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Esporte Turfe
das Arábias As corridas de camelos seduzem
o Oriente Médio, mas submetem crianças a crueldades
M. Salem/AFP  | Anwar
Mirza/Reuters  |
| Disputa no deserto e o jóquei-robô
(à esq.): esporte com escravidão |
As corridas de camelos são uma tradição
no mundo árabe e, ainda hoje, um dos esportes mais populares nessa
parte do planeta. Em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes,
Kuwait e Catar, elas atraem milhares de pessoas e rendem picos de audiência
às emissoras de TV. Cultuado sobretudo pelas elites desses países,
o passatempo movimenta muito dinheiro. Xeques investem alto em animais que rendem
prêmios de até 1,5 milhão de reais por vitória. Só
nos Emirados Árabes há 30.000 camelos de corrida e quinze estádios.
A platéia assiste aos eventos em camarotes de luxo, mas os bastidores do
esporte são bem diferentes: os jóqueis são garotos de 3 a
7 anos submetidos a rotinas cruéis. Nos últimos anos, organizações
de direitos humanos chamaram atenção para o problema. A polêmica
cresceu no ano passado, quando um documentário do canal HBO flagrou as
agruras desses meninos. As crianças são
jóqueis ideais por serem leves, o que permite que os camelos atinjam velocidades
de até 45 quilômetros por hora. Quanto mais franzinas elas forem,
melhor o desempenho do animal. Amarradas sobre os camelos, elas estão sujeitas
a mordidas e quedas fatais. Seus gritos são bem-vindos, pois fazem os bichos
correr mais. As corridas geram um tráfico infantil intenso. Oriundas de
países como Índia, Bangladesh, Paquistão e Sudão,
as crianças são seqüestradas por mercenários ou vendidas
pelos próprios pais. Hoje, cerca de 40.000 são mantidas em cativeiro
em fazendas do Golfo Pérsico. Nesses locais, sua dieta é de fome,
para mantê-las leves. Não faltam relatos de violência sexual
e uso de eletrochoques para evitar que os garotos comam a ração
dos camelos. Em tese, a escravidão é proibida nesses países.
A pressão internacional fez com que, em 2002, os Emirados Árabes
adotassem inclusive uma lei que veta a participação de crianças
nas corridas. Na prática, porém, a exploração continua.
"Os governos negam, mas os donos dos camelos estão acima da lei", diz a
militante paquistanesa Shaheen Burney. Há
um mês, está em testes no Catar uma invenção que pode
revolucionar as corridas de camelos: um robô que faz as vezes de jóquei.
Criado por uma empresa suíça, o Kamel imita os movimentos das crianças,
sob o comando de um controle remoto a até 800 metros de distância.
Para ser aceita pelos camelos, a geringonça, que custa 10.000 dólares,
é "vestida" com roupas com odor humano e borrifada de perfume. Na temporada
de corridas que se inicia em outubro, pelo menos vinte robôs estarão
em ação. A promessa é substituir as crianças por eles
até 2007. |