Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Medicina
Para prevenir e remediar

Novas vacinas apresentam perspectivas
animadoras no combate a doenças
de difícil controle e tratamento


Paula Neiva

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagem sobre os principais vírus (13/4/2005)

As vacinas estão entre as frentes de pesquisa mais promissoras da medicina. A proteção proporcionada por elas mudou o curso das doenças. Graças às imunizações, a varíola foi erradicada mundialmente em 1980 e o Brasil não registra um só caso de poliomielite desde 1989. As vacinas servem tanto para o tratamento quanto para a prevenção de doenças. O princípio é o mesmo: fortalecer o sistema imunológico. Quando usadas de maneira preventiva, elas preparam as defesas do organismo para que reajam ao ataque de um agente infeccioso. Se utilizadas de forma terapêutica, as vacinas têm por objetivo estimular a imunidade orgânica e assim controlar ou debelar uma doença. Nos últimos vinte anos, a tecnologia envolvida na confecção das vacinas foi aprimorada. Dessa forma, as imunizações ficaram mais eficazes e seguras. Além disso, graças aos avanços na biologia molecular, hoje já se experimentam vacinas para males contra os quais até pouco tempo atrás havia pouco ou nada a fazer, como é o caso do rotavírus e do HPV.

Herpes-zoster
Provocado pelo mesmo vírus da catapora (varicella-zoster), o herpes-zoster afeta cerca de 1% da população adulta. A doença se manifesta por feridas na pele e dores lancinantes, que podem se prolongar por mais de seis meses. Um estudo publicado neste mês na revista científica The New England Journal of Medicine analisou, por mais de três anos, cerca de 40 000 pessoas com 60 anos ou mais, divididas em dois grupos. Um deles recebeu doses de uma nova vacina, 100 vezes mais potente do que a usada contra a catapora. No grupo imunizado, a incidência da doença se mostrou 51% menor e os episódios de dor foram reduzidos em 66%. Fabricada pelo laboratório Merck & Co., a vacina contra o herpes-zoster deve chegar ao mercado em 2007.

Rotavírus
Está previsto para este ano o lançamento no Brasil de uma vacina contra o rotavírus, agente causador de quadros graves de diarréia, o que pode levar à morte por desidratação. Desenvolvida pelo laboratório Glaxo, ela será administrada oralmente, em duas doses. Feita a partir de uma versão atenuada do vírus, a vacina preveniu até 90% dos casos graves de desidratação causada pelo agente da doença. A expectativa é que a vacina contribua para baixar em até 25% a mortalidade infantil por diarréia, a segunda causa de mortes de crianças no mundo. A única vacina disponível contra o rotavírus foi retirada do mercado em 1999, por levar à obstrução intestinal. Outra vacina, do laboratório Merck & Co., deve chegar ao mercado em 2007.

Gripe
Ainda que não se tenha conseguido formular uma vacina capaz de dar conta de todas as variações do vírus da gripe, a medicina busca aprimorar as imunizações disponíveis. Uma novidade é a vacina inalável. Como o vírus influenza ataca sobretudo as vias aéreas, os pesquisadores investem em vacinas inaláveis, que, além de ganhar a circulação sanguínea, protegem mais diretamente a mucosa do aparelho respiratório. Uma delas foi lançada nos Estados Unidos há dois anos e se mostrou eficaz em 93% dos casos. Seu uso é restrito a crianças a partir de 5 anos e adultos de até 49 anos. Os especialistas dizem que ainda faltam estudos sobre a segurança da vacina em crianças e idosos – as principais vítimas da gripe.

Ebola e Marburg
O Ebola e o Marburg estão entre os vírus mais violentos de que se tem conhecimento. Neste ano, um surto de Marburg em Angola, na África, provocou cerca de 350 mortes. Ambos os vírus são transmitidos por secreções – como saliva, sangue e fezes – de pessoas contaminadas. Em poucas semanas, deflagram sintomas parecidos, culminando num processo hemorrágico generalizado, que mata cerca de 90% dos infectados. Neste mês, pesquisadores canadenses e americanos divulgaram os resultados positivos dos testes em macacos com duas vacinas – uma contra o Ebola, outra contra o Marburg. Elas são feitas a partir dos vírus das doenças inativados e modificados. O próximo passo é testar as vacinas em seres humanos, o que só deve ocorrer dentro de cinco anos.

HPV
Uma pesquisa publicada recentemente apresentou dados promissores da primeira vacina contra o vírus papiloma humano, o HPV. A infecção pelo HPV é a doença viral sexualmente transmissível mais comum e está relacionada a quase todos os casos de câncer de colo de útero – o segundo tipo de tumor maligno mais freqüente entre as brasileiras. A vacina utiliza uma proteína encontrada na superfície do vírus que, em contato com o organismo, estimula a produção de anticorpos específicos contra o HPV. A imunização requer três doses e seu efeito dura, estima-se, até quatro anos. Essa vacina está prevista para chegar ao Brasil em meados do ano que vem.

HIV
A criação de uma vacina antiaids é um dos maiores desafios da medicina. Já foi testada mais de uma centena de produtos, com diversos mecanismos de ação, mas nenhum deles apresentou resultados satisfatórios. As tentativas continuam tanto para a prevenção quanto para o desenvolvimento de vacinas terapêuticas que estimulem o ataque dos anticorpos contra o HIV. Vários fatores prejudicam essa busca, como a incrível capacidade de mutação do vírus HIV. Para escapar dos ataques do sistema imunológico, o vírus se aloja na principal célula de defesa do organismo, o que dificulta sua identificação e destruição.

 

Esta reportagem teve como consultores os médicos Alexandre Linhares,
Calil Farhat, David Uip, Jessé Alves e Jorge Kalil

 
 
 
 
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