|
|
Família Um
é pouco, dois é bom, três pode ser demais
Pesquisas mostram que os casais não estão preparados para
a chegada do primeiro bebê  Roberta
Salomone
O quarto está lindo, as roupinhas
foram compradas com todo o carinho, o chá-de-fraldas foi um sucesso e os
pais estão, naturalmente, muito felizes com o nascimento do primeiro rebento.
Ele é saudável, uma graça, tem os olhos do pai, o queixo
da mãe e sua chegada parece ser o início da felicidade eterna. No
entanto, ao chegar em casa, o pimpolho transforma o lar doce lar num caos. Entre
um e outro bilu-bilu, há inúmeras trocas de fralda, mamadas nem
sempre fáceis, cólicas, choros, noites em claro, visitas bem-intencionadas
porém inoportunas. Tudo muito normal. Mas o impacto da nova rotina pode
ter conseqüências devastadoras para o casamento dos recém-papais.
Esse lado nada cor-de-rosa da vida com o primeiro bebê a bordo foi esmiuçado
por duas pesquisas recentes realizadas pelas universidades americanas da Califórnia
e de Washington, que ouviram cerca de 200 pais e mães de primeira viagem.
As conclusões são impressionantes. Mais da metade disse enfrentar
crises conjugais sérias, 92% afirmaram ter mais conflitos com o parceiro
do que tinham antes e 20% se separaram até dois anos depois do nascimento
do bebê. Os problemas que atormentam
os casais nesse período em nada lembram o "e foram felizes para sempre"
dos contos de fada que terminam, aliás, muito antes de a princesa
engravidar do primeiro filho. A vida social desaparece, o círculo de amizades
muda, o pai se ressente de ter de dividir com o bebê o amor e a atenção
da mulher. Ela, por seu lado, está fora de forma e insegura. São
arestas, aliás, que começam a surgir já no último
trimestre da gravidez. Nesse período, a freqüência de relações
sexuais costuma despencar, maridos e mulheres demonstram crescente intolerância
um com o outro e a insatisfação com o relacionamento tem início,
estendendo-se normalmente até o primeiro aniversário do filho. A
paternidade também costuma trazer à tona divergências em torno
da vida familiar e dos cuidados com o bebê. Na maior parte dos casos são
as mães as mais vulneráveis à depressão nos
meses seguintes ao parto que demonstram descontentamento primeiro. Sem
preparo, os casais se desesperam com as novas responsabilidades e, muitas vezes,
arruínam de vez o sonho de construir uma família. "Quem diz que
essa é uma fase só de alegrias está mentindo", avisa Fernanda
Gouveia, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital e Maternidade
São Luiz, em São Paulo.
Encarar essa nova etapa da vida sem tanta idealização é o
primeiro passo para evitar que a chegada do bebê seja um terremoto capaz
de abalar os alicerces do casamento. Dividir tarefas, por exemplo, é fundamental.
É verdade que essa não é a prática mais comum. Na
pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia, os casais foram estimulados
a combinar qual seria a divisão de tarefas antes mesmo de o bebê
nascer. Seis meses depois, com os pimpolhos já quase engatinhando, a maioria
dos pais continuava sem se mexer para trocar uma única fralda. As mães,
evidentemente, estavam cansadas, sobrecarregadas e irritadas. Os especialistas
sugerem que se insista numa divisão das atividades, que inclua, por exemplo,
quem vai acordar de madrugada para dar mamadeira ou quem troca fralda naquele
dia. "O comportamento do homem é fator importantíssimo para determinar
se o casamento será feliz ou não depois de tantas transformações",
afirma o psicólogo americano Alyson Shapiro, um dos responsáveis
pelo programa Bringing Baby Home (Trazendo o Bebê para Casa), que
acompanhou, em três etapas, mais de 100 casais prestes a ser pais pela primeira
vez: no último trimestre de gravidez, três meses após o nascimento
do bebê e, depois, quando ele completou 1 ano.
Outro aspecto importante apontado pelos pesquisadores é que a solidez do
casamento antes da chegada do primeiro filho é um fator essencial para
o futuro do relacionamento. Administrar tanta novidade não é, definitivamente,
tarefa fácil. Mas, se o casal já está em crise antes da gravidez,
evidentemente o nascimento da criança só agravará os problemas.
Se, ao contrário, a relação é carinhosa e companheira,
o vínculo entre os parceiros é mais forte e a chance de separação
após a chegada do bebê, obviamente menor. O casal une forças,
empenha-se, e fica mais fácil superar qualquer crise. Os pesquisadores
da Universidade de Washington acompanharam 82 pares desde o primeiro ano de casamento.
Ao longo do estudo, 43 casais tiveram filhos e 33% das mulheres afirmaram que,
graças ao convívio cordial com o parceiro, os desafios da maternidade
foram enfrentados de forma tranqüila. "A parceria entre marido e mulher nesses
momentos é importante para que o casamento não chegue ao fim por
desgaste cotidiano", afirma a psicóloga Fernanda Gouveia.
As conclusões do estudo não chegam a se constituir num manual de
blindagem do casamento não existe, nem jamais existirá, uma
fórmula para encarar tantas novidades com total serenidade. Mas ler bastante
sobre os cuidados e o desenvolvimento dos filhos e procurar orientação
de um profissional em momentos de dúvida é sempre recomendado. A
ajuda da família também não deve ser desprezada. Permita
a participação dos familiares, mas não esqueça que
quem dita as regras da vida de um bebê são os próprios pais.
Ainda que os avós, tios ou mesmo amigas mais experientes estejam providos
das melhores intenções, eles devem saber exatamente quais são
seus limites. Na hora de tomar decisões importantes que dizem respeito
ao filho, o casal deve conversar bastante e, junto, chegar a um denominador comum.
"A chegada do primeiro filho é sempre sinônimo de grande mudança.
O casamento resiste ou não, dependendo de como as dificuldades são
conduzidas", disse a VEJA o americano Jay Belsky, autor do livro A Transição
para a Paternidade (The Transition to Parenthood) e diretor do Instituto para
Estudo de Crianças, Famílias e Questões Sociais da Universidade
de Londres. No auge do desespero, lembre-se de que os problemas que surgem durante
os primeiros meses do nascimento do bebê são passageiros. Além
disso, apesar de não deixar ninguém dormir, ele tem os olhos do
pai, o queixo da mãe e é mesmo uma gracinha.
Fotos
Oscar Cabral
 |  |
"A
gravidez da Isabela não foi planejada, mas em nenhum momento pensei que
a chegada dela pudesse acabar com um relacionamento de tanto tempo. Logo que descobri
que estava grávida, eu e o pai dela fomos morar juntos. Namorávamos
havia seis anos, mas, à medida que a minha barriga ia crescendo, ele ia
mudando radicalmente comigo. Deixou de ser carinhoso, atencioso e ficou extremamente
impaciente com tudo. Quando nossa filha nasceu, vivemos um período de muita
felicidade, mas que só durou dois meses. Um dia, ele disse que não
me amava mais e que ia embora. Fiquei arrasada e comecei a fazer terapia. Hoje,
superei o trauma, me casei de novo há dois anos, mas não penso em
ter outro filho logo. Morro de medo quando penso que essa história pode
se repetir." Carla Oliveira, 28
anos, estudante de administração "Depois
que a Isabela nasceu não conseguimos segurar a onda mesmo. Éramos
muito novos e acho que não estávamos preparados para as responsabilidades
que chegaram junto com a nossa filha. Não tínhamos estrutura emocional
para suportar tantas mudanças em nossa vida. Também fiquei muito
incomodado ao ver a Carla dividindo com o bebê a atenção que
antes era só para mim. Quando ela teve depressão pós-parto,
tudo ficou ainda mais complicado porque tive de me virar sozinho para cuidar da
Isabela. Não agüentei tanta pressão de uma vez só e
resolvi me separar. O nascimento da nossa filha foi como um tsunami. Foi devastador
para o nosso casamento." Edson Lopes,
29 anos, coordenador de eventos |
|
"Conheci
o meu ex-marido em Portugal há dez anos. Fiquei completamente apaixonada
e, por causa dele, larguei tudo no país onde nasci para viver no Brasil.
Logo que chegamos, descobri que estava grávida. Comemoramos a notícia
com muita alegria, mas quando a Ísis nasceu tudo mudou. Ele se revelou
um homem extremamente egoísta e carente. É inacreditável,
mas tinha mais trabalho com ele do que com a minha filha recém-nascida.
Parei de trabalhar e, com medo de perdê-lo, fazia tudo o que ele me pedia.
Fiquei completamente esgotada com tanta requisição, e quando a Ísis
completou 1 ano nos separamos. Não nos suportávamos mais." Augusta
Semblano, 33 anos, consultora de beleza |
|
|