Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Medicina
Um novo gatilho

Médicos canadenses advertem: a
depressão aumenta o risco de uma
pessoa sofrer de diabetes


Giuliana Bergamo

Antonio Milena
"Há um ano descobri que, além de depressão, sofria também de diabetes. Foi um susto tremendo. Desde então, passei a seguir rigorosamente os dois tratamentos. Além disso, mudei também meus hábitos de vida. Hoje, consigo conviver bem com ambas as doenças. Mas é só ter uma crise de stress que os meus níveis de glicose sobem bastante."
Flora Burd, de 51 anos
DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre a doença
Controle mais rígido (19/11/2003)
Diabetes — o inimigo oculto (29/1/2003)
Ilhotas da cura (24/5/2000)
O fim da picada (1/12/1999)


Médicos da Universidade de Alberta, no Canadá, acabam de identificar um novo fator de risco para o diabetes tipo 2. Em artigo publicado na revista científica Diabetes Care, eles mostram que a depressão pode elevar em até 25% a probabilidade de alguém vir a sofrer do mal do excesso de glicose no sangue. Obtidos a partir da análise do histórico clínico de cerca de 30.000 homens e mulheres entre 20 e 50 anos, os resultados do trabalho canadense são alarmantes. Afinal de contas, a depressão e o diabetes tipo 2 estão entre as mais comuns e mais graves doenças crônicas da modernidade. Quando uma serve de gatilho para a outra, o perigo aumenta. Nos últimos vinte anos, o número de diabéticos tipo 2 sextuplicou. Pulou de 30 milhões para 170 milhões, em todo o mundo. E, segundo a Organização Mundial de Saúde, 17% da população mundial sofrerá de depressão, pelo menos uma vez, ao longo da vida. "O estudo de Alberta deve servir de alerta para que se adotem medidas preventivas contra o diabetes no tratamento de pacientes deprimidos", diz o endocrinologista Ricardo Botticini Peres, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Os especialistas canadenses não conseguiram estabelecer uma conexão direta de causa e efeito entre os dois males. Mas levantaram três hipóteses para explicar por que a depressão pode deflagrar o diabetes tipo 2. Os fatores podem se manifestar tanto isolada quanto concomitantemente. Pessoas deprimidas tendem à prostração e, conseqüentemente, abandonam os cuidados com a própria saúde. Ou seja, ficam mais sedentárias e passam a se alimentar de maneira inadequada, abusando sobretudo dos doces. Como resultado, engordam. Há que levar em conta ainda que o ganho de peso é um dos efeitos colaterais mais comuns da imensa maioria dos antidepressivos. Seis em cada dez pacientes deprimidos, depois de um ano de tratamento medicamentoso, estão 20% mais pesados.

De todos os fatores de risco para o diabetes tipo 2, a obesidade é o mais importante deles – 80% dos doentes pesam além do tolerável. O excesso de células adiposas faz com que o organismo se torne resistente à ação do hormônio insulina. A insulina é a responsável pela entrada nas células da glicose, a principal fonte de energia para o corpo humano. Quando a insulina não consegue cumprir seu trabalho, os níveis de glicose no sangue aumentam. Sem tratamento, o diabetes pode até matar. Entre suas complicações mais nefastas estão: infarto, derrame, cegueira, impotência sexual, insuficiência renal crônica e amputação de pés e pernas.

Outra grande ameaça para o surgimento do diabetes tipo 2 é o stress. Quando um organismo é submetido a períodos de muita tensão, angústia e ansiedade, ocorre uma liberação exagerada na corrente sanguínea de três hormônios – cortisol, adrenalina e noradrenalina. Sob o bombardeio constante desses hormônios, o metabolismo se desequilibra. Uma das conseqüências é que a glicose permanece na corrente sanguínea – o primeiro passo para o diabetes tipo 2. É por isso que as vítimas de situações de muito stress, com grande desgaste emocional, podem se tornar diabéticas. Há também uma relação entre stress, depressão e diabetes. "Quando uma pessoa já está deprimida, ela fica muito mais vulnerável à ação dos hormônios do stress do que alguém que não sofre de depressão", diz o psiquiatra Ricardo Moreno, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ou seja, em muitos casos a depressão serve de gatilho para o diabetes tipo 2 em decorrência do stress.

Há cerca de três anos, a comerciante paulistana Flora Burd, de 51 anos, começou a apresentar sintomas de depressão. Sentia-se extremamente cansada, irritada, sem energia nem ânimo para realizar tarefas rotineiras. Flora começou a tomar antidepressivos, mas, no início de 2004, um problema de saúde na família agravou sua depressão. As doses dos remédios aumentaram. Nada, porém, conseguia controlar as crises de enjôo, falta de apetite e fadiga profunda. Feita uma bateria de exames, Flora descobriu que tinha diabetes tipo 2. Desde então, ela tenta conviver com as duas doenças ao mesmo tempo. Graças aos antidepressivos, psicoterapia, injeções de insulina, exercícios físicos e um controle rigoroso da alimentação, Flora tem se saído bem.

 

Relação estreita

16 milhões
de brasileiros têm diabetes tipo 2

As vítimas do diabetes tipo 2 têm 2 vezes mais probabilidade de sofrer de depressão


36 milhões
de brasileiros sofrem de depressão

Pessoas com depressão têm 25% a mais de risco de desenvolver o diabetes tipo 2

 

Por que a depressão pode levar ao diabetes

Ganho de peso pelo consumo de antidepressivos

Sedentarismo devido à prostração provocada pela doença

Stress associado a muitos casos de depressão

Fonte: Ricardo Botticini Peres, endocrinologista

 
 
 
 
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