Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Polícia
A triste trajetória
do filho de Pelé

Após uma série de insucessos na
carreira, Edinho é preso, acusado
de envolvimento com o tráfico


Juliana Linhares e Erin Mizuta

Alberto Marques/Tribuna de Santos
Alexandre Meneghini/AP
O ex-goleiro Edinho: instabilidade profissional e um fraco por drogas e carrões Pelé chora ao falar do vício do filho: "Eu talvez tenha trabalhado demais e por isso não percebi"

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho em áudio de
conversa entre Edinho
e o traficante Naldinho

Ao contrário da trajetória profissional de Pelé, o pai famoso, a do ex-goleiro Edson Cholbi do Nascimento, o Edinho, foi uma sucessão de projetos malsucedidos. Aos 28 anos, ele teve de abandonar o futebol por força de uma lesão no joelho e uma carreira que, até então, se revelara medíocre. Tentou a sorte como corredor de motocross, e os resultados foram desanimadores. O mesmo ocorreu quando assumiu a direção de uma das empresas de Pelé, especializada em marketing esportivo. Edinho, afirmam colegas, tinha empenho e ótimas intenções, mas nenhum pendor para os negócios. Na segunda-feira passada, o ex-goleiro se preparava para nova tentativa de engatar uma carreira. Havia conseguido convencer o Santos a escutar sua proposta de gerenciar alguns dos atletas do time. No escritório do clube, na Vila Belmiro, o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, e mais meia dúzia de cartolas aguardavam sua chegada. A reunião estava marcada para as 11h30. Ao meio-dia, Teixeira recebeu uma ligação de um amigo de Edinho dizendo que ele não iria ao encontro. O ex-goleiro havia sido preso, em Santos, por acusação de envolvimento com o narcotráfico.

A prisão foi decretada porque o Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) interceptou conversas telefônicas comprometedoras entre o ex-goleiro e um amigo, Ronaldo de Freitas, o Naldinho. Filho do ex-jogador Pitico, contemporâneo de Pelé, Naldinho é apontado pela polícia como o chefe de uma quadrilha que comanda o tráfico de drogas na Baixada Santista. Segundo o Denarc, em uma das conversas gravadas, Edinho teria dado dicas ao amigo sobre como investir o dinheiro que, de acordo com as investigações, provinha do tráfico. Em uma das gravações (ouça outros trechos em www.veja.com.br), diálogos mostram que os amigos tinham negócios em comum. Em um deles, Naldinho diz ao filho de Pelé: "Tu me deu um tapa na cara. Tu falou que tinha que ter botado o nome de outros laranjas no contrato. Quer dizer que eu me f... nessa?". O amigo responde: "Não, irmão, dá licença. Tô falando como que nós vamos fazer os outros mil negócios nossos. Nós vamos montar uma outra empresa nossa, que vai ser uma trade, que vai fazer a compra e venda do negócio. Que vai ter nota fiscal, tudo". A polícia ainda afirma que Edinho usava a influência do pai em alguns negócios. Em um dos telefonemas, teria dito a Naldinho: "Você entra com o dinheiro e eu entro com o nome do meu pai". Edinho deverá responder pelo crime de associação ao narcotráfico. Se condenado, poderá pegar uma pena de até dez anos de prisão.

 

Jefferson Coppola/Folha Imagem
Helvio Romero/AE
Naldinho, no momento da prisão e com Edinho (à dir.): suspeito de liderar o tráfico em Santos

O filho mais velho de Pelé nasceu dois meses depois da conquista da Copa do Mundo de 1970. Em 1975, o craque foi contratado pelo Cosmos, dos Estados Unidos, e mudou-se com a família para Nova York. Até os 20 anos, Edinho viveu em Manhattan praticamente só com a mãe, Rosemeri, e as duas irmãs, Jennifer e Kelly. "Pelé não foi o que se pode chamar de um pai atencioso", diz um amigo do craque. "Chegava a passar meses fora de casa e, depois que se separou de Rosemeri, volta e meia chegava e ia embora dos Estados Unidos sem nem ao menos telefonar para os filhos." Quando Edinho tinha por volta de 15 anos, passou a andar com meninos do Bronx, um dos mais violentos bairros de Nova York. Aos 18 anos, veio passar uma temporada no Brasil, trazendo um inglês recheado de gírias e o cabelo raspado, ao modo dos rappers da época. Ao chegar a Santos, percebeu, pela primeira vez, o significado de ser filho de alguém cujo nome era mais conhecido do que a Coca-Cola. Um amigo conta que as pessoas lhe pediam autógrafos na rua e que, certa vez, Edinho conseguiu até livrar-se de um assalto depois que os ladrões olharam para ele. "Seu sorriso e sua voz são iguais aos do Pelé", diz o amigo. Dois anos mais tarde, mudou-se de vez para Santos, já para treinar no time em que o pai se consagrou. Gostava da noite e era figurinha carimbada nos bares de pagode da cidade. Também adorava comprar carros (chegou a ter um BMW e um jipe importado) e correr com eles. Em 1992, Edinho e um amigo se envolveram na morte de um homem durante o que o ex-goleiro alega ter sido um acidente de carro. Condenado por homicídio doloso, conseguiu ter a sentença anulada, mas terá de enfrentar novo julgamento no mês que vem.

Casado há oito anos com a pedagoga Jessica Fernandes do Nascimento, com quem tem duas filhas, Edinho, até sua prisão, morava em Santos, em um dúplex de 600 metros quadrados, avaliado em 600.000 reais – presente de Pelé. Na terça-feira passada, da sede do Denarc, onde está detido, ele divulgou uma carta em que pede perdão à família e aos amigos pela prisão. No texto, admite ser viciado em maconha, embora amigos brasileiros afirmem que, há pelo menos oito anos, ele tem feito uso de drogas mais pesadas. Ao ouvir o advogado do filho ler a carta para a imprensa, Pelé chorou diante das câmeras.

Pelé é um atleta reconhecido por sua retidão dentro e fora dos campos. Emprestou seu nome a pelo menos duas grandes campanhas contra drogas e foi o primeiro a chamar para si a responsabilidade pelo vício do filho. "Infelizmente, talvez eu tenha trabalhado demais e não percebi isso", disse ele. Seria simplista sugerir que Edinho se envolveu com drogas por ser filho de um pai famoso ou porque esse pai não teria estado suficientemente presente em sua adolescência. Para especialistas, no entanto, o ex-atleta do Santos vive um dilema cruel. Filhos, em geral, têm no pai o seu modelo e querem sempre equiparar-se a ele. "O problema é que, no caso de Edinho, o modelo é inalcançável", diz a psicoterapeuta Lídia Aratangy. Edinho escolheu ser jogador e atuar na posição que era o pesadelo dos adversários de seu pai: a de goleiro. Nos campos, jamais conseguiu ser a sombra do que foi o craque. Sua prisão pode aproximá-lo do pai, como disse querer Pelé, mas é certo que – uma vez mais – o distanciará do mito.

 
 
 
 
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