados preciosos Johann
Sebastian Bach (1685-1750) Na terça passada, anunciou-se a descoberta
de uma cantata do compositor barroco. Por três séculos, ela esteve
escondida numa caixa de sapatos Wolfgang Amadeus
Mozart (1756-1791) Um trabalho inédito do compositor austríaco
foi encontrado em 2001. Ao consultar um arquivo na inglaterra, uma pesquisadora
topou com o manuscrito por acaso Alexandre Dumas
(1802-1870) Publicado apenas num jornal no século XIX, um romance
desconhecido do escritor francês foi recuperado depois que se descobriu
uma menção a ele numa carta Peter
Paul Rubens (1577-1640) Atribuída erroneamente a um pintor menor,
a tela O Massacre dos Inocentes ficou décadas mofando num mosteiro.
Redescoberta, foi leiloada por 76 milhões de dólares |
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