Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Internacional
Um país que está
se dissolvendo

Protestos derrubam o presidente,
arruínam as instituições e deixam
a Bolívia à beira do colapso nacional


Ruth Costas

 

David Mercado/Reuters
Multidão ocupa praça de La Paz: na pauta de reivindicações, a nacionalização da indústria do gás

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Se fosse preciso escolher um símbolo da anarquia que se instalou na Bolívia, ele poderia ser a gravata. Nas ruas de muitas cidades, os engravatados são parados pela multidão e têm sua gravata arrancada do pescoço. A peça de vestuário é vista atualmente como um emblema da elite rica da Bolívia, e os manifestantes que dominam as ruas do país decretaram sua abolição. O que virá depois que os bolivianos tiverem destruído todas as gravatas? A Presidência da República, o Congresso Nacional e as demais instituições do governo e do Estado estão virando farelo. A indústria do gás natural está paralisada – e com ela a única oportunidade de o país fazer algum dinheiro em moeda forte. Na semana passada o cenário era desolador em La Paz, a capital boliviana. As estradas que dão acesso à cidade estavam bloqueadas, as aulas nas escolas foram suspensas, o transporte público foi interrompido, os alimentos começaram a sumir das prateleiras e não havia mais onde comprar gasolina e gás de cozinha.

Pressionado pelos protestos e greves, o presidente Carlos Mesa, que ficou apenas dezenove meses no cargo, foi obrigado a renunciar depois de semanas de manifestações, como seu antecessor, de quem era vice-presidente. A ironia é que a renúncia não resolve nada. O presidente nunca foi o problema, nem sua saída era a principal reivindicação dos protestos. A multidão nas ruas não aceitou seu substituto constitucional, o presidente do Senado, nem o segundo na linha de sucessão, o presidente da Câmara. A faixa acabou sendo entregue ao terceiro da lista, o presidente da Suprema Corte, Eduardo Rodríguez, que prometeu convocar eleições presidenciais. O que vem depois é uma interrogação.

 
AP
Carlos Mesa, o presidente que renunciou: isolado pelos protestos e sem apoio político

Não há ninguém no comando dos manifestantes bolivianos ou uma palavra de ordem que una todos os que protestam – exceto, talvez, a nacionalização das reservas de gás natural. Organizações indígenas, plantadores de coca, sindicatos de mineiros e de operários, professores, estudantes, cada grupo parece ter como único objetivo demonstrar ser mais radical que os demais. Alguns deles querem concorrer às eleições e promover uma reforma constitucional, talvez implantar algum tipo de socialismo. Outros pretendem fazer terra arrasada do que existe e pôr no lugar entidades utópicas. Felipe Quispe, líder de um partido indígena que conquistou 6% dos votos nas eleições de 2002, propõe recriar o império inca e se livrar de todos os descendentes de europeus existentes no país. "Esses movimentos sociais que agem à margem das instituições são os mais perigosos. Por sorte, a maioria ainda prefere a via constitucional", adverte o sociólogo Alvaro Garcia Linera, professor da Universidade de San Andrés, em La Paz. O que predomina entre os manifestantes é um clima genérico de oposição a tudo o que lembre modernidade, capitalismo, investimentos estrangeiros, globalização, agroindústria.

O efeito disso tudo é arrasador para a Bolívia. O país já ostentou a reputação de ter tido mais golpes de Estado do que anos de independência. Nos últimos vinte anos, contudo, foi relativamente estável, com eleições regulares e alternância no poder entre partidos tradicionais. O período de calma teve início com a terapia de choque que controlou a inflação, que batia em 24.000%, em 1985. Os bolivianos foram convencidos então de que valia a pena um pouco de dor a curto prazo com vistas ao que se ganharia a longo prazo. Duas décadas depois, há poucos ganhos tangíveis. A mortalidade infantil e outros indicadores sociais melhoraram, mas os níveis de renda estagnaram ou pioraram. A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul, com cerca de 30% da população com renda de menos de 1 dólar por dia. A sociedade é desigual, com a pobreza concentrada nos 62% de indígenas.

 
Fotos Dado Galdieri/AP
Manifestante mostra arma de madeira (à esq.), o líder cocaleiro Evo Morales (à dir.) e os mineiros com bananas de dinamite: política dos protestos

O que a Bolívia tem de especial são os movimentos populares, baseados nas tradições comunitárias indígenas. O homem por trás de muita baderna, e que agora tem boas chances de ser eleito presidente, é o deputado Evo Morales, do Movimento ao Socialismo, um índio aimará. Ex-presidente do sindicato dos plantadores de coca (a matéria-prima da cocaína), ele tem como inspiração política o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Nas eleições de 2002, Morales obteve 21% dos votos e liderou os protestos que derrubaram o presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, no ano seguinte. Os analfabetos ganharam direito de voto na revolução nacionalista de 1952, mas foi só nos anos 90 que os indígenas perceberam o poder que tinham nas mãos. Hoje, cinqüenta dos 130 deputados são índios, alguns deles em partidos tradicionais. "O direito a voto e a educação massiva dos indígenas aumentaram sua consciência política e eles passaram a reivindicar mais participação", diz o historiador Herbert Klein, professor da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, especialista em Bolívia.

A divisão no país, contudo, vai além das linhas étnicas. Os vários grupos políticos simplesmente não se entendem. Numa sociedade com instituições políticas sólidas, essas diferenças reverteriam em conflitos civilizados no Congresso, onde os representantes de cada movimento, eleitos pelo voto, tentariam reivindicar e negociar seus interesses. "O problema é que muitos bolivianos não conseguem entender a democracia formal nem acreditar nela", disse a VEJA o economista e sociólogo Roberto Laserna, pesquisador do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social, em Cochabamba. "Todos querem uma participação mais direta, uma democracia das ruas." Nas últimas décadas, o processo de urbanização tornou mais evidente o abismo entre as elites, brancas e ricas, e os pobres, índios e mestiços.

As divisões regionais são mais recentes. O Altiplano dos Andes, onde fica a capital, é habitado sobretudo por índios que vivem da agricultura de subsistência. A província de Santa Cruz e três outras da região souberam se aproveitar do processo de abertura da economia boliviana, iniciado na década de 80, para atrair capital externo e desenvolver a economia local. A região, que hoje possui um setor agrícola dinâmico e boa infra-estrutura para a extração de gás, praticamente leva a Bolívia nas costas. É responsável por quase metade das exportações e 30% do PIB do país. Inconformada por não poder opinar nas questões tributárias e ter de engolir governadores indicados por La Paz, quer um plebiscito para ter autonomia. É essa região que produz o gás natural levado por gasoduto até o sul do Brasil. Se não houver nenhuma solução nesta semana para a paralisação da indústria do gás, em duas semanas começará a faltar gás no Brasil. A Petrobras e outras empresas estrangeiras investiram 3,5 bilhões de dólares na Bolívia e agora estão ameaçadas pela nova lei, aprovada sob a pressão das multidões nas ruas, que aumentou os tributos sobre a exportação de gás natural de 18% para 50%. O separatismo era o que faltava para levar a Bolívia à total desordem. "É como numa tragédia grega: os personagens parecem não se dar conta, mas fica cada vez mais evidente que tudo caminha para um fim desastroso e inevitável", diz o economista Alejandro F. Mercado, diretor do Instituto de Estudos Sócio Econômicos da Universidade Católica Boliviana, em La Paz.

 

 

 
 
 
 
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