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Decoração
Força da natureza A
madeira rústica, marcada, queimada e irregular ganha espaço
dentro e fora de casa 
Bel Moherdaui
Hugo Frange  | Divulgação
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corretos: ofurô para dez pessoas escavado no tronco e casa feita com eucalipto
de reflorestamento e piso de demolição |
Por alguns períodos, bem recentes,
ela pareceu literalmente extinta: vidro, concreto, materiais sintéticos
e tudo o que fosse polido, brilhante ou frio expulsaram a madeira para detalhes
remotos das casas. Mas a força da natureza ressurgiu para corrigir os excessos
do minimalismo ou do tecnológico. No lugar de amplos espaços vazios,
brancos e gelados, o que se vê agora nos ambientes da moda é o conforto
visual, térmico, acústico e tátil da madeira, que do piso
foi se espalhando pelos móveis e, por fim, subiu literalmente pelas paredes.
"A madeira aquece, dá um toque de natureza em espaços mais limpos
e contemporâneos. Funciona como contraponto quando combinada com o aço
inox e o vidro, por exemplo", diz a arquiteta paulista Fernanda Marques. Quanto
mais rústica, melhor. No mobiliário ganham destaque as peças
que trabalham a madeira maciça, de preferência acompanhando o formato
natural de troncos e raízes. Na Casa Cor, mostra de tendências da
arquitetura e decoração que acontece em São Paulo, quinze
ambientes trazem alguma peça nesse estilo.
Otavio Dias  |
| Poltrona de pequi do gaúcho Hugo França:
esculpida com motosserra, é escultura e móvel em uma única peça |
Os mais notáveis são os do designer gaúcho Hugo França,
uma verdadeira explosão de força bruta sutilmente conduzida para
produzir peças em que a integração entre forma e função
é total. França é o maior expoente do trabalho com madeiras
maciças que segue os vãos e desvãos criados pela própria
natureza. Seus móveis-esculturas podem ser usados como mesas, cadeiras,
poltronas e bancos. Já fez até um extraordinário ofurô
para nada menos que dez pessoas, com hidromassagem, banquinho e apoio para os
pés, a partir de um enorme toco abandonado. O processo, que o designer
iniciou em Trancoso há cerca de dez anos, começa com um garimpo
pela Mata Atlântica atrás de restos mortais do pequizeiro que tenham
resistido ao desmatamento e às queimadas, heróis da resistência
tombados no chão ou ainda com as marcas do fogo. Ali mesmo, ao ar livre,
França marca com giz a forma que a motosserra vai esculpir no tronco. "Tento
respeitar o formato da madeira, interferindo o menos possível, recuperando
os defeitos da árvore. Quero um produto que guarde uma grande referência
da mata, do desgaste que a árvore sofreu ao longo do tempo", explica França,
que já vende nos Estados Unidos e na Europa.
Para aqueles que não podem gastar de 3.000 a 30.000 reais com um móvel
admirável, mas não muito utilitário, a opção
mais realista é a madeira de demolição. Reaproveitada do
material encontrado em casarões e depósitos antigos, costuma trazer
marcas do uso, buraquinhos, rachaduras, frestas e irregularidades que aos olhos
dos leigos parecem defeitos, mas para os entendidos dão charme extra. "De
dez obras que fazemos, em oito dá-se preferência ao assoalho de demolição.
Além de ser mais rústico, sua manutenção é
mais prática, não risca e não marca", elogia Angela Lima,
diretora de marketing de uma empresa especializada em madeira, de São Paulo.
O uso em assoalhos é o mais óbvio, mas a madeira de demolição
ganha um charme extra no revestimento de paredes e teto. A idéia não
é relembrar chalés suíços ou cabanas nativas, mas
usar a madeira de modo criativo e sofisticado. Um exemplo é a enorme porta
de madeira, reciclada de um antigo assoalho, criada pela arquiteta Flávia
Ralston na estrutura da casa, ela instalou troncos inteiros de eucalipto
de reflorestamento, resistente e ecologicamente correto. "Como dizem os irmãos
Campana, o rústico não é tosco", defende Flávia. "Mais
ainda: pode ser contemporâneo." |