Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Turfe das Arábias

As corridas de camelos seduzem o Oriente
Médio, mas submetem crianças a crueldades


M. Salem/AFP
Anwar Mirza/Reuters
Disputa no deserto e o jóquei-robô (à esq.): esporte com escravidão

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As corridas de camelos são uma tradição no mundo árabe – e, ainda hoje, um dos esportes mais populares nessa parte do planeta. Em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e Catar, elas atraem milhares de pessoas e rendem picos de audiência às emissoras de TV. Cultuado sobretudo pelas elites desses países, o passatempo movimenta muito dinheiro. Xeques investem alto em animais que rendem prêmios de até 1,5 milhão de reais por vitória. Só nos Emirados Árabes há 30.000 camelos de corrida e quinze estádios. A platéia assiste aos eventos em camarotes de luxo, mas os bastidores do esporte são bem diferentes: os jóqueis são garotos de 3 a 7 anos submetidos a rotinas cruéis. Nos últimos anos, organizações de direitos humanos chamaram atenção para o problema. A polêmica cresceu no ano passado, quando um documentário do canal HBO flagrou as agruras desses meninos.

As crianças são jóqueis ideais por serem leves, o que permite que os camelos atinjam velocidades de até 45 quilômetros por hora. Quanto mais franzinas elas forem, melhor o desempenho do animal. Amarradas sobre os camelos, elas estão sujeitas a mordidas e quedas fatais. Seus gritos são bem-vindos, pois fazem os bichos correr mais. As corridas geram um tráfico infantil intenso. Oriundas de países como Índia, Bangladesh, Paquistão e Sudão, as crianças são seqüestradas por mercenários ou vendidas pelos próprios pais. Hoje, cerca de 40.000 são mantidas em cativeiro em fazendas do Golfo Pérsico. Nesses locais, sua dieta é de fome, para mantê-las leves. Não faltam relatos de violência sexual e uso de eletrochoques para evitar que os garotos comam a ração dos camelos. Em tese, a escravidão é proibida nesses países. A pressão internacional fez com que, em 2002, os Emirados Árabes adotassem inclusive uma lei que veta a participação de crianças nas corridas. Na prática, porém, a exploração continua. "Os governos negam, mas os donos dos camelos estão acima da lei", diz a militante paquistanesa Shaheen Burney.

Há um mês, está em testes no Catar uma invenção que pode revolucionar as corridas de camelos: um robô que faz as vezes de jóquei. Criado por uma empresa suíça, o Kamel imita os movimentos das crianças, sob o comando de um controle remoto a até 800 metros de distância. Para ser aceita pelos camelos, a geringonça, que custa 10.000 dólares, é "vestida" com roupas com odor humano e borrifada de perfume. Na temporada de corridas que se inicia em outubro, pelo menos vinte robôs estarão em ação. A promessa é substituir as crianças por eles até 2007.

 
 
 
 
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