Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Informática
O Mac

A Apple, de Steve Jobs, trocará
os chips IBM pelos da Intel – e dá
sustos em seus consumidores


Sérgio Martins

Tony Avelar/Reuters
O PAI DA INVENÇÃO
Jobs, durante o anúncio da mudança: mais um salto tecnológico


Imagine se Eric Clapton deixasse de lado sua Fender Strat para tocar apenas com guitarras Gibson. Ou se o goleiro do São Paulo, o fiel Rogério Ceni, anunciasse que tem coração corintiano. Imagine se a Ferrari passasse a correr com motores Ford Cosworth e... Bem, imagine um grande susto. Foi isso que se produziu na semana passada em São Francisco, na Califórnia. Durante uma convenção que reuniu 3 000 pessoas, Steve Jobs, presidente da Apple, revelou que a partir de 2006 o lendário e exclusivo computador Macintosh deixará de utilizar os chips produzidos pela IBM, os PowerPC. O Mac vai usar chips da Intel, os mesmos que qualquer PC tem hoje em suas placas.

A Intel sempre pertenceu ao campo oposto na guerra cultural e de marketing dos fabricantes de computadores e dos sistemas operacionais que os fazem funcionar. O Wintel (Windows + Intel) sempre foi o antagonista de Jobs e suas soluções bem desenhadas, caras e destinadas ao consumo de artistas gráficos, arquitetos e artistas. Agora Jobs se bandeou para o império, e seu sistema ganhou imediatamente o apelido de MacTel. O programa operacional da Apple, o Mac OS X, responde por menos de 5% do mercado mundial. O Windows de Bill Gates aciona 93% dos PCs. A Apple chegou a veicular anúncios em que zombava dos chips da Intel. Mas, conforme revelou Jobs, ao lado do executivo-chefe da nova parceira, Paul S. Otellini, as duas companhias estavam em negociações havia cinco anos. Num prédio na sede da Apple no Vale do Silício, a região da Califórnia que concentra a indústria de alta tecnologia, técnicos trabalhavam secretamente na adaptação dos produtos da Intel às necessidades dos computadores da empresa. A mudança tem várias explicações. Existiram, por um lado, razões também financeiras.

David Paul Morris/AFP
EX-INIMIGOS
Otellini, da Intel: a Apple, que antes zombava da empresa, agora virou freguesa


O relacionamento da Apple com a IBM estava estremecido porque a fornecedora se negou a atender aos apelos de Jobs para reduzir suas margens de lucro a fim de que a Apple pudesse colocar computadores mais baratos no mercado. Do lado da IBM, a parceria também já não agradava. Hoje a empresa tem uma clientela diversificada na área de chips e foca seus esforços em mercados como o de videogames – é a provedora do produto, por exemplo, para o console Xbox, da Microsoft. Como a Apple representa uma parcela ínfima de seus negócios, já não valia a pena mover tantos esforços para atender a suas exigências. A Intel, por seu turno, vem de uma parceria bem-sucedida com a Microsoft e produz chips bons e baratos. Estima-se que o preço dos computadores Macintosh cairá até 20% graças à nova associação.

As limitações tecnológicas dos chips da IBM também foram um fator que pesou na decisão de Jobs. A fornecedora já não produzia chips com a capacidade de processamento cada vez maior exigida pelos Macintosh e que, ao mesmo tempo, consumissem menos energia e estivessem menos sujeitos ao superaquecimento. Isso poderia comprometer a evolução dos computadores da Apple, sobretudo em nichos estratégicos como o dos laptops. A associação com a Intel, em tese, eliminaria tais limitações. Mas ela coloca a Apple diante de outras incertezas. O que faz de um Macintosh um Macintosh não é seu chip, e sim seu sistema operacional elegante e seu design arrojado. A mudança de chip não afetará isso em nada – trocar o motor de um carro pode aumentar sua potência, mas ele continuará sendo o mesmo carro. Para os fãs mais xiitas do Macintosh, contudo, a adoção do mesmo fornecedor de chips da concorrente pode abrir caminho para uma perda de identidade. O que impediria um usuário do Mac de instalar o Windows, sistema da Microsoft, em seu micro? Ou, então, que o sistema da Apple se disseminasse pelos demais computadores, com todos os seus cultuados diferenciais? Por incrível que pareça, os movimentos de Jobs sinalizam que os computadores da Apple se aproximarão, sim, cada vez mais dos PCs. O empresário, que já definiu o Macintosh como "a Ferrari dos computadores" para justificar seus altos preços, deu mostras nos últimos anos de que quer popularizar seus produtos. A mudança de chip é mais um lance nessa direção.

Jean-Pierre Clatot/AFP
FORÇA RIVAL
Bill Gates, da Microsoft: a Apple cada vez mais próxima de seus PCs


Os primeiros Macs dotados de chips Intel chegarão ao mercado em junho do ano que vem. Talvez por precaução, a estratégia de Jobs para a transição de um produto para outro deixa aberta uma porta para a retomada da aliança com a IBM. A princípio, conviverão no mercado modelos com os dois tipos de chip. A empresa garante que fará de tudo para evitar que os consumidores enfrentem outra transição traumática – quer dizer, cara. Já faz algum tempo, disse Jobs, que a Apple vem lançando, sem alarde, computadores que podem dialogar com recursos compatíveis com o futuro chip da Intel. Como um dos desafios é fazer com que os consumidores continuem comprando os computadores atuais da empresa, ainda equipados com o chip Power PC, a Apple colocará no mercado uma ferramenta capaz de adaptar os softwares de um modelo para outro, o Rosetta. Ainda assim, muita gente reage com ceticismo. "A Apple tem um histórico de criar plataformas que são facilmente ultrapassadas", disse o consultor americano All Gillen ao jornal The New York Times. "No fundo, a estratégia consiste em fazer os usuários trocar seus produtos antigos pelas novidades."

Se há alguém no mundo da informática com cacife para enfrentar uma transição arriscada como essa é Steve Jobs. Aos 50 anos, ele é um visionário da tecnologia. Lançado em 1984, o Macintosh foi o primeiro computador pessoal de uso fácil e intuitivo. Já dotado de recursos como o mouse e o ambiente gráfico baseado em janelas, ele estabeleceu o padrão vigente até hoje nos micros. E o cérebro da Apple se reinventou várias vezes. Depois de revolucionar a tecnologia com o Macintosh, Jobs passou por um período de inferno astral. A empresa, que chegou a deter 85% desse mercado, viu seu reinado ruir. Embora ela tenha saído na frente, a concorrência logo inundou o mercado com similares a preços bem mais acessíveis – o tipo de situação que se tornaria uma sina para a Apple. A isso se somaram perdas com projetos que não vingaram. Jobs foi afastado do comando da companhia em 1985 e se mudou para a Europa a fim de curtir a vida. Não demorou muito, contudo, para voltar à cena com novos projetos. O principal deles foi a compra da Pixar, estúdio de animação que, associado à Disney, se tornou a potência por trás de sucessos como Procurando Nemo. Jobs retornou ao comando da Apple em 1997 e, a partir de então, conduziu uma série de inovações que consolidaram a grife Macintosh.

Em 2001, Jobs detonou uma revolução em outra área: o comércio de música digital. Primeiro ele lançou o iTunes, um site de venda de canções em formato MP3. Numa época em que a indústria fonográfica ainda via a internet com desconfiança, Jobs mostrou que era possível vender música na rede em larga escala – e de forma lucrativa. Quase ao mesmo tempo, ele teve sua maior sacada desde a criação do Macintosh: colocou no mercado o iPod, aparelhinho capaz de armazenar até 15.000 músicas em formato MP3. Do ponto de vista comercial, essa invenção e o iTunes se completam num círculo virtuoso. A Apple vendeu mais de 15 milhões de unidades do iPod em quatro anos. O aparelho se transformou num fenômeno comportamental – e responde por uma parcela cada vez maior do faturamento da companhia. Jobs está sempre à frente. Ainda que isso tenha um preço alto para seus fãs. Talvez o MacIntel mude tudo.

 

Agarre-me se for capaz

O Macintosh, computador criado pelo visionário Steve Jobs, está sempre à frente em matéria de tecnologia – e obriga seus usuários a se manter atualizados

Fotos divulgação


1984

A Apple lança o Macintosh, primeiro computador pessoal de uso intuitivo. Ele traz recursos que virariam universais, como o mouse e o ambiente gráfico com janelas

1991
Em menos de dez anos, a Apple chega à sétima versão de seu sistema operacional. A novidade é o Quick Time, programa que permite rodar vídeos com facilidade no micro

1994
A Apple troca seu antigo chip, da Motorola, por um novo, produzido por essa empresa em associação com a IBM ­ o PowerPC

1997
Sai a terceira geração do Macintosh, que inaugura a busca pelo design diferenciado que se tornou uma marca do computador


1998
Com o lançamento do iMac, a Apple consegue aumentar sua participação no segmento dos micros domésticos

2001
O Macintosh OS X, décima versão de seu sistema operacional, representa um salto – mas a transição é dolorosa. Desde então, saíram cinco versões do sistema, contra só duas do concorrente Windows

2004
Os modelos da quinta geração do Macintosh, como aquele em que todo o computador se concentra num monitor de pequena espessura, tornam-se objetos de desejo dos amantes da tecnologia


Janeiro de 2005
Chega ao mercado o Mac Mini, modelo econômico com o qual a Apple pretende atingir mais consumidores

Hoje
A empresa anuncia para 2006 a troca do chip da IBM pelo produto da Intel, sua oponente histórica. A promessa de uma transição suave é vista por muitos com ceticismo

 

À frente de seu tempo

As grandes sacadas tecnológicas e comerciais da Apple


Fotos divulgação
NEWTON
Criado em 1993, este equipamento funciona como agenda e micro. Foi um precursor dos computadores de bolso


QUICK TAKE
Primeira câmera popular que tira fotos digitais. Fácil de usar, ela foi lançada em maio de 1994


iTUNES
Surgida em 2001, foi a primeira megastore virtual de música em formato MP3. Os catálogos de todas as grandes gravadoras estão à venda nela


iPOD
Lançado no mesmo ano em que surgiu o iTunes, o aparelho detonou uma revolução comportamental. De pequenas dimensões, pode armazenar até 15 000 canções em MP3 e também fotos

 
 
 
 
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