Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Família
Um é pouco, dois é bom,
três pode ser demais

Pesquisas mostram que os casais
não estão preparados para
a chegada do primeiro bebê


Roberta Salomone

DA INTERNET
Pesquisas originais (em inglês)
Bringing Baby Home Project
Universidade de Washington
Relationship Research Institute
Becoming a Family Project
Universidade de Berkeley

O quarto está lindo, as roupinhas foram compradas com todo o carinho, o chá-de-fraldas foi um sucesso e os pais estão, naturalmente, muito felizes com o nascimento do primeiro rebento. Ele é saudável, uma graça, tem os olhos do pai, o queixo da mãe e sua chegada parece ser o início da felicidade eterna. No entanto, ao chegar em casa, o pimpolho transforma o lar doce lar num caos. Entre um e outro bilu-bilu, há inúmeras trocas de fralda, mamadas nem sempre fáceis, cólicas, choros, noites em claro, visitas bem-intencionadas porém inoportunas. Tudo muito normal. Mas o impacto da nova rotina pode ter conseqüências devastadoras para o casamento dos recém-papais. Esse lado nada cor-de-rosa da vida com o primeiro bebê a bordo foi esmiuçado por duas pesquisas recentes realizadas pelas universidades americanas da Califórnia e de Washington, que ouviram cerca de 200 pais e mães de primeira viagem. As conclusões são impressionantes. Mais da metade disse enfrentar crises conjugais sérias, 92% afirmaram ter mais conflitos com o parceiro do que tinham antes e 20% se separaram até dois anos depois do nascimento do bebê.

Os problemas que atormentam os casais nesse período em nada lembram o "e foram felizes para sempre" dos contos de fada – que terminam, aliás, muito antes de a princesa engravidar do primeiro filho. A vida social desaparece, o círculo de amizades muda, o pai se ressente de ter de dividir com o bebê o amor e a atenção da mulher. Ela, por seu lado, está fora de forma e insegura. São arestas, aliás, que começam a surgir já no último trimestre da gravidez. Nesse período, a freqüência de relações sexuais costuma despencar, maridos e mulheres demonstram crescente intolerância um com o outro e a insatisfação com o relacionamento tem início, estendendo-se normalmente até o primeiro aniversário do filho. A paternidade também costuma trazer à tona divergências em torno da vida familiar e dos cuidados com o bebê. Na maior parte dos casos são as mães – as mais vulneráveis à depressão nos meses seguintes ao parto – que demonstram descontentamento primeiro. Sem preparo, os casais se desesperam com as novas responsabilidades e, muitas vezes, arruínam de vez o sonho de construir uma família. "Quem diz que essa é uma fase só de alegrias está mentindo", avisa Fernanda Gouveia, coordenadora do serviço de psicologia do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo.

Encarar essa nova etapa da vida sem tanta idealização é o primeiro passo para evitar que a chegada do bebê seja um terremoto capaz de abalar os alicerces do casamento. Dividir tarefas, por exemplo, é fundamental. É verdade que essa não é a prática mais comum. Na pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia, os casais foram estimulados a combinar qual seria a divisão de tarefas antes mesmo de o bebê nascer. Seis meses depois, com os pimpolhos já quase engatinhando, a maioria dos pais continuava sem se mexer para trocar uma única fralda. As mães, evidentemente, estavam cansadas, sobrecarregadas e irritadas. Os especialistas sugerem que se insista numa divisão das atividades, que inclua, por exemplo, quem vai acordar de madrugada para dar mamadeira ou quem troca fralda naquele dia. "O comportamento do homem é fator importantíssimo para determinar se o casamento será feliz ou não depois de tantas transformações", afirma o psicólogo americano Alyson Shapiro, um dos responsáveis pelo programa Bringing Baby Home (Trazendo o Bebê para Casa), que acompanhou, em três etapas, mais de 100 casais prestes a ser pais pela primeira vez: no último trimestre de gravidez, três meses após o nascimento do bebê e, depois, quando ele completou 1 ano.

Outro aspecto importante apontado pelos pesquisadores é que a solidez do casamento antes da chegada do primeiro filho é um fator essencial para o futuro do relacionamento. Administrar tanta novidade não é, definitivamente, tarefa fácil. Mas, se o casal já está em crise antes da gravidez, evidentemente o nascimento da criança só agravará os problemas. Se, ao contrário, a relação é carinhosa e companheira, o vínculo entre os parceiros é mais forte e a chance de separação após a chegada do bebê, obviamente menor. O casal une forças, empenha-se, e fica mais fácil superar qualquer crise. Os pesquisadores da Universidade de Washington acompanharam 82 pares desde o primeiro ano de casamento. Ao longo do estudo, 43 casais tiveram filhos e 33% das mulheres afirmaram que, graças ao convívio cordial com o parceiro, os desafios da maternidade foram enfrentados de forma tranqüila. "A parceria entre marido e mulher nesses momentos é importante para que o casamento não chegue ao fim por desgaste cotidiano", afirma a psicóloga Fernanda Gouveia.

As conclusões do estudo não chegam a se constituir num manual de blindagem do casamento – não existe, nem jamais existirá, uma fórmula para encarar tantas novidades com total serenidade. Mas ler bastante sobre os cuidados e o desenvolvimento dos filhos e procurar orientação de um profissional em momentos de dúvida é sempre recomendado. A ajuda da família também não deve ser desprezada. Permita a participação dos familiares, mas não esqueça que quem dita as regras da vida de um bebê são os próprios pais. Ainda que os avós, tios ou mesmo amigas mais experientes estejam providos das melhores intenções, eles devem saber exatamente quais são seus limites. Na hora de tomar decisões importantes que dizem respeito ao filho, o casal deve conversar bastante e, junto, chegar a um denominador comum. "A chegada do primeiro filho é sempre sinônimo de grande mudança. O casamento resiste ou não, dependendo de como as dificuldades são conduzidas", disse a VEJA o americano Jay Belsky, autor do livro A Transição para a Paternidade (The Transition to Parenthood) e diretor do Instituto para Estudo de Crianças, Famílias e Questões Sociais da Universidade de Londres. No auge do desespero, lembre-se de que os problemas que surgem durante os primeiros meses do nascimento do bebê são passageiros. Além disso, apesar de não deixar ninguém dormir, ele tem os olhos do pai, o queixo da mãe e é mesmo uma gracinha.

 

Fotos Oscar Cabral

"A gravidez da Isabela não foi planejada, mas em nenhum momento pensei que a chegada dela pudesse acabar com um relacionamento de tanto tempo. Logo que descobri que estava grávida, eu e o pai dela fomos morar juntos. Namorávamos havia seis anos, mas, à medida que a minha barriga ia crescendo, ele ia mudando radicalmente comigo. Deixou de ser carinhoso, atencioso e ficou extremamente impaciente com tudo. Quando nossa filha nasceu, vivemos um período de muita felicidade, mas que só durou dois meses. Um dia, ele disse que não me amava mais e que ia embora. Fiquei arrasada e comecei a fazer terapia. Hoje, superei o trauma, me casei de novo há dois anos, mas não penso em ter outro filho logo. Morro de medo quando penso que essa história pode se repetir."
Carla Oliveira, 28 anos, estudante de administração

"Depois que a Isabela nasceu não conseguimos segurar a onda mesmo. Éramos muito novos e acho que não estávamos preparados para as responsabilidades que chegaram junto com a nossa filha. Não tínhamos estrutura emocional para suportar tantas mudanças em nossa vida. Também fiquei muito incomodado ao ver a Carla dividindo com o bebê a atenção que antes era só para mim. Quando ela teve depressão pós-parto, tudo ficou ainda mais complicado porque tive de me virar sozinho para cuidar da Isabela. Não agüentei tanta pressão de uma vez só e resolvi me separar. O nascimento da nossa filha foi como um tsunami. Foi devastador para o nosso casamento."
Edson Lopes, 29 anos, coordenador de eventos

 

"Conheci o meu ex-marido em Portugal há dez anos. Fiquei completamente apaixonada e, por causa dele, larguei tudo no país onde nasci para viver no Brasil. Logo que chegamos, descobri que estava grávida. Comemoramos a notícia com muita alegria, mas quando a Ísis nasceu tudo mudou. Ele se revelou um homem extremamente egoísta e carente. É inacreditável, mas tinha mais trabalho com ele do que com a minha filha recém-nascida. Parei de trabalhar e, com medo de perdê-lo, fazia tudo o que ele me pedia. Fiquei completamente esgotada com tanta requisição, e quando a Ísis completou 1 ano nos separamos. Não nos suportávamos mais."
Augusta Semblano, 33 anos, consultora de beleza

 

 

 

Montagem com fotos de Photodisc
 
 
 
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