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Informática
O Mac
A Apple, de Steve Jobs, trocará
os chips IBM pelos da Intel e dá
sustos em seus consumidores

Sérgio Martins
Tony Avelar/Reuters
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O PAI DA INVENÇÃO
Jobs, durante o anúncio da mudança: mais
um salto tecnológico |
Imagine se Eric Clapton deixasse de lado sua Fender Strat para tocar
apenas com guitarras Gibson. Ou se o goleiro do São Paulo,
o fiel Rogério Ceni, anunciasse que tem coração
corintiano. Imagine se a Ferrari passasse a correr com motores Ford
Cosworth e... Bem, imagine um grande susto. Foi isso que se produziu
na semana passada em São Francisco, na Califórnia.
Durante uma convenção que reuniu 3 000 pessoas, Steve
Jobs, presidente da Apple, revelou que a partir de 2006 o lendário
e exclusivo computador Macintosh deixará de utilizar os chips
produzidos pela IBM, os PowerPC. O Mac vai usar chips da Intel,
os mesmos que qualquer PC tem hoje em suas placas.
A Intel sempre pertenceu ao campo oposto na
guerra cultural e de marketing dos fabricantes de computadores e
dos sistemas operacionais que os fazem funcionar. O Wintel (Windows
+ Intel) sempre foi o antagonista de Jobs e suas soluções
bem desenhadas, caras e destinadas ao consumo de artistas gráficos,
arquitetos e artistas. Agora Jobs se bandeou para o império,
e seu sistema ganhou imediatamente o apelido de MacTel. O programa
operacional da Apple, o Mac OS X, responde por menos de 5% do mercado
mundial. O Windows de Bill Gates aciona 93% dos PCs. A Apple chegou
a veicular anúncios em que zombava dos chips da Intel. Mas,
conforme revelou Jobs, ao lado do executivo-chefe da nova parceira,
Paul S. Otellini, as duas companhias estavam em negociações
havia cinco anos. Num prédio na sede da Apple no Vale do
Silício, a região da Califórnia que concentra
a indústria de alta tecnologia, técnicos trabalhavam
secretamente na adaptação dos produtos da Intel às
necessidades dos computadores da empresa. A mudança tem várias
explicações. Existiram, por um lado, razões
também financeiras.
David Paul Morris/AFP
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EX-INIMIGOS
Otellini, da Intel: a Apple, que antes zombava da empresa,
agora virou freguesa |
O relacionamento da Apple com a IBM estava estremecido porque a
fornecedora se negou a atender aos apelos de Jobs para reduzir suas
margens de lucro a fim de que a Apple pudesse colocar computadores
mais baratos no mercado. Do lado da IBM, a parceria também
já não agradava. Hoje a empresa tem uma clientela
diversificada na área de chips e foca seus esforços
em mercados como o de videogames é a provedora do
produto, por exemplo, para o console Xbox, da Microsoft. Como a
Apple representa uma parcela ínfima de seus negócios,
já não valia a pena mover tantos esforços para
atender a suas exigências. A Intel, por seu turno, vem de
uma parceria bem-sucedida com a Microsoft e produz chips bons e
baratos. Estima-se que o preço dos computadores Macintosh
cairá até 20% graças à nova associação.
As limitações tecnológicas
dos chips da IBM também foram um fator que pesou na decisão
de Jobs. A fornecedora já não produzia chips com a
capacidade de processamento cada vez maior exigida pelos Macintosh
e que, ao mesmo tempo, consumissem menos energia e estivessem menos
sujeitos ao superaquecimento. Isso poderia comprometer a evolução
dos computadores da Apple, sobretudo em nichos estratégicos
como o dos laptops. A associação com a Intel, em tese,
eliminaria tais limitações. Mas ela coloca a Apple
diante de outras incertezas. O que faz de um Macintosh um Macintosh
não é seu chip, e sim seu sistema operacional elegante
e seu design arrojado. A mudança de chip não afetará
isso em nada trocar o motor de um carro pode aumentar sua
potência, mas ele continuará sendo o mesmo carro. Para
os fãs mais xiitas do Macintosh, contudo, a adoção
do mesmo fornecedor de chips da concorrente pode abrir caminho para
uma perda de identidade. O que impediria um usuário do Mac
de instalar o Windows, sistema da Microsoft, em seu micro? Ou, então,
que o sistema da Apple se disseminasse pelos demais computadores,
com todos os seus cultuados diferenciais? Por incrível que
pareça, os movimentos de Jobs sinalizam que os computadores
da Apple se aproximarão, sim, cada vez mais dos PCs. O empresário,
que já definiu o Macintosh como "a Ferrari dos computadores"
para justificar seus altos preços, deu mostras nos últimos
anos de que quer popularizar seus produtos. A mudança de
chip é mais um lance nessa direção.
Jean-Pierre Clatot/AFP
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FORÇA
RIVAL
Bill Gates, da Microsoft: a Apple cada vez mais próxima
de seus PCs |
Os primeiros Macs dotados de chips Intel chegarão ao mercado
em junho do ano que vem. Talvez por precaução, a estratégia
de Jobs para a transição de um produto para outro
deixa aberta uma porta para a retomada da aliança com a IBM.
A princípio, conviverão no mercado modelos com os
dois tipos de chip. A empresa garante que fará de tudo para
evitar que os consumidores enfrentem outra transição
traumática quer dizer, cara. Já faz algum tempo,
disse Jobs, que a Apple vem lançando, sem alarde, computadores
que podem dialogar com recursos compatíveis com o futuro
chip da Intel. Como um dos desafios é fazer com que os consumidores
continuem comprando os computadores atuais da empresa, ainda equipados
com o chip Power PC, a Apple colocará no mercado uma ferramenta
capaz de adaptar os softwares de um modelo para outro, o Rosetta.
Ainda assim, muita gente reage com ceticismo. "A Apple tem um histórico
de criar plataformas que são facilmente ultrapassadas", disse
o consultor americano All Gillen ao jornal The New York Times.
"No fundo, a estratégia consiste em fazer os usuários
trocar seus produtos antigos pelas novidades."
Se
há alguém no mundo da informática com cacife
para enfrentar uma transição arriscada como essa é
Steve Jobs. Aos 50 anos, ele é um visionário da tecnologia.
Lançado em 1984, o Macintosh foi o primeiro computador pessoal
de uso fácil e intuitivo. Já dotado de recursos como
o mouse e o ambiente gráfico baseado em janelas, ele estabeleceu
o padrão vigente até hoje nos micros. E o cérebro
da Apple se reinventou várias vezes. Depois de revolucionar
a tecnologia com o Macintosh, Jobs passou por um período
de inferno astral. A empresa, que chegou a deter 85% desse mercado,
viu seu reinado ruir. Embora ela tenha saído na frente, a
concorrência logo inundou o mercado com similares a preços
bem mais acessíveis o tipo de situação
que se tornaria uma sina para a Apple. A isso se somaram perdas
com projetos que não vingaram. Jobs foi afastado do comando
da companhia em 1985 e se mudou para a Europa a fim de curtir a
vida. Não demorou muito, contudo, para voltar à cena
com novos projetos. O principal deles foi a compra da Pixar, estúdio
de animação que, associado à Disney, se tornou
a potência por trás de sucessos como Procurando
Nemo. Jobs retornou ao comando da Apple em 1997 e, a partir
de então, conduziu uma série de inovações
que consolidaram a grife Macintosh.
Em 2001, Jobs detonou uma revolução
em outra área: o comércio de música digital.
Primeiro ele lançou o iTunes, um site de venda de canções
em formato MP3. Numa época em que a indústria fonográfica
ainda via a internet com desconfiança, Jobs mostrou que era
possível vender música na rede em larga escala
e de forma lucrativa. Quase ao mesmo tempo, ele teve sua maior sacada
desde a criação do Macintosh: colocou no mercado o
iPod, aparelhinho capaz de armazenar até 15.000 músicas
em formato MP3. Do ponto de vista comercial, essa invenção
e o iTunes se completam num círculo virtuoso. A Apple vendeu
mais de 15 milhões de unidades do iPod em quatro anos. O
aparelho se transformou num fenômeno comportamental
e responde por uma parcela cada vez maior do faturamento da companhia.
Jobs está sempre à frente. Ainda que isso tenha um
preço alto para seus fãs. Talvez o MacIntel mude tudo.
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Agarre-me se for capaz
O Macintosh, computador criado
pelo visionário Steve Jobs, está sempre
à frente em matéria de tecnologia
e obriga seus usuários a se manter atualizados
Fotos divulgação
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1984
A Apple lança o Macintosh, primeiro computador
pessoal de uso intuitivo. Ele traz recursos que virariam
universais, como o mouse e o ambiente gráfico
com janelas
1991
Em menos de dez anos, a Apple chega à sétima
versão de seu sistema operacional. A novidade
é o Quick Time, programa que permite rodar vídeos
com facilidade no micro
1994
A Apple troca seu antigo chip, da Motorola, por um novo,
produzido por essa empresa em associação
com a IBM o PowerPC
1997
Sai a terceira geração do Macintosh, que
inaugura a busca pelo design diferenciado que se tornou
uma marca do computador
1998
Com o lançamento do iMac, a Apple consegue aumentar
sua participação no segmento dos micros
domésticos
2001
O Macintosh OS X, décima versão de seu
sistema operacional, representa um salto mas
a transição é dolorosa. Desde então,
saíram cinco versões do sistema, contra
só duas do concorrente Windows
2004
Os modelos da quinta geração do Macintosh,
como aquele em que todo o computador se concentra num
monitor de pequena espessura, tornam-se objetos de desejo
dos amantes da tecnologia
Janeiro
de 2005
Chega ao mercado o Mac Mini, modelo econômico
com o qual a Apple pretende atingir mais consumidores
Hoje
A empresa anuncia para 2006 a troca do chip da IBM pelo
produto da Intel, sua oponente histórica. A promessa
de uma transição suave é vista
por muitos com ceticismo
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