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ONU O
recuo do Brasil Sem apoio na busca de um lugar
no Conselho de Segurança, o país oferece abrir mão do
poder de veto 
José Eduardo Barella
A política externa brasileira
tem um objetivo, quase uma obsessão: colocar o país num assento
permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há
um mês, em parceria com a Alemanha, a Índia e o Japão
com os quais forma o grupo do G-4 , o Brasil apresentou à organização
a proposta de criar mais seis vagas permanentes. Os autores do plano querem dividir
entre eles as novas cadeiras e deixar as duas restantes para nações
africanas, ainda por escolher. Atualmente o Conselho de Segurança tem quinze
membros, cinco deles permanentes (Estados Unidos, França, Rússia,
Inglaterra e China). Os outros dez são rotativos, eleitos para mandatos
de dois anos, sem direito a reeleição. Plano apresentado, os diplomatas
brasileiros saíram à cata de apoio para reformar o Conselho
são necessários os votos de dois terços dos 191 países
representados na Assembléia-Geral da ONU. Na semana passada, sem conseguir
simpatizantes, o grupo ofereceu uma barganha: para sentar entre os graúdos,
abre mão do direito a veto durante os quinze primeiros anos.
O recuo do G-4 é uma resposta aos olhares atravessados que recebe de todos
os lados, sobretudo de países que fazem parte do Conselho. Os Estados Unidos
acham que a expansão do Conselho de Segurança só deve ser
cogitada depois de outras reformas na ONU. Na semana passada, os americanos também
expressaram insatisfação com as aspirações da Alemanha.
Trata-se de vingança do governo Bush pela oposição alemã
à invasão americana do Iraque, em 2003. A China, por sua vez, não
admite a idéia de conceder ao Japão o status de potência regional.
Pequim planeja ser a potência hegemônica na Ásia e não
quer a concorrência dos japoneses. A ascensão da Índia, por
sua vez, não é aceita pelo Paquistão. A Itália não
entende por que o lugar seria da Alemanha e não dela própria. Por
fim, México e Argentina se opõem à pretensão brasileira.
Os países que não aceitam
o projeto do G-4 até já formaram um grupo próprio, o Unidos
pelo Consenso. Inclui México, Argentina, Espanha, Coréia do Sul,
Itália e Paquistão e apresentou seu projeto de reforma do Conselho
de Segurança. Mais do que birra, ocorre que o Brasil e seus amigos não
oferecem argumentos capazes de convencer os outros países de que devem
ser conduzidos a uma posição de liderança. A justificativa
apresentada é que, devido às dimensões de suas economias,
territórios e população, os quatro países são
representantes naturais de suas regiões. Os bloco Unidos pelo Consenso
considera os critérios demasiadamente subjetivos. O Japão tem poder
econômico na Ásia, mas não territorial. O Brasil é
o maior e mais populoso país da América Latina, mas o produto interno
bruto do México é maior. Não é de surpreender que
a proposta defendida pelo G-4 tenha acirrado antigas rivalidades e levado países
com disputas regionais a se unir para combater o plano dentro da ONU.
Um argumento forte diz respeito à
própria ampliação da quantidade de membros permanentes. Os
cinco atuais são os vencedores da II Guerra e constituem, na visão
dos críticos, uma anomalia histórica. Aumentar o número de
privilegiados seria amplificar essa anomalia, não corrigi-la. "Em vez dos
atuais cinco, serão onze os países com esses superpoderes, em detrimento
de outras 180 nações", disse a VEJA a embaixadora do México
em Brasília, Cecilia Soto. A proposta do grupo do México é
ampliar o número de membros rotativos e estabelecer a possibilidade de
reeleição, que hoje não existe. Dessa forma, um país
com liderança e respeitabilidade poderia continuar por décadas dentro
do Conselho desde que se submetesse a eleições periódicas
na ONU. "Os brasileiros não elegeram Lula para ele ficar eternamente no
poder, e sim para um mandato de quatro anos", disse a VEJA o embaixador argentino
nas Nações Unidas, Cesar Mayoral. "Essa é a diferença
entre a proposta do G-4 e a nossa: dar a um país um assento permanente
no Conselho de Segurança tem o mesmo peso de oferecer um cargo vitalício
a um político", acrescentou.
Nessa corrida, o Brasil causou má impressão ao se mostrar disposto
a pagar qualquer preço por um voto. Numa seqüência apressada,
reconheceu a China como economia de mercado, o que aumenta a concorrência
chinesa com os produtos latino-americanos, e se mostrou ambíguo sobre o
conceito de democracia numa reunião com países árabes. Para
mostrar serviço, o país encarou o desafio de comandar a missão
militar da ONU no Haiti, que ameaça converter-se em fracasso. Mais constrangedora
foi a decisão brasileira de se abster na votação da ONU que
exigiu a retirada síria do Líbano em troca do voto de Damasco. Os
sírios acabaram saindo de qualquer jeito, e o Brasil isolou-se entre as
democracias. Essas atitudes plantaram em vários governos dúvidas
sobre a sabedoria de entregar ao Brasil uma cadeira permanente no Conselho de
Segurança.
| Argumentos
do contra
Como a lógica do México e da Argentina
implodiu o plano brasileiro na ONU O
QUE O BRASIL QUERIA
Ocupar um lugar permanente e com direito a veto no Conselho de Segurança
da ONU COMO PRETENDIA
FAZER ISSO
Criar mais seis vagas permanentes e ocupar uma delas
O QUE DIZEM OUTROS PAÍSES
A existência de membros permanentes é uma anomalia histórica.
Aumentar seu número só amplia a distorção
A medida envolve risco, pois o país pode virar uma ditadura e não
há como tirá-lo do CS
O critério
de representatividade regional não se sustenta, pois o país-membro
representa apenas os interesses de seu governo
Um
membro temporário pode ser julgado em eleições periódicas
e substituído
A disputa por uma vaga permanente está acirrando as rivalidades
regionais O QUE
FEZ O BRASIL
Manteve a candidatura à vaga permanente, mas abriu mão do
direito de veto nos primeiros quinze anos | |
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