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Internacional Um
país que está se dissolvendo
Protestos derrubam o presidente, arruínam as instituições
e deixam a Bolívia à beira do colapso nacional
 Ruth
Costas David
Mercado/Reuters
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Multidão ocupa praça de La Paz: na pauta de reivindicações, a nacionalização da
indústria do gás |
Se fosse preciso
escolher um símbolo da anarquia que se instalou na Bolívia, ele
poderia ser a gravata. Nas ruas de muitas cidades, os engravatados são
parados pela multidão e têm sua gravata arrancada do pescoço.
A peça de vestuário é vista atualmente como um emblema da
elite rica da Bolívia, e os manifestantes que dominam as ruas do país
decretaram sua abolição. O que virá depois que os bolivianos
tiverem destruído todas as gravatas? A Presidência da República,
o Congresso Nacional e as demais instituições do governo e do Estado
estão virando farelo. A indústria do gás natural está
paralisada e com ela a única oportunidade de o país fazer
algum dinheiro em moeda forte. Na semana passada o cenário era desolador
em La Paz, a capital boliviana. As estradas que dão acesso à cidade
estavam bloqueadas, as aulas nas escolas foram suspensas, o transporte público
foi interrompido, os alimentos começaram a sumir das prateleiras e não
havia mais onde comprar gasolina e gás de cozinha.
Pressionado pelos protestos e greves, o presidente Carlos Mesa, que ficou apenas
dezenove meses no cargo, foi obrigado a renunciar depois de semanas de manifestações,
como seu antecessor, de quem era vice-presidente. A ironia é que a renúncia
não resolve nada. O presidente nunca foi o problema, nem sua saída
era a principal reivindicação dos protestos. A multidão nas
ruas não aceitou seu substituto constitucional, o presidente do Senado,
nem o segundo na linha de sucessão, o presidente da Câmara. A faixa
acabou sendo entregue ao terceiro da lista, o presidente da Suprema Corte, Eduardo
Rodríguez, que prometeu convocar eleições presidenciais.
O que vem depois é uma interrogação. AP
 | | Carlos
Mesa, o presidente que renunciou: isolado pelos protestos e sem apoio político
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Não há ninguém
no comando dos manifestantes bolivianos ou uma palavra de ordem que una todos
os que protestam exceto, talvez, a nacionalização das reservas
de gás natural. Organizações indígenas, plantadores
de coca, sindicatos de mineiros e de operários, professores, estudantes,
cada grupo parece ter como único objetivo demonstrar ser mais radical que
os demais. Alguns deles querem concorrer às eleições e promover
uma reforma constitucional, talvez implantar algum tipo de socialismo. Outros
pretendem fazer terra arrasada do que existe e pôr no lugar entidades utópicas.
Felipe Quispe, líder de um partido indígena que conquistou 6% dos
votos nas eleições de 2002, propõe recriar o império
inca e se livrar de todos os descendentes de europeus existentes no país.
"Esses movimentos sociais que agem à margem das instituições
são os mais perigosos. Por sorte, a maioria ainda prefere a via constitucional",
adverte o sociólogo Alvaro Garcia Linera, professor da Universidade de
San Andrés, em La Paz. O que predomina entre os manifestantes é
um clima genérico de oposição a tudo o que lembre modernidade,
capitalismo, investimentos estrangeiros, globalização, agroindústria.
O efeito disso tudo é arrasador
para a Bolívia. O país já ostentou a reputação
de ter tido mais golpes de Estado do que anos de independência. Nos últimos
vinte anos, contudo, foi relativamente estável, com eleições
regulares e alternância no poder entre partidos tradicionais. O período
de calma teve início com a terapia de choque que controlou a inflação,
que batia em 24.000%, em 1985. Os bolivianos foram convencidos então de
que valia a pena um pouco de dor a curto prazo com vistas ao que se ganharia a
longo prazo. Duas décadas depois, há poucos ganhos tangíveis.
A mortalidade infantil e outros indicadores sociais melhoraram, mas os níveis
de renda estagnaram ou pioraram. A Bolívia é o país mais
pobre da América do Sul, com cerca de 30% da população com
renda de menos de 1 dólar por dia. A sociedade é desigual, com a
pobreza concentrada nos 62% de indígenas. Fotos
Dado Galdieri/AP
 |  | | Manifestante
mostra arma de madeira (à esq.), o líder cocaleiro Evo Morales
(à dir.) e os mineiros com bananas de dinamite: política
dos protestos |  |
O
que a Bolívia tem de especial são os movimentos populares, baseados
nas tradições comunitárias indígenas. O homem por
trás de muita baderna, e que agora tem boas chances de ser eleito presidente,
é o deputado Evo Morales, do Movimento ao Socialismo, um índio aimará.
Ex-presidente do sindicato dos plantadores de coca (a matéria-prima da
cocaína), ele tem como inspiração política o presidente
Hugo Chávez, da Venezuela. Nas eleições de 2002, Morales
obteve 21% dos votos e liderou os protestos que derrubaram o presidente Gonzalo
Sanchez de Lozada, no ano seguinte. Os analfabetos ganharam direito de voto na
revolução nacionalista de 1952, mas foi só nos anos 90 que
os indígenas perceberam o poder que tinham nas mãos. Hoje, cinqüenta
dos 130 deputados são índios, alguns deles em partidos tradicionais.
"O direito a voto e a educação massiva dos indígenas aumentaram
sua consciência política e eles passaram a reivindicar mais participação",
diz o historiador Herbert Klein, professor da Universidade Columbia, nos Estados
Unidos, especialista em Bolívia.
A divisão no país, contudo, vai além das linhas étnicas.
Os vários grupos políticos simplesmente não se entendem.
Numa sociedade com instituições políticas sólidas,
essas diferenças reverteriam em conflitos civilizados no Congresso, onde
os representantes de cada movimento, eleitos pelo voto, tentariam reivindicar
e negociar seus interesses. "O problema é que muitos bolivianos não
conseguem entender a democracia formal nem acreditar nela", disse a VEJA o economista
e sociólogo Roberto Laserna, pesquisador do Centro de Estudos da Realidade
Econômica e Social, em Cochabamba. "Todos querem uma participação
mais direta, uma democracia das ruas." Nas últimas décadas, o processo
de urbanização tornou mais evidente o abismo entre as elites, brancas
e ricas, e os pobres, índios e mestiços.
As divisões regionais são mais recentes. O Altiplano dos Andes,
onde fica a capital, é habitado sobretudo por índios que vivem da
agricultura de subsistência. A província de Santa Cruz e três
outras da região souberam se aproveitar do processo de abertura da economia
boliviana, iniciado na década de 80, para atrair capital externo e desenvolver
a economia local. A região, que hoje possui um setor agrícola dinâmico
e boa infra-estrutura para a extração de gás, praticamente
leva a Bolívia nas costas. É responsável por quase metade
das exportações e 30% do PIB do país. Inconformada por não
poder opinar nas questões tributárias e ter de engolir governadores
indicados por La Paz, quer um plebiscito para ter autonomia. É essa região
que produz o gás natural levado por gasoduto até o sul do Brasil.
Se não houver nenhuma solução nesta semana para a paralisação
da indústria do gás, em duas semanas começará a faltar
gás no Brasil. A Petrobras e outras empresas estrangeiras investiram 3,5
bilhões de dólares na Bolívia e agora estão ameaçadas
pela nova lei, aprovada sob a pressão das multidões nas ruas, que
aumentou os tributos sobre a exportação de gás natural de
18% para 50%. O separatismo era o que faltava para levar a Bolívia à
total desordem. "É como numa tragédia grega: os personagens parecem
não se dar conta, mas fica cada vez mais evidente que tudo caminha para
um fim desastroso e inevitável", diz o economista Alejandro F. Mercado,
diretor do Instituto de Estudos Sócio Econômicos da Universidade
Católica Boliviana, em La Paz.  |  |
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