Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Decoração
Força da natureza

A madeira rústica, marcada,
queimada e irregular ganha
espaço dentro e fora de casa


Bel Moherdaui


Hugo Frange
Divulgação
Ecologicamente corretos: ofurô para dez pessoas escavado no tronco e casa feita com eucalipto de reflorestamento e piso de demolição

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Making of das peças

Por alguns períodos, bem recentes, ela pareceu literalmente extinta: vidro, concreto, materiais sintéticos e tudo o que fosse polido, brilhante ou frio expulsaram a madeira para detalhes remotos das casas. Mas a força da natureza ressurgiu para corrigir os excessos do minimalismo ou do tecnológico. No lugar de amplos espaços vazios, brancos e gelados, o que se vê agora nos ambientes da moda é o conforto visual, térmico, acústico e tátil da madeira, que do piso foi se espalhando pelos móveis e, por fim, subiu literalmente pelas paredes. "A madeira aquece, dá um toque de natureza em espaços mais limpos e contemporâneos. Funciona como contraponto quando combinada com o aço inox e o vidro, por exemplo", diz a arquiteta paulista Fernanda Marques. Quanto mais rústica, melhor. No mobiliário ganham destaque as peças que trabalham a madeira maciça, de preferência acompanhando o formato natural de troncos e raízes. Na Casa Cor, mostra de tendências da arquitetura e decoração que acontece em São Paulo, quinze ambientes trazem alguma peça nesse estilo.

Otavio Dias
Poltrona de pequi do gaúcho Hugo França: esculpida com motosserra, é escultura e móvel em uma única peça


Os mais notáveis são os do designer gaúcho Hugo França, uma verdadeira explosão de força bruta sutilmente conduzida para produzir peças em que a integração entre forma e função é total. França é o maior expoente do trabalho com madeiras maciças que segue os vãos e desvãos criados pela própria natureza. Seus móveis-esculturas podem ser usados como mesas, cadeiras, poltronas e bancos. Já fez até um extraordinário ofurô para nada menos que dez pessoas, com hidromassagem, banquinho e apoio para os pés, a partir de um enorme toco abandonado. O processo, que o designer iniciou em Trancoso há cerca de dez anos, começa com um garimpo pela Mata Atlântica atrás de restos mortais do pequizeiro que tenham resistido ao desmatamento e às queimadas, heróis da resistência tombados no chão ou ainda com as marcas do fogo. Ali mesmo, ao ar livre, França marca com giz a forma que a motosserra vai esculpir no tronco. "Tento respeitar o formato da madeira, interferindo o menos possível, recuperando os defeitos da árvore. Quero um produto que guarde uma grande referência da mata, do desgaste que a árvore sofreu ao longo do tempo", explica França, que já vende nos Estados Unidos e na Europa.

Para aqueles que não podem gastar de 3.000 a 30.000 reais com um móvel admirável, mas não muito utilitário, a opção mais realista é a madeira de demolição. Reaproveitada do material encontrado em casarões e depósitos antigos, costuma trazer marcas do uso, buraquinhos, rachaduras, frestas e irregularidades que aos olhos dos leigos parecem defeitos, mas para os entendidos dão charme extra. "De dez obras que fazemos, em oito dá-se preferência ao assoalho de demolição. Além de ser mais rústico, sua manutenção é mais prática, não risca e não marca", elogia Angela Lima, diretora de marketing de uma empresa especializada em madeira, de São Paulo. O uso em assoalhos é o mais óbvio, mas a madeira de demolição ganha um charme extra no revestimento de paredes e teto. A idéia não é relembrar chalés suíços ou cabanas nativas, mas usar a madeira de modo criativo e sofisticado. Um exemplo é a enorme porta de madeira, reciclada de um antigo assoalho, criada pela arquiteta Flávia Ralston – na estrutura da casa, ela instalou troncos inteiros de eucalipto de reflorestamento, resistente e ecologicamente correto. "Como dizem os irmãos Campana, o rústico não é tosco", defende Flávia. "Mais ainda: pode ser contemporâneo."

 
 
 
 
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