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Polícia A
triste trajetória do filho de Pelé
Após uma série de insucessos na carreira, Edinho é preso,
acusado de envolvimento com o tráfico  Juliana
Linhares e Erin Mizuta
Alberto
Marques/Tribuna de Santos
 | Alexandre
Meneghini/AP
 | | O
ex-goleiro Edinho: instabilidade profissional e um fraco por drogas e carrões
| Pelé chora ao falar do vício do filho: "Eu talvez tenha
trabalhado demais e por isso não percebi" |
Ao
contrário da trajetória profissional de Pelé, o pai famoso,
a do ex-goleiro Edson Cholbi do Nascimento, o Edinho, foi uma sucessão
de projetos malsucedidos. Aos 28 anos, ele teve de abandonar o futebol por força
de uma lesão no joelho e uma carreira que, até então, se
revelara medíocre. Tentou a sorte como corredor de motocross, e os resultados
foram desanimadores. O mesmo ocorreu quando assumiu a direção de
uma das empresas de Pelé, especializada em marketing esportivo. Edinho,
afirmam colegas, tinha empenho e ótimas intenções, mas nenhum
pendor para os negócios. Na segunda-feira passada, o ex-goleiro se preparava
para nova tentativa de engatar uma carreira. Havia conseguido convencer o Santos
a escutar sua proposta de gerenciar alguns dos atletas do time. No escritório
do clube, na Vila Belmiro, o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, e mais meia
dúzia de cartolas aguardavam sua chegada. A reunião estava marcada
para as 11h30. Ao meio-dia, Teixeira recebeu uma ligação de um amigo
de Edinho dizendo que ele não iria ao encontro. O ex-goleiro havia sido
preso, em Santos, por acusação de envolvimento com o narcotráfico.
A prisão foi decretada porque
o Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc)
interceptou conversas telefônicas comprometedoras entre o ex-goleiro e um
amigo, Ronaldo de Freitas, o Naldinho. Filho do ex-jogador Pitico, contemporâneo
de Pelé, Naldinho é apontado pela polícia como o chefe de
uma quadrilha que comanda o tráfico de drogas na Baixada Santista. Segundo
o Denarc, em uma das conversas gravadas, Edinho teria dado dicas ao amigo sobre
como investir o dinheiro que, de acordo com as investigações, provinha
do tráfico. Em uma das gravações (ouça outros trechos
em www.veja.com.br), diálogos mostram que os amigos tinham negócios
em comum. Em um deles, Naldinho diz ao filho de Pelé: "Tu me deu um tapa
na cara. Tu falou que tinha que ter botado o nome de outros laranjas no contrato.
Quer dizer que eu me f... nessa?". O amigo responde: "Não, irmão,
dá licença. Tô falando como que nós vamos fazer os
outros mil negócios nossos. Nós vamos montar uma outra empresa nossa,
que vai ser uma trade, que vai fazer a compra e venda do negócio. Que vai
ter nota fiscal, tudo". A polícia ainda afirma que Edinho usava a influência
do pai em alguns negócios. Em um dos telefonemas, teria dito a Naldinho:
"Você entra com o dinheiro e eu entro com o nome do meu pai". Edinho deverá
responder pelo crime de associação ao narcotráfico. Se condenado,
poderá pegar uma pena de até dez anos de prisão. Jefferson
Coppola/Folha Imagem
 | Helvio
Romero/AE
 | | Naldinho,
no momento da prisão e com Edinho (à dir.): suspeito de liderar
o tráfico em Santos |
O filho mais velho de Pelé nasceu dois meses depois da conquista da Copa
do Mundo de 1970. Em 1975, o craque foi contratado pelo Cosmos, dos Estados Unidos,
e mudou-se com a família para Nova York. Até os 20 anos, Edinho
viveu em Manhattan praticamente só com a mãe, Rosemeri, e as duas
irmãs, Jennifer e Kelly. "Pelé não foi o que se pode chamar
de um pai atencioso", diz um amigo do craque. "Chegava a passar meses fora de
casa e, depois que se separou de Rosemeri, volta e meia chegava e ia embora dos
Estados Unidos sem nem ao menos telefonar para os filhos." Quando Edinho tinha
por volta de 15 anos, passou a andar com meninos do Bronx, um dos mais violentos
bairros de Nova York. Aos 18 anos, veio passar uma temporada no Brasil, trazendo
um inglês recheado de gírias e o cabelo raspado, ao modo dos rappers
da época. Ao chegar a Santos, percebeu, pela primeira vez, o significado
de ser filho de alguém cujo nome era mais conhecido do que a Coca-Cola.
Um amigo conta que as pessoas lhe pediam autógrafos na rua e que, certa
vez, Edinho conseguiu até livrar-se de um assalto depois que os ladrões
olharam para ele. "Seu sorriso e sua voz são iguais aos do Pelé",
diz o amigo. Dois anos mais tarde, mudou-se de vez para Santos, já para
treinar no time em que o pai se consagrou. Gostava da noite e era figurinha carimbada
nos bares de pagode da cidade. Também adorava comprar carros (chegou a
ter um BMW e um jipe importado) e correr com eles. Em 1992, Edinho e um amigo
se envolveram na morte de um homem durante o que o ex-goleiro alega ter sido um
acidente de carro. Condenado por homicídio doloso, conseguiu ter a sentença
anulada, mas terá de enfrentar novo julgamento no mês que vem.
Casado há oito anos com a pedagoga Jessica Fernandes do Nascimento, com
quem tem duas filhas, Edinho, até sua prisão, morava em Santos,
em um dúplex de 600 metros quadrados, avaliado em 600.000 reais
presente de Pelé. Na terça-feira passada, da sede do Denarc, onde
está detido, ele divulgou uma carta em que pede perdão à
família e aos amigos pela prisão. No texto, admite ser viciado em
maconha, embora amigos brasileiros afirmem que, há pelo menos oito anos,
ele tem feito uso de drogas mais pesadas. Ao ouvir o advogado do filho ler a carta
para a imprensa, Pelé chorou diante das câmeras.
Pelé é um atleta reconhecido por sua retidão dentro e fora
dos campos. Emprestou seu nome a pelo menos duas grandes campanhas contra drogas
e foi o primeiro a chamar para si a responsabilidade pelo vício do filho.
"Infelizmente, talvez eu tenha trabalhado demais e não percebi isso", disse
ele. Seria simplista sugerir que Edinho se envolveu com drogas por ser filho de
um pai famoso ou porque esse pai não teria estado suficientemente presente
em sua adolescência. Para especialistas, no entanto, o ex-atleta do Santos
vive um dilema cruel. Filhos, em geral, têm no pai o seu modelo e querem
sempre equiparar-se a ele. "O problema é que, no caso de Edinho, o modelo
é inalcançável", diz a psicoterapeuta Lídia Aratangy.
Edinho escolheu ser jogador e atuar na posição que era o pesadelo
dos adversários de seu pai: a de goleiro. Nos campos, jamais conseguiu
ser a sombra do que foi o craque. Sua prisão pode aproximá-lo do
pai, como disse querer Pelé, mas é certo que uma vez mais
o distanciará do mito. |